sábado, 21 de novembro de 2009

Gratidão, além de palavras...



Não evitaremos o sofrimento
Sofrer! Este termo evoca todo um caos de suspiros, de angústias, de queixas, de lágrimas amargas, de sublimes adorações, de gritos lancinantes, de blasfêmias ímpias e de comovedoras grandezas morais. O som dado pela alma que sofre depende do metal em que ela é vazada.

Seja, porém, qual for o metal, a idade, a raça, a situação, a constituição física, o vigor ou a fraqueza moral, a dor fere e nunca deixará de ferir. Assim é desde a queda de Adão; assim será até o fim do mundo... Estamos, pois, em face de uma lei inelutável. Por mais que se berre, que se blasfeme, que se maldiga, com isso o sofrimento será apenas mais amargo, porém, não afrouxará o seu amplexo. Não será então melhor encará-lo de frente e pedir à Fé a arte de bem sofrer?

Atitudes diversas em face do sofrimento

Efetivamente, há muitas maneiras de sofrer.

- O estoicismo zomba: “Ó dor, tu não passas de um nome...” E, nesse gesto, há um orgulho condensado.
- A revolta blasfema, mostra o punho ao céu acusando a Deus e exprobrando-Lhe o torturar as suas criaturas.
- Em grau menor, ela murmura ou grita a sua frase conhecida: “Que fiz a Deus para que Ele assim me faça sofrer?...”
- A incompreensão só vê no sofrimento a picada dolorosa que ela não pode compreender; tal o ignorante que, em face de uma página de música só vê pontos pretos. E, depois, nós não admitimos que alguém nos possa compreender, se não passou pelo que nós passamos...
- A resignação faz-nos compreender que o mais sensato é aceitarmos, sem murmurar, aquilo que não podemos afastar.

A Atitude Cristã

Para a alma que ama a Cristo, a coisa é diversa; ela abraça o sofrimento com amor, às vezes mesmo vai-lhe ao encontro. Vê nele como que uma mensagem de amor, como um sacramento que contém uma vontade de Deus e que ela aceita.

Oh! Não é que os espinhos lhe sejam doces e a cruz leve! Não é que a sensibilidade, anormalmente desenvolvida, a induza a não sei que comprazimento mórbido na dor; não é que ela permaneça insensível em face da asperidade do sacrifício e das revoltas da natureza; porém essa alma acolhedora para com o sofrimento vive de fé, e reconhece a mão e o coração d’Aquele que só nos faz sofrer porque nos ama e porque nos quer tornar mais semelhantes a Si.

O pensamento de Jesus eleva-a acima de si mesma, une-a ao seu Redentor, faz-lhe desejar sofrer ainda mais, para ainda mais se parecer com Ele.


... Ela estuda Jesus padecente. Essa imagem que nos chega recoberta da lixívia de vinte séculos, ela sabe esforçar-se por compreendê-la na sua acuidade trágica. É este o trabalho da contemplação, que nos faz testemunha mudas e aterradas daquelas cenas de sangue, de ódio e de amor da primeira Sexta-Feira Santa.

Não tarda a alma a compreender que, se Cristo quis sofrer, sem dúvida foi pelo mundo em geral, mas foi também por ela. Penetrada então de gratidão imensa, ela quer fazer por Ele, em ponto pequeno, o que, divinamente, Ele fez por ela. Destarte, o sacrifício impõe-se como um dever de gratidão...

Praticamente

Vista de fora, qual será, pois a atitude da alma ante a provação? É relativamente fácil bendizer a cruz, desejá-la mesmo, enquanto ela não passa de uma imagem abstrata e remota... Mas, quando ela se abate pesadamente sem dizer “arreda!...”

Aí! Para muitos, é essa a hora de um despertar angustioso. A gente já não se lembra dos protestos de amor feitos num dia de fervor; os sofrimentos de Jesus não nos sensibilizam mais; os nossos aí estão, e já não vemos senão estes. Então, a gente se desdiz, indigna-se, protesta! Felizes de nós se conseguirmos parar no declive, ao menos na resignação!

...Outros, bravos, porém mais humildes, aceitam tudo de antemão, sem freses, sem “se”, sem “mas”, sem condições, calma e mesmo alegremente. A alegria no Fiat, não aumenta a dor, apenas duplica o mérito. É um suplementozinho gracioso, uma humilde flor do nosso jardim que oferecemos a Jesus. Porque ratinharmos com Ele?

Se Deus “ama aquele que dá com alegria”, não há de amar aquele que sofre com alegria?
É o mesmo prêmio, e tão mais belo, tão mais digno!

Enfim, há almas, e não são em geral as menos provadas, que não se satisfazem com as dores físicas e morais que formam o quinhão de cada um de nós neste mundo. Buscam o sacrifício por amor.


Compreendem que é o ato mais nobre, mais meritório que elas possam praticar; que é o amor elevado à sua suma potência; que ela tem de expiar por si e por outros; que às vezes são necessárias dores para poupar culpas; que o resgate de uma alma vale bem algumas horas de Calvário; que um instrumento precisa ser “brunido” de vez em quando, para manter-se em estado e poder servir... Enfim, que a alma, como a terra, necessita ser lavrada para ser fecunda...
(Figura - Martírio de São Bartolomeu)

...Destarte, ensaiam-se primeiro em sorrir à cruz, depois em cantar, depois em conformar-se a essa cruz, que se em incrustar-se nela, para poderem repetir a palavra do apóstolo:
“Estou pregado na cruz com Jesus Cristo”.

Contudo, não é o sacrifício voluntário o último degrau dessa via ascendente...Ninguém saberá sofrer melhor por Jesus do que a alma abandonada a todas as vontades divinas. Na provação como na alegria, ela permanecerá pequena, jubilosa e simples, bem tranqüila e bem amante. Deus, então, tratá-la-á como a uma criancinha, sabendo que ela nunca lhe dirá não!
***
Ó Jesus, que lição acabo de ler ai! Como ela é difícil de decorar! Sem dúvida, muitas vezes sucedeu-me sonhar com sofrimentos imaginários; isso lisonjeava deliciosamente o meu amor-próprio. Porém, mal a cruz se aproximava, brutal, rugosa, nua, eu me abatia, e talvez que a volta de mim as pessoas tivessem o direito de perguntar-se se eu ainda tinha fé! ...

Por toda a minha vida, pois, ficarei abaixo da minha tarefa!...

Quantas vezes não vo-Los hei prometido, esses sacrifícios que não tenho coragem de cumprir! Quantas vezes, em face do sofrimento, não tenho murmurado contra Vós! Quantas vez não tenho procurado despregar-me das cruzes em que o Vosso amor me havia, por um instante, estendido para meu maior bem!

Perdão, ó meu Redentor, é meu Rei crucificado! Perdão por haver sido tão pusilânime e tão covarde! De ora em diante, quando o sofrimento vier, encará-lo-ei bem de frente, pois através dele verei a Vós, e na minha cruz lerei a estampilha divina.

Vendo-Vos marchar na minha frente, com a Vossa Cruz nas costas, afigura-se-me que vos virais para me ver, de longe, se eu vos sigo.

Ó Vós que tanto me amastes, dai-me, pois a força de provar-vos a minha gratidão de outro modo do que com palavras! ...

(Mais perto de Ti, meu Cristo! – Pe. José Baeteman)
PS: Grifos meus
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