domingo, 24 de novembro de 2013

Exercícios Espirituais para Crianças - PARTE SEGUNDA (Via iluminativa) - III- A HUMILDADE

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.
Fr. Manuel Sancho, 
Exercícios Espirituais para Crianças
1955
PARTE SEGUNDA A Imitação de Cristo
(Via iluminativa)


III- A HUMILDADE

1. Humildade de Cristo ao fazer-Se homem. — O que seja humildade. — 3. O amor próprio e a humildade. — 4. Três graus de humildade. — 5. A vanglória. — 6. Prática da humildade: a) Conhecimento próprio; b) Desejos de humilhação; c) Prática da humilhação; d) O terceiro grau de humildade. — 7. Vários conselhos.

1. — De propósito toquei só de passagem na questão da humildade de Cristo, como fruto da anterior consideração do Seu Nascimento. Esta virtude tão necessária reclamava explicação à parte.

Já vos disse como ela brilha de modo especial na encarnação e nascimento de Cristo. Deus não podia tê-la, pois Deus humilhar-Se como Deus seria impossível: Deus é Deus, é infinito, é o que é; querer ser menos como Deus, seria não ser Deus, seria abdicar da Sua realeza: isto não pode ser. Mas, como Ele viu que o homem caíra por soberba, por querer ser mais do que era, era preciso ensinar-lhe com o exemplo a querer ser menos. Que faz então Deus para isso? Já que não pode humilhar-se como Deus, toma carne humana e nasce de Maria Virgem. Então, vestido da nossa carne, foi tão humilde, e a tais extremos chegou nesta virtude, que, além de se encarnar e nascer como nasceu, mais tarde sofreu desprezos e humilhações sem conta e foi feito o ludíbrio e escárnio da plebe. Grande deve ser esta virtude, e necessária em demasia, para que o Filho de Deus a pratique com tais extremos. Amai-a como Jesus a amou.


Mas, para amá-la e para se resolver a praticá-la, é necessário conhecê-la. Vejamos em que consiste ela.

2. — “A humildade é a verdade”, disse Santa Teresa, e certamente assim é, porque quem se sente pobre e miserável não sente mais do que o que é verdade.

Poderíamos defini-la dizendo ser ela uma virtude que inclina o homem a ter-se e estimar-se só pelo que é e vale, e não em mais. Porém, como é muito difícil julgar-se o homem a si mesmo, acrescentaremos esta outra definição ou explicação, dizendo que a humildade é uma virtude que ensina a “reprimir-se a si mesmo para não se ser arrastado pela soberba a um grau ou estado que lhe não pertence” (Santo Tomás, Summa Theologica, 2. 2. q. CLXI).

3. — Já vos vejo menear a cabeça e encolher os ombros, como se vos falasse grego. Todavia, não é tão difícil assim entender esta virtude. Eu vo-la esclarecerei:

Sabeis o que é um sistema planetário? É um agrupamento de corpos celestes ou estrelas que giram em torno de um grande astro central. Os corpos que giram em torno desse astro chamam-se planetas. A terra que habitamos é um planeta que gira ao redor do sol. Isto vós o sabeis. O que nem todos vós sabeis é que cada um de vós quereria ser como um sol e converter-se em centro de um vasto sistema planetário. Quereríeis que todos vos amassem, que todos vos distinguissem, que todos se mancomunassem para vos amar. Porque — está claro! — cada um de vós é o menino mais inteligente, mais desembaraçado; e cada menina é a mais querida, a mais simpática, a mais bondosa. Não é verdade que dos vossos coraçõezinhos brotam estes sentimentos? E não é isto querer ser o centro de um sistema planetário em tomo do qual girem e dancem as criaturas que se atravessam no vosso caminho? De onde promana isto? Provém de um exagerado amor próprio. Cada um de vós ama a si mesmo de modo desmedido. Nas vossas disputas, nas vossas preferências, nas vossas alegrias, nos vossos desgostos, sempre transparece o amor próprio. Cavai um pouco nisso, e chegareis a descobrir esta raiz apodrecida. É tão terrível esta lepra, e tão arraigada está na nossa natureza, que custa terrivelmente arrancá-la, e ela inclina o homem e a criança aos maiores desafinos em obséquio da sua adorada e nunca assaz ponderada pessoazinha.

Que remédio haverá contra esta peste, cau­sa de quase todos os desmandos humanos? O remédio é a humildade. Se o homem se conhecesse tal qual é, a humildade seria fácil; mas, cheio de amor próprio, ele sempre exagera as suas boas qualidades e dissimula os seus defeitos. Que faz a humildade? “Inclina-o a reprimir-se a si mesmo”, e para isso o faz crer-se muito miserável, e desprezar-se, e aniquilar-se, e ter muito baixo sentir de si mesmo. Direis: “Isto é demasiado!”. Seria demasiado se o egoísmo e a soberba não inclinassem o homem no sentido da estima própria; mas, para contrabalançá-la, há que puxar a rédea pelo lado oposto e persuadir-nos de que somos vis e miseráveis pecadores, piores do que a pior alimária, e que faríamos das nossas se Deus nos largasse de sua piedosa mão.

Isto o vereis mais claramente mediante uma comparação. Olhai um cavalo de puro sangue, arisco, selvagem, que jamais aguentou sela no lombo. Leva em cima e em pêlo um bom ginete que o sujeita com a brida. O cavalo lança-se com ímpeto cego, empina-se, irrita-se, dá corcovos; mas o ginete refreia-o com mão de ferro, puxa de modo cruel, quiçá exagerado. O bruto mastiga o freio, espuma, freme de cólera; porém, mesmo a contragosto, obedece ao freio. Se fosse manso, não haveria necessidade de brida nem de braço vigoroso que lhe acalmasse o ímpeto; um simples cabresto manejado por um menino bastaria. Assim é o homem. Cheio de si mesmo, quer voar sobre as nuvens; mas a consideração da sua miséria refreia-lhe os ímpetos, e a freada tem de ser vigorosa para que surta efeito.

Nas balanças, quando um dos pratos baixa de mais, é preciso pôr muito peso no outro para que ambos fiquem no fiel. Assim também, é preciso nos carregarmos com muitos pensamentos humildes e humilhações para que abatam os fumos da nossa soberba.

4. — Como vedes, a humildade abrange muita coisa, e podemos dizer que ela é o caminho para todas as virtudes. Não é em vão que Cristo se esforça por nos ensinar a humildade de lá da cátedra do presépio.
Santo Inácio, no seu livro de Exercícios, propõe à nossa consideração três degraus de humildade para que nos resolvamos a su­bir por eles.

O primeiro é de necessidade para se salvar, e consiste em humilhar-se de tal maneira que, “ainda quando nos fizessem senhores do mundo todo, não deliberemos infringir um mandamento que obrigue a pecado mortal”. Por este grau de humildade deveis preferir a morte a cometer um só pecado mortal. Isto já o deixamos apontado como consequência da consideração do Inferno. Estais lembrados? Aqui vereis a bela concatenação dos Exercícios espirituais, e como formam um conjunto lógico que convence o entendimento e move a vontade a mudar de vida.

O segundo grau de humildade, mais perfeito que o anterior, consiste em achar-se o ânimo em tal disposição, que não prefira a saúde à doença, as riquezas e as honras à pobreza e aos desprezos; enfim, que se esteja em disposição de abraçar o que Deus quer para salvar a própria alma. Também tratamos disto ao falarmos da indiferença, na primeira meditação do fim do homem. Quem melhor do que nosso Senhor sabe o que nos convém para a nossa salvação? Bem seguros podeis estar de que, se Deus quer que passeis a vida em pobreza e em desprezo, é isso o que vos convém... De que vos serviriam riquezas e grandezas humanas, se, no fim da vida, tivésseis de deixá-las com pena e, por causa delas, condenar-vos eternamente?

Alfredo é um menino de muito mau contentar. Sua mamãe, que é ótima enfermeira, põe-lhe em cima da mesinha de cabeceira uma mistura eficaz contra o mal que o menino padece. A mistura realmente é amarga ao gosto, muito amarga. O menino, que gosta de caramelos e de doces, quando sua mãe se descuida levanta-se da cama, tira do armário uma lata e empanturra-se de doces. A febre sobe, o doente piora, fica em perigo de morte... A mamãe trata-o, cuida dele, administra-lhe a mistura amarga, que o me nino toma à força e, graças a ela, sai desses apuros.

Este é o caso de quem se obstina em escolher aquilo que lhe agrada, e não os goles amargos que Deus quer que ele beba.

Há meninos que prefeririam não ir à escola, mas vagabundar pelas ruas como uns perdidos, porque o estudo lhes é duro, e ainda mais duras as repreensões do mestre. Os que isso fazem não praticam este segundo grau da humildade, que consiste em ficar indiferente entre o agradável e o desagradável, e escolher o que é vontade de Deus que se escolha.

O terceiro grau de humildade consiste em escolher, entre duas coisas ambas lícitas, a que mais nos desagrada; entre pobreza e riqueza, a pobreza; entre humilhação e honra, a humilhação; entre espinhos e rosas, os espinhos; entre dor e alegria, a dor, para imitar Cristo, que escolheu pobreza, humilhações, espinhos e dores. Este, meus filhos, é o verdadeiro grau de humildade a que deveis subir. Oh! que grau elevado e difícil! Contudo, se quiserdes tirar fruto destes Exercícios, é preciso vos conformardes com ele.
Neste generoso intento servir-vos-á a consideração que fizestes do Nascimento de um Deus num presépio. Se não fosse tão dificultoso este grau de humildade, Cristo não se haveria humilhado pelo modo como o fez. Já agora não poderemos dizer-Lhe: “Senhor, não posso ser tão humilde assim”; porque Ele nos tapará a boca com estas palavras do Seu Evangelho: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como eu fiz, vós também o façais” (Mt, XII, 15).

Havia uma vez um grande rei à frente do seu exército, exército que era um bando de indignos na sua maioria. Dos soldados, uns eram traidores, e os que não alimentavam pensamentos de traição eram pelo menos traidores arrependidos. O rei sabia de tudo isso e, sem embargo, amava os seus soldados.

Havia que atravessar um lodaçal para su­bir depois pela encosta abrupta, que, serpean­do por uma grande montanha, se perdia nas nuvens. Duro era o caso, e o que mais doía àquelas hostes turbulentas era o ter que atravessar o lodaçal com barro até os joelhos.

O rei expôs o seu desejo, que não admitia réplica.

Oh! — disse um soldado mais cheio de nicas do que uma menina dengosa. — Mancharei minhas calças de flanela.

Os salpicos de barro me chegarão à cara — acrescentou outro — e eu me barbeei há pouco e pus cosmético.

O barro cheira mal — opinou um terceiro.

Isso é rebaixar-se — murmurou um oficialzinho torcendo o bigodinho.

Que passem as rãs e os sapos — afirmou um brutamontes.

Não se passa... não se passa... — proclamou uma voz geral, e aquela má gente negou-se a obedecer ao monarca.

Então o filho do rei desceu do seu trono e disse: — Eu passarei.

Despojou-se das suas vestes reais, tomou o capote de um soldado e meteu-se pelo lodaçal. Alguns nem o viram, porém muitos que, apesar de serem algo animais, ainda teriam uns restos de homem, seguiram o Príncipe com entusiasmo. Quem não o seguiria, vendo como ele ia, abrindo caminho e tirando lodo para que seu exército passasse, e salpicando-se com ele, e parecendo, mais do que filho do rei, um ente desprezível, com barro até os cotovelos?

Uma vez que o Príncipe passou, os que quiseram segui-lo subiram com ele pela ladeira acima, e perderam-se no mais alto, até tocarem o céu com as mãos e se lhes abrir caminho por entre as nuvens. Os covardes e traidores que ficaram do outro lado do lodaçal blasfemavam e rugiam de despeito.

Por esta parábola quero significar-vos o caminho real da humildade. O exército são os homens, com os restos dos maus vezos que pelo pecado original contraíram, maus na maioria, pelos pecados próprios. O Rei, que é Deus, exige-lhes que se humilhem, que vadeiem o abismo da sua própria miséria e a experimentem; mas os homens soberbos resistem. A uns, como o soldadinho da calça de flanela, não lho permite a sua tola vaidade; outros temem a humilhação, como aquele outro os salpicos de barro; uns fogem dela por sensualidade; outros, como o oficialzinho, abominam o rebaixar-se seja lá pelo que for e por quem for... E esta oposição é tão universal no mundo, e tanto mais o era antes de Cristo, que o Filho do Rei, o próprio Filho de Deus, para dar exemplo, toma o capote de um soldado, vestindo-Se da nossa carne, desce ao nosso barro, enlameia-se e faz-se desprezível ante a multidão das gentes. Os bons seguem-no e se humilham a seu exemplo, mas ai! muito menos do que Ele, porque Ele já suportou as maiores humilhações fazendo-Se menino, nascendo num presépio, sofrendo desprezos, morrendo na cruz. Em vista de tais extremos, os Seus fiéis soldados seguem-nO, atravessando pela humildade, escolhendo serem desprezados n’Ele e por Ele. Imediatamente começa a ladeira penosa da santidade que se sobe em companhia de Cristo e se perde nas nuvens... Chega o último dia: os humildes sobem com Cristo aos Céus; os soberbos ficam com a sua soberba, blasfemando e raivando, lenha segura com que se alimentarão as chamas do inferno.

Quando se vos oferecer ocasião de vencerdes a vossa soberba, de sofrerdes em silêncio uma repreensão injusta, de serdes pospostos aos outros, de ninguém se lembrar de vós... recordai a parábola; então é ocasião de seguirdes a Cristo e de, como Ele, aparecerdes miseráveis e envoltos no nosso barro. Quando as culpas e traições passadas entenebrecerem a vossa alma e resistirdes a ter de vos humilhar ante o confessor para lhe explicar as vossas misérias, lembrai-vos da parábola, descei ao vale do vosso lodo e, embora com rubor e repugnância, dizei: Sou pecador. São estes os meus pecados, Padre. Absolvei-me, se sou digno. E depois desta humilhação necessária para vos salvardes, começará a ascensão pelo mon­te da santidade, até vossa alma remontar-se e perder-se por entre as nuvens.

Amai a humildade preferindo serdes desprezados por amor a Cristo a procurardes honra e dignidades em companhia do exército turbulento dos soberbos.

5. — Parece-me estardes convencidos de que precisais ser humildes, à imitação de Cristo. Mas como o sereis?

Isto é longo de explicar. Pode-se dizer que o exercício desta virtude abrange todas as circunstâncias da vida, porque em todas elas mete a cabeça a maldita vaidade e soberba, mesmo nas ocasiões em que menos deveria metê-la.

Já vistes esses campos incultos, cheios de cardos espinhosos que agitam orgulhosos a sua cabeça encarnada ao menor vento? Assim é a multidão inúmera dos vaidosos, cheios de si mesmos. Ao menor vento de louvor, eles balançam as ocas cabecinhas como os cardos. Deixai que passe por aquele terreno inculto o arado: os cardos caem e soterram-se. Estarão mortos? Qual! Aguardai: quando me- nos pensardes, eles farão sair ufanos a cabeça de entre os torrões. Assim os vaidosos, mesmo no meio do labor das próprias virtudes, erguem a cabeça ao ventinho da estima própria. Um menino está rezando mui devoto, e esse ventinho sopra-lhe ao ouvido: “Dirão que és um santo”. E o grande tolo sorri de satisfação. Adeus! Um pensamento de vaidade deitou a perder aquela boa obra. Oh, maldita vaidade, que destróis a essência da obra mais virtuosa!

A venerável serva de Deus sóror Joana de la Concepción, religiosa mercedária, referindo-se à vanglória, dizia ser esta “uma doce despojadora das nossas obras espirituais; um alegre inimigo, ladrão dos nossos bens”. Num dos nossos colégios tínhamos um cão tão maroto como manso, e era mesmo muito manso o animalzinho. Fazia festa a todos os colegiais que merendavam; lambia-lhes o rosto, e com muita suavidade tirava-lhes a merenda. Isto faz a suave inimiga nossa, a vanglória: com muita suavidade e fazendo- nos quatro carinhos, tira-nos o mérito das boas obras. Oh! quanta necessidade temos da humildade para contrabalançá-la!

6. — Como a humildade perfeita está no terceiro grau, trataremos de chegar a ele; porém está muito alto, e não o podem galgar de um pulo senão os grandes saltadores, que são os grandes santos. Apoiemos-lhe uma escada de diversos degraus e vamos explicando estes. O primeiro degrau para chegar ao terceiro grau de humildade é conhecer-se a si mesmo.

Quereis saber o que sois? Sois saquinhos de lixo, e não digo sacos, porque chegareis a isto com o tempo. Não quero deter-me a considerar o que é o vosso pobre corpinho. Olhai-o fervilhante de vermes na cova do sepulcro, e com isto já tendes bastante. Oh, meus filhos, a vaidosa que caia o próprio rosto com pós, rosto que Deus criou sem aditamentos nem porcarias, sabeis o que ela é? Pus e vermes. A Escritura di-lo: “Eu disse ao pus: És meu pai; e minha mãe e minha irmã são os vermes”. E esses trapinhos que a envaidecem são... já o disse: trapinhos. E as argolas, anéis, correntinhas? Metais que a terra cria. Mais linda é uma flor, e murcha num dia.

E os dons do espírito que exornam vossa alma?... Orgulho, vaidade, raivas, ânsias desmedidas de brincar, ciúmes, tagarelice... Oh! que ladainha comprida! Pois esses são os adornos de vossa alma. Há de que vos envaidecerdes? Não há, antes, muito de que vos humilhardes, com um corpo miserável e uma alma ainda mais miserável? Quem sabe se, entre os que me escutam, não há algum santinho ou alguma santinha? Mas quem se crê santo ou santa, pelo simples fato de o crer, já o não é, pois os santos sempre se julgam grandes pecadores. Deixemos, pois, intacta a ladainha das vossas misérias.

Agora entre cada um dentro de si mesmo e diga: Meu Deus, o meu corpo é uma miséria, e misérias muito maiores afeiam a minha alma. Quando examino as coisas boas que tenho feito, vejo que elas andam misturadas com uma liga de vaidade. Não tenho nada de bom, porém, antes, muito de mau, porque tenho pecado, tenho ofendido a Vós, meu Deus, o que é a coisa mais feia que se pode fazer neste mundo. Então, de que é que me envaideço? Por que te ensoberbeces, pó e cinza? Mereço, Senhor, que todos me desprezem.

Não me desagradam as Vossas disposições a respeito da prática da humildade, se começais vos afundando no vosso próprio conhecimento; mas pode muito bem acontecer que, apesar de estardes persuadidos de que sois barro e mau barro, pois sois barro pecador, não queirais ser tidos como tal. Todavia, o querermos ser tidos por miseráveis é o segundo degrau que leva ao cimo desta virtude. Não me parece coisa muito difícil estarmos persuadidos de que somos maus e miseráveis; porém o é, e muito, o desejarmos que outros nos tenham neste conceito.

Leonardo é um menino que estuda geografia e dela não sabe coisa alguma. Diz que o Ebro é uma montanha de neves perpétuas, e assegura que os Pirineus são uns habitantes da Rússia, sendo a Rússia uma cidade dos Estados Unidos. Além disto, define porto dizendo que é o masculino de porta, uma porta muito grande. O mestre corrige-o; o pequeno convence-se de haver dito uma série de disparates; mas recomenda ao mestre não dizer a ninguém que ele é um ignorante.

Como vedes, Leonardo é um ignorante vai­doso. Ele sabe disto, mas não quer parecê-lo. Este pequeno não é humilde, como tão pouco o seria o menino que, conhecendo os seus defeitos e misérias, os ocultasse com muitíssimo cuidado e, assim, forjasse a ilusão de que não os tem. Porém muitas vezes acon­tece que Deus Nosso Senhor se serve dos homens para revelá-los, e então é dupla a humilhação.

Uma vez um burro mirou-se numa fonte, e, ao ver-se com aquele par de orelhas colossais que o faziam parecer tão estúpido, compreendeu por que era que o chamavam burro. Para que não mais o motejassem com esse nome, que se lhe afigurava ignominioso, meteu as orelhas entre as correias do cabresto, de modo que parecia lhas houvessem cortado. Excessivamente ufano e satisfeito, começou a pavonear-se entre o povo, dizendo:

Não vêem como já não sou burro?

Mas a turba maldizente zombava dele e dizia:

Burro desorelhado!

Amofinado e triste, o burro voltou à sua estrebaria, repetindo: Antes me diziam somente burro; agora dizem-me burro e desorelhado.

Assim acontece aos que procuram ocultar os seus defeitos para não passarem pela vergonha de que lho digam. Descobre-se-lhes a artimanha na primeira ocasião, e, além de serem tidos pelo que são, põem-lhes as pessoas o aditivo de vaidosos e orgulhosos, o que é uma nota desabonadora dobrada.

Quer isto dizer que àquele que, em vez de desejar a humilhação, foge dela, a humilhação virá em breve buscá-lo, quando ele menos pensar.

Vamos galgando o terceiro degrau na prática da humildade.

Inútil seria estardes persuadidos de ser­des maus e miseráveis, e mesmo de serdes tidos como tais, se, em chegando a ocasião da humilhação, não a aproveitásseis. Isto quereria dizer que a convicção da vossa mi­séria e o desejo de humilhação eram de men­tira. Quereríeis ser humildes, e, quando al­guém vos humilha, levantais a cabeça como aqueles cardos de que vos falei. Ai, que do dito ao feito há muita distância! E, todavia, é de necessidade a humilhação para se al­cançar a humildade.

Paulina é uma pequena que gosta muito de piano, e pensa em ser pianista. Tem piano e professora e seu livro de exercícios; mas é muito pesado tocar escalas e arpejos, e se lhe fatigam as munhecas. Adota, pois, um método novo para chegar a ser pianista. Consiste esse método em contemplar o seu piano de alto a baixo muito bem, todos os dias, considerando, como é bonito ser pianista; mas tocá-lo?... nem por pensamento. Passam-se dois ou três anos, e ela sabe tanto como no primeiro dia. A mestra deixa-a, mas não sem antes lhe dizer, desiludida: É impossível ser pianista sem tocar piano nem pouco nem muito.

O mesmo acontece com esta bela virtude da humildade. É impossível ser humilde sem tocar a humildade, isto é, sem ser humilhado e sem receber de bom grado a humilhação. O caminho para a humildade é humilhar-se. De que servem os desejos desta virtude, se se aborrece a humilhação? Resolvei-vos a ser humilhados, e, quando chega a ocasião, aproveitai-a.

Vedes aquele menino caladinho, de joelhos a um canto? Pois está praticando um belo ato de humildade. Ele acaba de ser repreendido pelo mestre. O mestre chamou-o de vadio e vagabundo, mas em verdade ele não é nem uma coisa nem outra. Um pequeno que lhe quer mal acusou-o de ter estado borrando o papel com bonecos durante a hora do estudo, mas é mentira. O pequeno envergonha-se, mas pensa em Jesus humilde e desprezado, e se cala e não se defende. O mestre castiga-o pondo-o de joelhos no canto. O menino cumpre o seu castigo e, enquanto o cumpre com lágrimas nos olhos — isto sim, coitadinho, pois afinal ele é de carne fraca, — com pranto e com mágoa diz baixinho: “Jesus bom, recebe esta humilhação, pois bem a merecem os meus pecados. Para minha próxima comunhão, ofereço-te este pequeno sacrifício”. E, de lábios trêmulos, envia um beijo silencioso ao sacrário. O seu anjo ouve a prece, e escreve esse ato de humildade e de amor com letras de ouro no livro de contas que traz debaixo do braço, para apresentá-lo ao Juiz Supremo no último dia.

Estais vendo que belo ato de humildade pratica esse bom menino? Estais vendo como vos haveis de comportar em casos semelhantes?

Estais convencidos de que esta virtude se começa com a prática voluntária da humilhação, mas convencidos também de que esta humilhação custa muito, como acontecia ao menino bom que vos expliquei. Mas os que sobem um degrau alto, muito alto, o mais alto da ladeira por onde caminhamos rumo ao cimo da humildade, oh! os que galgam este degrau, estes, sim, já são humildes! estes já estão no terceiro grau da humildade de que antes vos falei! Consiste ele em escolher com alegria os desprezos, as humilhações, a pobreza, por amor a Cristo pobre, desprezado e humilhado.

Agora, depois de vos haver explicado e esmiuçado a humildade, acomodando-me ao vosso tenro juízo, vislumbrareis sequer como é grande e sublime o terceiro grau da humildade? Estais resolvidos a ser desprezados? Quereis ser os últimos? Se vos encontrásseis nestes casos, vos alegraríeis? Por que não? Por que não imitardes a Cristo, que se humilhou por vós?

Certa vez S. Filipe Néri pôs-se a beber vinho, empinando o odre com muita graça no meio da rua. As pessoas se riam; ele não procurava outra coisa: queria ser desprezado por amor de Cristo.
Outra vez um santo pôs-se a balançar-se no balanço em companhia dos pequeninos, para que o tivessem por falta de sizo.

Ia um cavalheiro importante para conhecer um religioso de grande fama de santo. O frade soube a que vinha o fidalgo, e pegou um pedaço de pão com queijo e começou a comer como maluco pelo claustro.

É esse o frade santo que me diziam? perguntou o cavalheiro, estranhando. — Esse não é santo, é mentecapto. — O cavalheiro retirou-se indignadíssimo, e o frade ficou contentíssimo com a humilhação.

Assim obram os santos, assim procuram os desprezos os seguidores de Cristo, assim galgam este terceiro grau de humildade.

7. — Agora, para terminar, ouvi-me uns conselhos práticos para alcançardes esta virtude.

Seja o primeiro o de nunca falardes de vós mesmos, nem em bem nem em mal. Claro está que louvar-vos direta ou indire­tamente é tolice, e os próprios mundanos procuram não se louvar para não parecerem vaidosos. Mas chamar-se pecador, ignorante e miserável será mau? Não é mau, pois muitos santos o praticaram de coração; mas é perigoso. Sabeis por que é que muitos fazem e dizem tolices deste jaez chamando-se pecadores? Para serem tidos como santos. Pedem que lhes digam os seus defeitos, que os recomendem a Deus, pois são maus, e com isso procuram que os outros os tenham por humildes. E o curioso do caso é que muitas vezes eles fazem estas coisas sem compreender a tolice que fazem. Tão astuta é a vaidade espiritual!

A esta um místico chamava humildade de gancho, por ser uma espécie de gancho para sacar do peito de outrem o que ele opina sobre a vossa virtude.

Havia uma vez uma menina que andava sempre de cabeça baixa, de olhos baixos, de mãos cruzadas sobre o peito. Chamava a si pecadora e má. — Que santa! — diziam todas.

Um dia, uma de suas companheiras chamou-lhe hipócrita. A santinha saltou feito um basilisco, e respondeu com frases escolhidas do repertório de quitandeiras e de mulheres de rua. A outra espantou-se da saída, mas não se teria espantado se houvesse sabido que aquela era uma humildade de gancho, embuste e fingimento, para criar ambiente de humildade, portanto a mais refinada soberba e, juntamente, hipocrisia.

Não sejais assim vós, meus filhos. Deveis ser humildes de verdade, sem vos chamardes pecadores, o que não é preciso, pois nisto há os seus perigos, como vistes. Muito menos vos deveis chamar virtuosos, ou dizer que tendes esta ou aquela qualidade, ou que sabeis tal coisa ou tal outra. Oh! esta virtude se perde com suma facilidade entrando em confronto a própria pessoínha!

O segundo conselho é fugirdes dos que vos adulam, e mesmo dos que vos elogiam com frequência. É perigoso ouvir elogios. Então aparece o que aquela santa dizia: a “doce ladra” que furta o mérito da obra boa. Quando uma pessoa se envaidece de algo de bom que fez, perde o mérito, e Jesus lhe diz: “Já percebeste a tua paga”. Que pena! Por ouvir com gosto um elogio, perder tudo!

Semelhante a este conselho é outro que vos dou de que procureis aquele que vos censura e repreende: este é bom amigo. Um confessor que vos crava a lanceta simultaneamente com um carinhoso “meu filho”, esse vos convém; um mestre que nunca vos diz uma palavra de louvor, antes vos faz muitas advertências e repreensões, bom mestre é esse, procurai-o.

Seja o outro conselho nunca responderdes quando forem vários os perguntados, nem quererdes sobressair como perspicaz. Se vos julgásseis o último de todos, não daríeis a conhecer a vossa sábia opinião.

Outro conselho será não falardes das vos­sas coisas nem da vossa família. Vereis às vezes um pequeno que, em tudo quanto fala, vai parar em si mesmo, o que é soberba in­tolerável. Se se fala de dinheiro, na casa dele há mais dinheiro! Se se fala de cães ou de gatos, ele tem um cão cor de canela que faz maravilhas, e um gato Angorá que é uma preciosidade. Se se fala de nações e povos, a sua nação é melhor, o seu povo o mais bonito, a sua casa a mais cômoda. Se se fala de pesca, ele nunca pescou, mas tem um tio que pesca... o mar todo. O vaidoso destila vaidade e satisfação própria por todos os poros; é ridículo, e o coitado não o conhece. Como cega este vício! Nunca faleis, pois, das coisas que vos dizem respeito, ou que, mesmo de longe, têm a ver com a vossa honra ou dignidade.

Outro conselho é não pensar muito voluntariamente em si mesmo, exceto quando se faz o exame de consciência. Nem mesmo para se corrigir convém fixar muito a consideração em si mesmo, mesmo com escusa de santidade, porque costuma criar uma espécie de egolatria que perturba o juízo. Basta-me que, deste substancial conselho, entendais o não pensardes voluntariamente em vós. O esvaziar-se de si mesmo para se encher de Cristo, que é o alcance do conselho, entendê-lo-eis quando fordes maiores.
Outro conselho será não responderdes quando vos repreenderem, ainda quando não fosse verdade o de que vos acusam. Lembrai- vos do exemplo que vos dei daquele menino que num canto sofria com humildade um cas­tigo injusto.

Também é muito importante o conselho de não ambicionardes altos postos e dignidades. Vós ainda não podeis pensar em grandes dignidades, porque sois crianças, mas de pequenos se conhece a vossa afeição aos altos postos. Perguntai a um meninozinho que mal sabe o a se quer ser soldado ou general, e ele vos responderá que quer ser general. É preciso reprimir estas inclinações naturais, e não as animar com pensamentos orgulhosos.

Havia uma vez uma rã num charco, ao pé de um monte muito elevado. As vezes ela punha a verdosa cabeça fora do limo e dizia:

Oh! se eu estivesse no cimo do monte!

Pôde tanto nela este pensamento, que um dia ela se resolveu a subir. A pequenos saltos ou andando preguiçosamente, cada dia ela avançava alguns metros. Ao cabo de um ano pôde chegar ao cume. Mas, ao dar o último salto de contentamento, tropeçou numa pedra, e, dando voltas, rolou pelo monte abaixo, até chegar outra vez ao pântano. Então compreendeu o seu equívoco e disse cheia de amargura:

Errei! Errei!

Desde esse fato, as rãs não cantam de outra maneira.

Assim poderiam cantar também muitos meninos ambiciosos quando se vêem ludibriados:

Errei! Errei!

Determinai-vos, pois, a alcançar esta virtu­de tão necessária como bela. Por ser ela tão simpática e atraente, até a vaidade se encobre com ela.

Uma vez Nosso Senhor quis coroar de flores a humildade, e imediatamente acorreram todas as flores. O Senhor viu-Se um pouco embaraçado para escolher entre tantas e tão lindas. A maioria delas, ao olhar para a humildade tão soberanamente bela, queriam cingir-lhe a fronte, e aproximavam-se do Senhor oferecendo-Lhe as suas corolas e dizendo:

A mim! A mim!

O Senhor pôs de lado umas dálias por espalhafatosas; umas camélias, desprezou-as por inodoras, e até afastou uns cravos, que se retiraram um pouco ressentidos. Ofereceu-se-Lhe então a rosa, certa do seu triunfo: era a rainha das flores, a mais bela e fragrante. O Senhor inclinou-Se para colhê-la, mas espetou-o um espinho:

Tão linda e com espinhos? — disse Ele, e não a quis.

Mas percebia-se um aroma que saía de entre a erva. Por entre uns raminhos o Senhor viu uma violeta que se inclinava envergonhada, ocultando a gentil corola por entre as fibras.

Eras tu, florinha boa, que despedias essa fragrância? Tu te pareces com a humildade, ocultas-te como ela, e tua fragrância rescende no mais fundo da alma. Serás tu que lhe formarás a coroa.

Disse, e cingiu a fronte da humildade com essas fragrantes florinhas. E desde então a violeta é símbolo da humildade.

Meus filhos, enamorai-vos da humildade, vede-lhe a representação na violeta sem cores brilhantes, roxinha e oculta, mas fragrante. Amai-a como Cristo a amou, e praticai-a como Ele a praticou vestindo-se da nossa carne e nascendo, num presépio, de uma humilde donzelinha.

A essa Virgem pura que tanto exceliu nesta virtude necessária, pedi que vo-la conceda para humilhardes o vosso coração soberbo. Com isso começareis a praticar todas as virtudes, pois a humildade tira o maior tropeço para consegui-las, que é o amor próprio.


Para conseguirmos esta virtude, rezemos-lhe três Ave-Marias.
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