terça-feira, 20 de julho de 2010

IV. A TRISTEZA, O TEDIO, O PAVOR

IV. A TRISTEZA, O TEDIO, O PAVOR


A vereda que sobe ao horto de Getsêmani é talhada no rochedo; passa primeiramente em frente ao túmulo de Absalão, sempre entulhado das pedras que nele jogam por desprezo ao filho revoltado [que ele foi], e alonga-se em seguida entre duas muralhas de rochas secas e frias.

Naquela noite inundavam-na as claridades da lua... e as sombras dos muros, dos ciprestes e das oliveiras estiravam-se muito negras no solo alvacento. Jesus, atravessada a torrente, tomara a dianteira, como o fazia às vezes, e avançava só, penosamente... quase a roçar as muralhas secas, como se sentisse necessidade de apoiar-se.

Atrás, o grupo amedrontado dos discípulos seguia-O, espreitando-Lhe os movimentos incertos e o caminhar infirme.

Nada interrompia o pesado silêncio daquela subida já dolorosa e que uma palavra do Cristo ia tornar lúgubre.

Com efeito, a um ponto da estrada tenebrosa, Jesus pára: parece oprimido e sem poder avançar mais, volta-se. Os Apóstolos se consternam à vista da Sua palidez assustadora... Todo o Corpo Lhe treme, tremulha-Lhe a voz entre os lábios cerrados, e Ele deixa cair estas palavras desoladoras:

– Eu estou triste... até o fundo d’Alma... e triste até a morte.

Que contraste! Ainda há pouco, quando descia as encostas do Ofel, tranqüilizava os Seus, e a coragem Lhe brotava forte e vivificante para ir levantar a alma cadente dos discípulos. E agora: Eu estou morrendo... de tristeza. Há apenas um instante, do outro lado da torrente, a Sua voz se elevava firme, vibrante, subindo como um derradeiro incenso até ao trono do Pai, pedindo sem dúvida, porém determinando ao mesmo tempo: Pater... volo... – Pai, Eu quero.

E agora, não só Ele já não quer, mas parece já não poder orar sozinho, pois diz aos Apóstolos: Parai ali... e orai... e velai... comigo.

Tem medo da solidão... e leva consigo os três privilegiados, Pedro, João e Tiago, e repete-lhes: Orai comigo, vigiai comigo.

Ainda uma vez, que mudança! Já não é o mesmo.

Os Apóstolos não compreendem nada. Nunca O haviam visto assim, medroso, tão vacilante, tão humano.
Viram-nO triste algumas vezes até a chorar; viram-nO irritado, severo em certos momentos, mas apesar de tudo senhor de si sempre.

Agora o leme parece largado, a Alma flutua-Lhe como um destroço à mercê de vagas encapeladas e invisíveis.

É de não se acreditar: Ele, desanimado, triste de tristeza mortal, Ele, com medo e amargamente entediado até à náusea suprema! Ele!

E os três, que estão parados a uma rocha à flor do solo, miram o Mestre que se vai a alguns passos mais longe, entra numa gruta sombria, profunda... eles aplicam o ouvido, escutam. Uma voz plangente sai do antro escuro: – Meu Pai, soluça Ele, se é possível, passe longe de mim este cálice doloroso e cheio...

Como? Que quer Ele dizer? Terão eles ouvido bem? – Passe, prossegue a voz terrificada e súplice, longe, longe de mim!

Que cálice? Por que rejeitá-lo?

Os Apóstolos se entreolham – não, não, já não é o mesmo, está mudado.
Sim, está mudado... ei-lO com efeito que cai de joelhos, não se agüenta mais.

– Meu Pai, repete incessantemente – pois diz sempre a mesma coisa e parece só desejar essa coisa – Meu Pai, tudo Vos é possível; passe longe de mim este cálice. Eu não o posso beber, passe...

E os Apóstolos, os três que O viram glorioso e fúlgido como a neve cintilante no Tabor, enxergaram-nO então não já de joelhos, não já de braços erguidos, não mais de Face erguida e a fitar o alto, porém estendido a fio, aniquilado... no chão...

“Que lamentável postura!” (Bossuet).

Será mesmo Ele, em verdade? E os três se recordam, Pedro principalmente. Quando um dia O tomara este à parte para Lhe dizer baixinho, por amor: – Absit, Domine (Mat 16, 22) – Não, Senhor; Vós entregue, flagelado, crucificado? Absit, nunca! Repreendera-o então abertamente o Mestre, até a Lhe dizer: – Vai-te, demônio tentador... a carne e o sangue não podem compreender as coisas de Deus...

... E lá está ela, essa coisa de Deus: um Ser estendido, sem movimento, a pedir e a suplicar, implorando misericórdia...

Os outros também se podem lembrar daquilo que Ele dizia falando da Sua Paixão: – Eu sofro singularmente... de a ver retardada... é um banho em que aspiro a mergulhar: Quómodo coárctor (Lc 12, 50)...

Pois bem, ei-la, a Vossa Paixão, estais nele, nesse banho tão suspirado – ei-lo, esse batismo de Sangue...
Para que então mostrar tanto ardor antes, se se havia de ter tão pouca coragem no momento!

E todos estes pensamentos abatem a tal ponto o espírito dos Apóstolos, que eles sucumbem também, aniquilados, e caem no torpor...

Quanto tempo assim ficam?
Quem sabe?

Súbito uma voz os desperta, uma mão toca-os: – Oh, como?... estais dormindo... tu, Pedro... que prometestes seguir-me... não podes vigiar... comigo, perto de mim... uma hora sequer!
Eles abrem os olhos – o semblante que os fita está coberto de um suor estranho, as mãos que os tocam estão úmidas de Sangue... será um sonho?

Continuam a não compreender nada – tartamudeiam, não sabem o que respondem, tornam a cair pesados no solo. E Jesus se vai embora só, desalentado, sem apoio humano, cambaleante; e ei-lO de novo por terra e a gemer o Seu mesmo estribilho que Lhe ditam a tristeza, o tédio e o pavor...

+ + +

(2ª Parte da obra “A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.
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