segunda-feira, 8 de março de 2010

Jejum e abstinência

Jejum e abstinência


O mundo moderno detesta a penitência e a mortificação, apregoando a necessidade de gozar-se a vida. Mas Cristo começou sua pregação com um convite à penitência: “Fazei penitência” (Mt. 3,2) e com uma advertência que é uma verdadeira ameaça: “Se não fizerdes penitência, todos perecereis” (Lc. 13,5).

Aliás, o estado em que nos deixou o pecado original exige de nós a mortificação, para conter as paixões e submeter-nos à vontade de Deus.

Obrigando-nos ao jejum e à abstinência, a Igreja não nos cria nenhuma obrigação nova, mas obriga ao cumprimento de um dever que está na doutrina de Cristo e nas nossas próprias necessidades, regulamentando-o apenas.

O jejum

1 – O jejum foi, em todos os tempos, um dos mais praticados meios de penitência.

a) No Antigo Testamento, jejuaram Moisés e Elias 40 dias (Ex. 24,18 e 3Rs. 19,8); havia dias obrigatórios de jejum (Lv. 16,29-31).
b) No Novo Testamento, Jesus começa a vida pública por 40 dias de jejum no deserto (Mt. 4,2); São Paulo fala dos seus muitos jejuns (2 Cor. 11,27); os cristãos jejuavam (At. 13,2).

2 – Sempre se atribuíram ao jejum os mais variados e salutares efeitos.

a) No Antigo Testamento, jejuavam para evitar castigos divinos (Rs. 21, 27-29), para expiar os pecados (Jn. 3,4-10), para alcançar graças (Est. 4,16-17), para ser espiritualmente forte (I Rs. 7,6-11), etc.
b) No Evangelho diz Jesus que pelo jejum se reprimem os demônios (Mt. 17,20).
c) A Igreja ensina que o jejum reprime os vícios, eleva as mentes, concede a virtude (Prefácio da Quaresma). A Liturgia chama-o de remédio ao pecado, purificação, penhor de perseverança, etc. (Ver no Missal numerosas referências ao jejum, principalmente nas Missas da Quaresma).

Como se jejua

1 – A essência do jejum está em se tomar uma única refeição pleno no dia, permitindo-se ligeira refeição pela manhã e à tarde.

2 – Na refeição plena pode-se comer quanto o apetite pedir. No café da manhã pode-se tomar leite ou café com uma regular quantidade de pão com manteiga. Na refeição da tarde, à hora do jantar, pode-se tomar a metade do que se costuma nas refeições comuns.

3 – Líquidos não quebram o jejum, salvo os que se tomam à moda de alimento, e não de simples bebida, como leite, chocolate, caldos de carne, etc.

4 – Nos dias de jejum sem abstinência, pode-se comer carne em uma das refeições apenas.

O preceito do jejum

1 – Estão obrigados ao jejum todos os fiéis, desde os 21 anos feitos aos 60 começados. A razão é que a Igreja não impõe a ninguém ônus superior ou nocivo a suas forças.

2 – O jejum, como a abstinência, é uma lei grave que obriga sob pena de pecado mortal, admitindo parvidade de matéria e casos de dispensa.

3 – São dias de jejum com abstinência:

a) quarta-feira de cinzas;
b) sexta-feira santa; [1]

Abstinência

1 – A abstinência proíbe o uso de carnes. [2]

2 – Estão obrigados à abstinência todos os fiéis que tiverem completado 14 anos [3] e não tiverem justa causa de dispensa.

3 – São dias de abstinência todas as sexta-feiras do ano (exceto as que caem em festas de preceito, inclusive durante a Quaresma). [4]

4 – Estão dispensados da abstinência:

a) os mendigos que só têm para comer o que recebem de esmola;
b) os doentes que não podem alimentar-se de outra coisa;
c) os operários que se ocupam de trabalhos muito pesados;
d) os que recebem alimentação coletiva, quando não lhes fornecerem outro alimento;
e) os que viajam, se não tiverem outro alimento.

Dispensa do jejum

1 – Estão dispensados do jejum:

a) os mendigos;
b) os doentes e convalescentes;
c) as pessoas realmente fracas, que se sentiriam gravemente mal se jejuassem;
d) os que trabalham em trabalhos pesados, como cavar a terra, lavrar pedra, etc.;
e) as senhoras que estão grávidas ou amamentando;
f) os professores que dão 4 a 5 horas de aula por dia.

2 – Os que não tiverem certeza de que estão dispensados peçam dispensa à autoridade competente, que pode ser:

a) o Papa para todos os fiéis;
b) o bispo para seus diocesanos;
c) o vigário para seus paroquianos.

Para viver a doutrina

1 – O espírito do mundo é de gozo da vida. Não se fala no mundo em outra coisa. Vivemos no meio do mundo. Facilmente nos contagiamos. Mesmo sem sentir, ficamos pensando como pagãos, de modo anticristão. Mas o espírito de Cristo é um espírito de penitência, de mortificação, e de renúncias. Se queremos ser discípulos de Cristo, não temos outro caminho: é segui-Lo. “Se alguém quer ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me”.

2 – Infelizmente, alguns não querem mais crer no valor da penitência. Nem mesmo os preceitos da Igreja querem observar. É lamentável a facilidade com que desobedecem à lei do jejum e da abstinência, apesar de saberem que constitui pecado mortal.

Se não tenho ainda obrigação de jejuar, tenho de me abster de carne nos dias determinados. E hei de fazer isto, custe o que custar. Darei um bom exemplo, além de cumprir o meu grave dever de consciência.

3 – Não acreditemos facilmente nas escusas para a penitência. Principalmente quando se trata de jejum e abstinência de preceito. Pessoas tão fracas para jejuar têm tanta resistência para esportes, para as noites de baile, para os caprichos da moda, etc. Antes, devemos temer que isto seja uma diminuição do espírito religioso, perda de fé, indiferença às coisas espirituais, falta de resistência à gula. Não é tanto a fraqueza do corpo, mas sim a fraqueza espiritual.

4 – Só nos acostumaremos à penitência obrigatória, se nos acostumarmos à voluntária. O hábito da temperança, longe de ser nocivo à saúde, é benéfico. E muito mais benéfico ainda ao espírito. Alimentar-se sempre com moderação, tomar os alimentos de que não gosta, servir-se de tudo o que vem à mesa, são hábitos que nenhum prejuízo trazem, mas trazem grandes benefícios. Nunca permitamos que a nossa alma se escravize ao corpo; antes sujeitemos a carne ao espírito.

5 – A desobediência à lei da abstinência e do jejum está precisando de um corretivo. Em parte é a ignorância religiosa: muitos pensam que só vale jejuar quando se tem vontade. Não se lembram de que são obrigados por obediência. Em parte é a fraqueza da vontade. E a submissão ao espírito do mundo. Não querem fazer penitência, mas gozar a vida. Façamos contra isso o nosso apostolado.

6 – Não esqueçamos os frutos do jejum mesmo para o corpo. Já hoje a medicina está curando certos males pelo jejum. Digam os homens de estudo, se o jejum não é um poderoso auxiliar da inteligência, cuja força se alimenta com a moderação do comer e beber e se enfraquece com os excessos da mesa.

(Excertos do livro: O Caminho da vida – Pe. Álvaro Negromonte - Edição de 1954)

PS: Com base na Constituição Apostólica Panitemini, de Paulo VI, publicada em 17 de fevereiro de 1966 (AAS 54 [1966] 177-185}, essas alterações foram feitas no texto:

[1] Retirei: "c) as vigílias de Natal e da assunção."
[2] Retirei: "Caldos de carne".
[3] Alterei a idade, de 7 para 14 anos.
[4] Acrescentei o que está entre parênteses.
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