sexta-feira, 9 de julho de 2010

Se quisermos viver bem...

Se quisermos viver bem...

(Foto: Revolução espanhola)

Se quisermos viver bem, fá-lo-emos, a despeito dos nossos inimigos... a despeito das paixões... do demônio... das riquezas... do martírio.

a) A despeito dos nossos inimigos

Roubar-nos-ão, talvez, os bens, a reputação, a vida, mas não o céu!

b) A despeito das paixões

Estejamos persuadidos de que os Santos, feitos como nós de argila humana, experimentavam geralmente as nossas paixões, até as mais humilhantes, as mais mesquinhas. Ouviam o apelo para os cimos, mas sentiam o peso do grosseiro saibro do egoísmo. Em todas as existências humanas, há estas aspirações da altura, estas atrações do abismo. Os Santos, que eram realmente nossos irmãos na humanidade, foram generosos.

O que fizeram estes homens e estas mulheres, porque não poderia eu realizá-lo também? "Quod isti et istae, cur non ego?"

c) A despeito do demônio

Excita-nos ao mal, mas nada mais pode. Ora, o pecado consiste, não em ser tentado pelo demônio, mas em consentir, e o consentimento depende só de nós.

Assaltos multiplicados, na guerra, conseguem dominar todas as praças fortes. Na nossa época não há, diz-se, cidadela invencível. Sim, uma cidadela há inexpugnável: a do nosso foro interior, a do nosso livre arbítrio.

d) A despeito das riquezas

Sujeitam o homem aos gozos terrestres; açambarcam o coração e amolecem-no. Por isso Nosso Senhor falou delas com tanta severidade.

Mas, se as riquezas são perigosas, não são, em si mesmas, condenáveis. Há a temer o desvio e o abuso, sim. Mas com que direito se afirmaria que a fortuna é, por sua natureza e necessariamente, uma causa de perdição? Zaqueu, esse privilegiado que teve por hóspede Jesus Cristo, "era rico". (Luc. XIX, 2).

S. Luís, rei da França, e sua admirável mãe, Branca de Castela, viviam na opulência e santificaram-se no trono. Muitos ricos sustentam as boas obras, o apostolado católico sob todas as formas, e acumulam assim grandes méritos.

e) A despeito do martírio

Sem dúvida, os tiranos podem forçar os gestos exteriores, impelir, por exemplo, um cristão até ao altar dos falsos deuses, obrigar a mão dele a sustentar incenso diante dos ídolos. Mas nenhum déspota pode violentar a própria vontade.

Na primitiva Igreja, milhares e milhares de homens e mulheres permaneceram generosos, no seio de horríveis perseguições. Vejamos os mártires de hoje: os padres e religiosas de Espanha. Sabiam que, se apostatassem, os vermelhos satisfeitos com essa apostasia lhes poupariam, talvez, a vida. A alternativa foi-lhes algumas vezes  formulada e proposta: "Se renunciardes a fé, sereis livres; se vos obstinardes, sabeis bem o que vos espera".

Oh! sim, sabem o que vos espera...
E escolhem livremente a morte, e que morte!
Põem a sua glória em dar o sangue pela religião.

Os jornais reproduziram esta carta, na qual um vermelho conta como matou um padre:

"No momento em que lhe cravei o punhal na garganta, imaginem que este cão gritou ainda: Viva Cristo-Rei!"

Uma espanhola vermelha gloriou-se, ao microfone, de ter feito perecer (e de que modo!) vinte religiosas. Contava-o essa mulher, com alegria; experimentava a necessidade de expor ao mundo inteiro, pela rádio, os seus vinte assassínios.

A 21 de novembro de 1936, o jornal Itália publicava este telegrama, datado da Cidade do Vaticano:

"Segundo os primeiros cálculos, necessariamente aproximativos, o número de sacerdotes seculares e regulares, que caíram vítimas inocentes do ódio satânicos na Espanha, elevar-se-á à cifra enorme de 11.000".


(Imagem de Cristo em Madri servindo de alvo)

(Nota de rodapé: Pode parecer impossível. Mas não esqueçamos que a Espanha contava muitos padres e religiosos. Provasse um dia a história que o número das vítimas não foi tão grande, este será sempre muito considerável. A tradução espanhola insere aqui a seguinte nota:

"Prova eloquentíssima de que a destruição dos templos e o morticínio dos sacerdotes, em forma totalitária, foi coisa premeditada, é o seu número espantoso. Ainda que sejam prematuras as estatísticas, contamos cerca de 20.000 igrejas e capelas destruídas ou totalmente saqueadas. Os sacerdotes assassinados - contamos uma média de 10 por 100 nas dioceses devastadas; nalgumas chegam a 81% - somarão, só do clero secular, cerca de 6.000. Deram-lhes caça com cães; perseguiram-nos através dos montes; procuraram-nos com afã em todos os esconderijos. Matavam-nos sem julgamento. As mais das vezes, imediatamente, sem outra razão que o seu ministério social. As formas de assassinato revestiram características de barbárie horrenda. Calculam-se ainda em 300.00 os leigos que sucumbiram assassinados, só pelas suas idéias políticas e especialmente religiosas: em Madri, e nos três primeiros meses, foram assassinados mais de 22.000". - Carta coletiva do Episcopado espanhol, 1 de julho de 1937).

Cifra enorme, sim, tanto mais que não abrange as religiosas.

Exageraríamos, é verdade, sustentando que nunca se dá uma apostasia nas fileiras do clero tão ferozmente perseguido. Ai! é quase fatal que, num tão grande número de perseguidos, e diante do horror dos suplícios, alguns pânicos se tenham de deplorar. Quem ousaria afirmar que, na Espanha inteira, nem um só padre, nem uma só religiosa fraquejou?

Quanto a estes fracos, o justo Juiz apreciará a parte de alucinação, de terror que estorvou a reflexão. Que responsabilidade conserva a pobre natureza humana, em certos casos verdadeiramente atrozes? Seja como for, se alguns foram desertores, a grande maioria dos padres e dos religiosos, permaneceu fiel a Deus, à Igreja. A queda deste ou daquele serve para realçar o mérito e a valentia de tantos outros. Porque prova que a vontade dos mártires permanece livre, visto haver alguns que dizem não, quando a maior parte responde sim.

Ainda mais, a mesma pessoa responde algumas vezes sucessivamente sim, não, sim.

Prova-o a história dos mártires. Exemplo: Santa Córdula. O martirológico de 22 de outubro diz-nos que esta companheira de Santa Úrsula foi primeiro corajosa, depois se escondeu vergonhosamente, mas que enfim tomada de remorsos, sofreu heroicamente o martírio. Prova surpreendente da liberdade humana: esta mulher é generosa, depois covarde, depois mais uma vez generosa. A mesma vontade resiste, cede, emenda-se.

O Breviário de 10 de março oferece-nos um outro caso muito estranho. Os quarentas mártires de Sebaste esperavam a morte. O  homem que os guardava teve esta visão: anjos sobrevinham, trazendo trinta e nove coroas. Ouçamos a narração do breviário: "Ele dizia para si: Aqui, há quarenta pessoas. Onde está a coroa para a quadragésima? Enquanto fazia esta reflexão, um dentre eles, não sendo já assaz forte para suportar o frio, lançou-se no banho tépido que estava junto, e contristou muito os Santos. Mas Deus não permitiu que as orações deles fossem vãs: o guarda, espantado do fato... despojou-se dos vestidos e, depois de declarar bem alto que era cristão, juntou-se aos mártires".

(Em face do dever - Volume I, pelo Pe. G.Hoornaert, S.J, traduzido por Pe. Elísio Vieira dos Santos, o original que serviu para esta tradução é o da 1ª Edição francesa que tem por título: "Face au Devoir")

PS: Grifos meus, continua com o post: Se não quisermos viver bem...
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