quinta-feira, 17 de junho de 2010

XV. A IMOBILIDADE E A ESCURIDÃO

XV. A IMOBILIDADE E A ESCURIDÃO


Havia que chegar a isto. Todo o fatal progresso da Paixão do Cristo tende a privá-lO gradualmente da Sua liberdade, para Lhe comprar a cada privação um sofrimento novo, até que o derradeiro esforço desse trabalho superior da Justiça de Deus consiga imobilizá-lO na dor.

Primeiro os laços, depois a entrega entre as mãos de soldados debochados, depois a privação da vista no corpo da guarda, o amortecimento das forças e a exaustão que a marcha acarreta e, finalmente... os cravos que O fincam na Cruz: é a tremenda imobilidade! A simples reflexão pode nos dar uma idéia deste último instrumento de suplício. Estar preso, fixado por quatro Chagas a se alargarem de minuto em minuto a um sofrimento a que não se pode escapar!

O menor movimento não faria, aliás, senão aumentar esse sofrimento. E três horas durou esse tormento assombroso! O doente preso de dor revolve-se penosamente no leito; tem necessidade desse movimento que, se não lho suprime, muda-lhe ao menos o sofrimento: descansa de um pelo outro. Na Cruz, porém, nenhum descanso a esperar a não ser numa morte que só há de vir lentamente. Mais uma vez: era preciso. O homem, pecando, abusa da sua liberdade: o castigo correspondente à sua culpa devia ser a privação dessa liberdade. O Filho do Homem, que expia por toda a humanidade, será, pois, conseqüentemente com o Seu papel de Vítima expiatória, privado de toda a liberdade.

Está feito, e é sobretudo nesse exato momento que Ele salva os pecadores. Gritam-Lhe galhofando: “Desce agora, se podes”. Já não pode. Está cravado. As almas que se queixam de estar presas à mesma cruz, pesada, esmagadora, sem esperança de a poder largar neste mundo, devem vir ao pé desta Cruz de Jesus.
Eu venho, meu Deus, e ante a Vossa imóvel atitude, ante esses cravos que Vos fincam ao dever sangrento da Redenção, eu nem sequer em desejo procurarei despregar-me de uma cruz que em alguns pontos quisestes tornar semelhante à Vossa.

Quando os algozes levantaram assim ao alto, como um troféu, a Sua Vítima sangrenta, passaram aos dois ladrões. Não tardou que se completasse o espetáculo: as três cruzes se alçaram no cume do Gólgota. Nesse momento o campo foi deixado livre à multidão. Houve um ímpeto em direção ao Cristo pendurado no meio. Si exaltatus fuero, omnia traham ad meipsum. “Quando eu for levantado, atrairei tudo a Mim” (Jo 12, 32). Por enquanto o ímpeto é de ódio: amanhã – que digo? – daí há pouco, transformar-se-á num ímpeto de amor cujas vastas ondas virão até o fim dos tempos bater naquele rochedo e naquela Cruz divina.

Podemos supor os soldados a conterem com dificuldade a populaça que se atira ao espetáculo daqueles três supliciados. Podemos crer também que o grupo das santas mulheres se tenha deixado de bom grado arrastar pela corrente, pois eis que elas estão mais perto da montanha. O Cristo, a Quem o Sangue tolhe a vista, vislumbra-as ao longe. Mas esta visão, que O teria aliviado, é ofuscada pela multidão que circula sussurrante, qual enxame malfazejo, em torno aos três patíbulos. Circumdederunt me sicut apes. Rodearam-me semelhantes a uma nuvem de abelhas irritadas. E todas as injúrias que sobem até Ele crepitam como o fogo que arde através das sarças e dos espinhos. Exarserunt sicut ignis in spinis (Sl 117, 12).

Há nesse crepitar de ódio uma covardia cruel, dado que a Vítima está imobilizada e que a morte que a vai colher bem devia bastar a cevar todas as cóleras.

Aqueles que são realmente crucificados com Jesus têm que passar por essas contradições das línguas; o mundo não cessará de falar sobre o que vê e de julgar o que não conhece; é por isto que ele é fundamentalmente injusto. Os eleitos se consolam no testemunho único da sua consciência que será a base do último julgamento de Deus.

Quem entretanto se sente bastante forte contra esse enxame de línguas maldizentes? Senhor, exclamava Davi perseguido por seus inimigos, muta fiant lábia dolosa, emudecei essas bocas peçonhentas e protegei os Vossos servos dessas contradições turbadoras das línguas inimigas, protege nos a contradictione linguarum (Sl 30, 31).

A minha fraqueza Vos dirige a mesma súplica, ó Jesus; mas, quando eu me acerco da Vossa Cruz, onde como num alvo único cospem todas as bocas as suas blasfêmias, o meu amor susta-me nos lábios o anelo da minha fraqueza e diz-Vos tremendo, porém, suplicando-Vos:

- Tomarei também eu o cálice do meu Senhor, tomá-lo-ei, bebê-lo-ei... Nas Suas Mãos estão as tempestades e as borrascas da minha vida... Tomarei o cálice do meu Senhor, o mesmo, quero nele beber, e invocarei o Seu Nome como o meu melhor sustentáculo.

In manibus tuis sortes meae (Sl 30, 16).

Calicem salutaris accipiam et nomem Domini invocabo (Sl 111, 13).

A partir do momento em que a Cruz de Jesus fôra erguida, o céu se havia progressivamente toldado, o sol parecia velar o seu disco luminoso. Entregue inteiramente ao espetáculo que aguardava, a multidão não deve ter prestado grande atenção a esse fenômeno. A pouco e pouco, porém, o céu se enchia de sombras crescentes, e logo trevas espessas cobriam o Calvário, os jardins, a cidade de Jerusalém, e, diz-nos o Evangelista, estenderam-se pela terra inteira.

Aquela noite esquisita, caindo assim subitamente e subtraindo à vista a Vítima divina, lançou a inquietação nas filas da multidão. As vozes que blasfemava calaram-se pouco a pouco. Os soldados que montavam guarda aos supliciados quase não os viam: admiraram-se. Além de que aquilo lhes atrapalhava a partida de dados...

Em breve não houve naquele cume desolado mais que sombras a circularem medrosas, falando-se baixo. Foi favorecidas por essas trevas que as santas mulheres se insinuaram até ao pé da Cruz. Ninguém lhes tolheu o passo. Elas subiram ao alto e se conservaram de pé muito perto dos patíbulos; Madalena, Maria de Cléofas, algumas outras mais e, na primeira fila, Maria, a Mãe de Jesus: um só discípulo, João, o predileto.

Jesus, através da noite que O oprime, já os distinguiu. Fita-os longamente, é para Ele um consolo supremo, e ao mesmo tempo um como doloroso instrumento de suplício, pois é a renovação do encontro de ainda há pouco; pois é também a renovação da ferida que Lhe fez o abandono dos Seus, visto que, dos Apóstolos, apenas João lá está, sozinho, fiel, ao pé da Cruz. Fita e cala-se. Este silêncio de Jesus entre as Suas três primeiras palavras, antes das trevas, e as quatro últimas, antes da morte, durou cerca de três horas. Três horas de silêncio imóvel e de escuridão! É mister sentir esta derradeira angústia, ficar ao pé da Cruz nessa escuridão, escutar esse silêncio e imitá-lo.

Porque também, todos os instrumentos de suplício estão esgotados, só resta a morte a esperar. Cada qual veio à sua hora bater e dilacerar aquele Corpo. Sob os Seus golpes sabiamente dirigidos, mais sabiamente ainda renovados, porque no Calvário se acham compendiadas todas as dores já experimentadas, sob os seus golpes aquele Corpo divino, esticado no madeiro da Cruz, vai retumbar o hino da dor e também da vitória.

Mas, ó Senhor Jesus, resta-me penetrar mais dentro ainda no mar doloroso e profundo da Vossa Paixão. Depois do Vosso Corpo sagrado, é o Vosso Coração divino que eu quero ver, triturado, despedaçado, aberto, traspassado de lado a lado.

De joelhos, pois, no cimo do Calvário, ao pé da Vossa Cruz, durante aquelas três horas de silêncio e de escuridão, ouvindo só os surdos gemidos da Vossa oração e da Vossa agonia, ou o ruído abafado e irregular do Sangue que escorre em terra, eu vou tornar a subir essa onda de Sangue e de dor que Vos trouxe até aqui, para distinguir nele, cruelmente revolvido por essas águas dolorosas, o Vosso Coração! Esse Coração que me amou até querer extinguir-se por mim.

Ó vós todos que passais, parai pois um momento e vejamos juntos se há sofrimento que se possa comparar ao de Jesus na Cruz!

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(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ - Fim da Primeira Parte)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.
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