segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 1 de Novembro - O mês das almas (Parte II)

Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre



1.º de Novembro

O MÊS DAS ALMAS

Novembro é o mês consagrado pela nossa devo­ção ao sufrágio das almas do purgatório. Ainda esta­mos no Mês do Rosário, porque S. S. Leão XIII, quan­do estendeu a toda Igreja o Mês do Rosário, quis que a rainha das devoções a Maria fosse compreendida na devoção dos fiéis como a devoção que une as três Igrejas. Vai o Mês do Rosário até 2 de Novembro, para que o tesouro da rainha das devoções marianas possa beneficiar a Igreja padecente. Novembro é dedicado ao culto dos mortos, à devoção às almas do purgatório. De primeiro a trinta deste mês, vamos relembrar nossos deveres de justiça e de caridade para com nossos defuntos, vamos sufragar-lhes as pobres almas que estão sofrendo no purgatório. Como é bela e utilíssima esta devoção!

Nos dois primeiros dias, unidos à Mãe Santíssi­ma do Rosário, comecemos devota e fervorosamente o Mês das Almas. Mês da saudade e mês do sufrágio. A Igreja nos dá cada ano alguns meses destinados a incentivar algumas devoções: Março, o mês do que­rido Patriarca São JoséMaio, o belo mês de Maria. Cantamos o louvor de Nossa Senhora e estimulamos nosso amor e devoção à Mãe de Deus e nossa Mãe. Junho traz-nos a piedade do Coração Santíssimo de Jesus. É o mês do fervor, do amor d’Aquele Coração que tanto amou os homens, mês de reparação. Outubro, o belo mês do Rosário pelo qual a Igreja quer incentivar nos fiéis zelo e amor pela rainha das devoções a Maria. Finalmente, aí vem Novembro, o mês das Almas. Porque em Novembro? Outubro veio a ser o mês do Rosário porque nele está a festa da Virgem do Rosário. Em Novembro temos a festa da Comunhão dos Santos — e o dias dos mortos. Que mês seria mais próprio para o mês dos mortos, o mês das almas do purgatório?

Vamos, pois, incentivar nossa devoção, direi me­lhor, nossa compaixão pelas almas sofredoras. Neste mês meditemos, rezemos, soframos, façamos tudo que nos seja possível para que o purgatório receba mais sufrágios e para que as lições deste dogma ter­rível e consolador a um tempo, nos aproveitem bem.

Tenhamos compaixão das pobres almas! Si soubéssemos o que elas padecem! Si tivermos uma fé mais viva, sentiremos a necessidade de fazermos tu­do ao nosso alcance para que este mês seja rico de boas obras, rico de preces fervorosas e sobretudo de Santas Missas e indulgências em favor do pur­gatório.

Neste mês podemos lucrar ricas indulgências...
...Uma indulgência de três anos uma vez cada dia, si fizermos qualquer exercício em sufrágio das al­mas; uma indulgência plenária para os que fizerem todo o Mês das Almas, contanto que confessem e co­munguem e rezem pela intenção do Santo Padre o Papa num dia do mês. Aos que assistirem os exercí­cios, indulgência de sete anos cada dia do mês. E indulgência plenária na forma do costume. (P. P. O. 543.)

No dia 2 de Novembro há grande indulgência. Uma indulgência plenária cada vez a quem visitar as igrejas rezando seis Padre Nossos e Ave Marias nas intenções do Sumo Pontífice.

Vamos, pois, façamos tudo pelas almas neste mês!

O dogma da Comunhão dos Santos

Rezamos no Credo: Creio na Comunhão dos Santos! Quanta gente não pergunta curiosa, porque o ignora: “Que vem a ser Comunhão dos San­tos?” .Antes de começarmos a meditar nestes dias de Novembro o dogma do purgatório, é mister, no dia de Todos os Santos, no dia em que a Igreja vive o dogma da Comunhão dos Santos, lembrarmos o que ele é e as riquezas espirituais que nos trás. É o dogma da solidariedade dos fiéis. Santos, são os cristãos na graça de Deus. Os primeiros cristãos eram assim chamados. Santos, são os justos no céu, os que se salvaram e estão na posse de Deus. Santos, são os justos que padecem no purgatório. Não são verdadeiramente santas aquelas almas confirmadas na graça e à espera da eterna visão do céu? Pois comunhão ou comunicação é a união dos fiéis da terra, do céu e do purgatório. Formam eles as três Igrejas — a Igreja militante, somos nós os que combatemos neste mundo; a Igreja triunfante, os fiéis já no céu no triunfo eterno da glória; e a Igreja padecente, os fiéis que se purificam nas chamas do purgatório. Todos são membros de Cristo. Todos formam o Corpo Mís­tico de Cristo, nossa Cabeça. Estamos todos unidos em Jesus Cristo como os membros unidos à cabeça. Que sublime doutrina!

Cristo Nosso Senhor é glorificado no céu pelos membros triunfantes; sofre no purgatório nos seus membros padecentes; luta conosco neste mundo com os membros militantes. Pois com esta doutrina admirável do Corpo Místico, podemos nos auxiliar uns aos outros nesta sublime solidariedade em Cristo e por Cristo.

As almas do purgatório já não podem mais me­recer, dependem de nós os que ainda temos à nossa disposição os tesouros da Redenção e os méritos de Cristo. Podemos ajudá-las, podemos socorrê-las e dependem de nós. Por sua vez os Santos do céu juntos de Deus, na posse da eterna felicidade podem nos valer nesta vida, podem interceder por nós. Então recorremos à Igreja triunfante, pedindo socorro, e ajudamos por nossa vez à Igreja padecente. Eis aí o que é o dogma da Comunhão dos Santos. Podem os San­tos dos céu ajudar as almas do purgatório? Há rela­ções entre a Igreja triunfante e a Igreja padecente? Cremos que sim. Santo Tomás de Aquino o afirma.

Muitos autores o ensinam. Os Santos não podem merecer no céu como nós aqui na terra. Portanto, satisfazer pelas almas não podem, mas pedir e interceder por elas muitos teólogos o afirmam com muito fundamento. E demais, há uma oração da Igreja que nos autoriza esta crença. Ei-la: “Ó Deus, que perdoais aos pecadores e que desejais a salvação dos ho­mens, imploramos a vossa clemência por intercessão da Bem-aventurada Maria sempre Virgem e de to­dos os Santos, em favor de nossos irmãos, parentes e benfeitores que saíram deste mundo, a fim de que alcancem a bem-aventurança eterna”.

Outra oração, “Fidelium”, repete a mesma súpli­ca. Os primeiros cristãos sepultavam os mortos jun­to do túmulo dos Santos para lhes implorar a inter­cessão. Podemos pois crer que os Santos, não como nós, mas intercedendo e pedindo, podem ajudar o purgatório.

Como os Santos ajudam as almas?

Já vimos que a sorte das almas está em nossas mãos, porque só nós podemos merecer e ganhar por elas. É vontade de Deus que elas dependam de nós. “Deus, escreve o Pe. Faber, nos deu tal poder sobre a sorte dos mortos, que esta sorte parece depender mais da terra que do céu”. Somos nós os salvadores e auxiliadores das almas do purgatório. A Igreja de­finiu que nossas orações podem valer aos mortos, mas não há uma definição sobre a oração dos Santos neste sentido. Por quê? Naturalmente, não houve necessidade de qualquer definição. Os protestantes negaram o valor da intercessão dos Santos em nosso favor, mas nada disseram a respeito da intercessão dos Santos em favor das almas, porque negavam o pur­gatório. Ora, a Igreja implora no Ritual a intercessão dos Santos pelos mortos: “Subvenite... Santos do céu, vinde em seu auxílio, Anjos do céu, vinde, recebei a sua alma... Como, pois, os Santos ajudam os mortos?

1º Pedem que as satisfações dos vivos sejam aceitas perante Deus.

2º Pedem a Deus que os vivos sejam levados a ajudar os mortos e satisfazer por eles, que a devo­ção pelas almas sofredoras se incentive cada vez mais.

3º Podem pedir a Nosso Senhor que a liberta­ção das almas se faça mais depressa por uma inten­sidade das penas que abrevie este tempo mais longo de sofrimento.

4º Podem rogar a Nosso Senhor que pelos mé­ritos e satisfações que tiveram eles quando estavam neste mundo, possam ser utilizados estes méritos pelas almas e poderão também oferecer os méritos do Cristo, de Maria e de outros Santos.

Enfim, dizem seguros teólogos, há muitos meios dos Santos poderem ajudar as santas almas do pur­gatório. Esta crença é muito antiga na Igreja. En­contramo-la nos monumentos, as devoções populares de séculos, e é já tradicional na devoção de todo mundo católico, recorrer à intercessão dos Santos em fa­vor das almas do purgatório.

No dia de Todos os Santos a Igreja nos convida a meditar na grandeza e no poder da santidade. Mos­tra-nos os modelos e pede-nos que os imitemos. Glo­rifica os eleitos na beleza da sua Liturgia, cantando o triunfo dos seus filhos no céu. Depois, ao cair da tarde, já se ouvem dobrar os sinos, já nas Vésperas tudo se muda. Após as Vésperas festivas de Todos os Santos, vem o luto e o Ofício dos defuntos. Sucedem-se os Misereres e os De Profundis. É a vez da Igreja padecente. Nestes dois dias, 1.º e 2 de Novem­bro, vivemos o dogma da Comunhão dos Santos. As três Igrejas unidas, orando, e numa admirável co­municação de graças e de méritos e de sufrágios.

Este dia, dizia o Ven. Olier, é talvez o maior dia da Liturgia da Igreja para os fiéis. É o dia do Cris­to Total, do Cristo unido a nós, do Corpo Místico de Cristo, cabeça das três Igrejas. Como podemos utili­zar a intercessão dos Santos em favor das almas? Certamente, não há dúvida alguma, eles na glória podem interceder por nós e nos protegerem. Pois utilizemos esta intercessão em favor das almas. Que eles nos ajudem a ajudar as almas. Que nos inspirem muita compaixão e devoção pelas almas, que nos fa­çam anjos de caridade das benditas almas sofredoras. Eis como os Santos podem ajudar as almas.

Exemplo

A Obra Expiatória de Montligeon publicou com aprovação da autoridade eclesiástica, o seguinte fato:

No mês de Setembro de 1870, uma religiosa do Mosteiro das Irmãs Redentoristas de Malines, na Bélgica, sentiu repentinamente uma profunda tristeza que não a deixava dia e noite. A pobre Soror Maria Serafina do Sagrado Coração tornou-se um enigma para si própria e a comunidade. Pouco depois, chega a notícia da morte do pai da boa Irmã, nos campos de combate. Desde este dia, a religiosa começou a ouvir gemidos angustiosos e uma voz que lhe diz sempre:

— Minha filha querida, tem piedade de mim! Tem piedade de mim!

No dia 4 de Outubro novos tormentos para a Irmã e uma dor de cabeça insuportável. No dia 14 à noite, ao deitar-se, viu ela entre a cama e a parede da cela o pai cercado de chamas e imerso numa tris­teza profunda. Não pôde reter um grito de dor e de espanto. No dia 15 à mesma hora, ao recitar a Salve Rainha, viu de novo o pai entre chamas. A esta vista, perguntou a Irmã ao pai se havia ele cometido algu­ma injustiça nos seus negócios.

— Não, responde ele, não cometi injustiça al­guma. Sofro pelas minhas impaciências contínuas e outras faltas que não te posso dizer.

No dia 27, nova aparição. Desta vez não estava cercado de chamas. Queixou-se de que não era ali­viado porque não rezaram bastante por ele.

— Meu pai, não sabes que nós religiosas não po­demos rezar o dia todo, temos os trabalhos da Regra?

— Eu não peço isto, diz ele, quero que apliquem por mim as intenções, as indulgências. Se não me ajudares, eu te hei de atormentar. Deus o permitiu! Oh! Minha filha, lembra-te que te ofereceste a Nosso Se­nhor como vítima. Eis a consequência. Olha, olha, mi­nha filha, esta cisterna cheia de fogo em que estou mergulhado! Somos aqui centenas. Oh! Se soubes­sem o que é o purgatório, haviam de sofrer tudo, tudo para evitar e para aliviar as almas que lá estão ca­tivas. Deves ser uma religiosa muito santa, minha filha, e observar bem a Santa Regra, ainda nos pon­tos mais insignificantes. O purgatório das religio­sas, oh! É uma coisa terrível, filha!

Soror Maria Serafina viu, realmente, uma cister­na em chamas donde saiam nuvens negras de fumo. E o pai desapareceu como que abrasado, sufocado horrorosamente, sedento, a abrir a boca mostrando a lín­gua ressequida:

— Tenho sede, minha filha, tenho sede!

No dia seguinte a mesma aparição dolorosa:

— Minha filha, há muito tempo que eu não te vejo!

— Meu pai, ontem mesmo...

— Oh! Parece-me uma eternidade... Se eu ficar no purgatório três meses, será uma eternidade... Estava condenado a diversos anos, mas devo a Nossa Senhora, que intercedeu por mim, ficar reduzida a pena a alguns meses apenas.

Esta graça de poder vir pedir orações, o bom homem alcançou pelas suas boas obras, pois era ex­tremamente caridoso e devoto de Maria. Comunga­va em todas as festas da Virgem e ajudou muito na fundação de uma casa de caridade das Irmãzinhas dos pobres da Diocese.

Soror Maria Serafina fez diversas perguntas ao pai:

— As almas do purgatório conhecem os que re­zam por elas e podem rezar por nós?

—Sim, minha filha.

— Estas almas sofrem ao saberem que Deus é ofendido no meio de suas famílias e no mundo?

— Sim.

A Irmã, orientada pelo seu confessor e pela Su­periora, continuou a interrogar o pai:

— É verdade, meu pai, que todos os tormentos da terra e dos mártires estão muito abaixo do sofri­mento do purgatório?

— Sim, minha filha, é bem verdade tudo isso. . .

Perguntou se todas as pessoas que pertencem à Confraria do Carmo são libertadas no primeiro sába­do depois da morte do purgatório.

— Sim, respondeu ele, mas é preciso ser fiel às obrigações da Confraria.

— É verdade que há almas que devem ficar no purgatório até cinquenta anos?

— Sim. Algumas estão condenadas a expiar os seus pecados até o fim do mundo. São almas bem culpadas e estão abandonadas. Há três coisas que Deus pune e que atrai a maldição sobre os homens: a violação do dia do domingo pelo trabalho, o vício impuro que se tornou muito comum, e as blasfêmias. Oh! Minha filha, as blasfêmias são horríveis e pro­vocam a ira de Deus.

Desde este dia até à noite de Natal, sempre aparecia a Soror Maria Serafina a alma atormentada do seu bom pai, pela qual ela e a comunidade oravam e faziam penitências. Na primeira missa do Natal, a boa Irmã viu seu pai à hora da elevação, brilhante como o sol, de uma beleza incomparável.

— Acabei meu tempo de expiação, filha, venho te agradecer e às tuas Irmãs as orações e sufrágios. Rezarei por todas no céu.

E ao entrar na cela, de madrugada, viu a Irmã Serafina mais uma vez a alma do pai resplandecente de luz é de beleza, dizendo:

— Pedirei para tua alma, filha, perfeita conformidade com a vontade de Deus e a graça de entrar no céu sem passar pelo purgatório.

E desapareceu num oceano de luz e de beleza.

Estes fatos se deram de Outubro a Dezembro de 1870 e passaram pelo crivo de um severo e rigoroso exame das autoridades eclesiásticas antes de serem publicados e divulgados amplamente pela Obra Expiató­ria de Nossa Senhora de Montiglion, na França.
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