quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Do repouso da alma recolhida em seu bem-amado

São Francisco de Sales

O Tratado do Amor de Deus
Livro sexto - Capítulo VIII


Estando, pois, assim recolhida dentro de si mesma em Deus ou diante de Deus, a alma torna-se às vezes tão docemente atenta à bondade do seu bem-amado, que lhe parece que a sua atenção quase não seja atenção, tão simples e delicadamente é exercida: como sucede em certos rios que correm tão doce e igualmente, que, aos que os olham ou que sobre eles navegam, parece não verem nem sentirem nenhum movimento, porque absolutamente não se vêem tais rios ondular nem crispar-se. E é a esse amável repouso da alma que a bem-aventurada virgem Teresa de Jesus chama oração de quietude, quase não diferente daquilo que ela mesma denomina sono das potências, se todavia bem o entendo.
De certo, os amantes humanos contentam-se às vezes com estar junto ou à vista da pessoa a quem amam, sem lhe falarem, e sem discorrerem consigo mesmos nem sobre ela nem sobre as suas perfeições, saciados, ao que parece, e satisfeitos de saborearem essa bem-amada presença, não por qualquer consideração que sobre ela façam, mas por um certo aplacamento e repouso que seu espírito haure nela. Meu bem-amado me é um ramalhete de mirra, ficará sobre meu seio (Cânt 1, 12). Meu bem-amado é meu, e eu sou dele, que se apascenta entre os lírios, enquanto o dia ascende e as sombras se inclinam (Cânt 2, 16-17). Mostrai-me, pois, ó amigo de minha alma, onde pasceis, onde vos deitais ao meio-dia (Cânt 1, 6). Estais vendo, Teótimo, como a santa Sulamita se contenta com saber que seu bem-amado esteja com ela, ou no seu parque, ou noutro lugar, desde que saiba onde ele está: por isso ela a Sulamita está bem calma, bem tranquila e em repouso.
Ora, esse repouso passa algumas vezes tão adiante na sua tranquilidade, que toda a alma e todas as potências desta ficam como que adormecidas, sem fazerem nenhum movimento nem ação qualquer, exceto a vontade; a qual aliás não faz nenhuma outra coisa senão receber o contentamento e a satisfação que a presença do bem-amado lhe dá. E o que é ainda mais admirável é que a vontade não percebe essa satisfação e esse contentamento que ela recebe, fruindo insensivelmente dele, visto que não pensa em si, mas naquele cuja presença lhe dá esse prazer; como múltiplas vezes sucede que, surpreendidos por um sono leve, nós apenas entrevemos aquilo que nossos amigos dizem ao redor de nós, ou quase imperceptivelmente sentimos as carícias que eles nos fazem, sem sentirmos que sentimos.
Não obstante, a alma que nesse doce repouso goza desse delicado sentimento da presença divina, embora não perceba esse gozo, testemunha todavia claramente o quanto essa felicidade lhe é preciosa e amável, quando lha querem tirar, ou quando alguma coisa a desvia dela: porque então a pobre alma faz queixas, grita, às vezes até chora como uma criancinha a quem acordaram antes de haver dormido e bastante, a qual, pela dor que sente com o seu despertar, bem mostra a satisfação que tinha no seu sono. Pelo que o divino pastor adjura as filhas de Sião, pelos corços e veados das campinas, a que não acordem a sua bem-amada até que ela o queira (Cânt 8, 4), isto é, até que ela acorde por si mesma. Não, Teótimo, a alma assim tranquila em seu Deus não deixaria esse repouso por todos os maiores bens do mundo.
Tal foi quase a quietude da santíssima Madalena quando, sentada aos pés de seu Mestre, escutava a sua santa palavra (Lc 10, 39). Vede-a, rogo-vos: ela está sentada numa profunda tranquilidade, não diz palavra, não chora, não soluça, não suspira, não se mexe, não ora. Marta, azafamada, passa e terna a passar por dentre da saleta; Maria não pensa nisso. E que faz então? Não faz nada, mas escuta. E que quer dizer escuta? Quer dizer está ali como um vaso de honra a receber gota a gota a mirra de suavidade que os lábios de seu bem-amado destilavam no seu coração (Cânt 5, 13); e esse divina amante, cioso do amoroso sono e repouso daquela bem-amada, repreendeu Marta, que queria acordá-la: Marta, Marta, estás muita atarefada, e te perturbas com muitas coisas: uma só entretanto é necessária: Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada (Lc 10, 41-42). Qual foi, porém, a parte ou porção de Maria? Ficar em paz, em repouso, em quietude ao pé do seu doce Jesus.
Os pintores pintam ordinariamente e dileto São João na ceia, não somente repousando, mas dormindo sobre o peito de seu Mestre, porque ele ali esteve sentado à maneira dos Levantinos, de modo que a sua cabeça tendia para a seio de seu caro Mestre; e como ele não dormia sobre este de sono corporal, não havendo nenhuma verossimilhança nisto, assim também não duvido que, achando-se tão perto da fonte das doçuras eternas, ele ali não tivesse um profundo, místico e doce sono, como um filho de amor que, agarrado ao seio de sua mãe, mama dormindo, e dorme mamando. Ó Deus! que delícias para aquele Benjamim, filho da alegria de Salvador, de dormir assim nos braços de seu Pai, que, no dia seguinte, como o Benoni, filho de dor, o recomendou aos doces seios de sua mãe! Nada é mais desejável à criancinha, quer esteja acordada quer durma, do que o peito de seu pai e o seio de sua mãe.
Quando, pois, estiverdes nessa simples e pura confiança filial junto a Nosso Senhor, ficai nela, meu caro Teótimo, sem absolutamente vos mexerdes para fazerdes atos sensíveis, nem do entendimento nem da vontade; porque esse amor de simples confiança e esse adormecimento amoroso de vosso espírito nos braços de Salvador abrange por excelência tudo e que aqui e acolá ides procurando para vosso gosto. É melhor dormir sobre esse sagrado peito, da que velar alhures onde quer que seja. 
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