quarta-feira, 2 de junho de 2010

XII. A CRUZ: VERÔNICA

XII. A CRUZ: VERÔNICA


A rua que sobe à porta Judiciária é estreita, íngreme, uma espécie de escada de degraus e declives escorregadios. Em certos pontos, muito era (a julgar pelo que ela é hoje) se se podiam manter três ou quatro pessoas de frente.

À esquerda, na soleira da porta, estacionava uma mulher, ansiosa por ver Jesus.

Avistou-O no meio dos soldados: solta um grito de angústia; não mais é Ele. Aquela Face tão meiga que ela admirara outrora, fascinada como tantos outros pelo brilho que Lhe irradiava em torno, já não passa de uma máscara terrosa, onde os traços se afundam numa camada mista de Sangue e suor; estrias de pó cavam-se-Lhe no rosto; cusparadas escorrem e se embaraçam nos cabelos e pelo meio da barba; e depois, há naquele ser informe tal expressão de languidez, de vergonha, de delíquio, a fisionomia a um tempo apavorada do homem que vai morrer e resignada do que sabe que não pode escapar à morte!

Ela não resiste mais, despega o véu que lhe cobre a cabeça, e antes mesmo que a sua idéia tenha podido defender-se da menor objeção, atira-se para a frente. Estende a Jesus o véu, ela própria quase lho aplica ao rosto.

O bom Mestre, que tem livres ambas as mãos, pois já não sopesam a Cruz, enxuga por alguns instantes a Face profanada.

Mas já os soldados empurraram a mulher: repelem-na violentamente para a soleira da sua porta entreaberta, a escolta brada, Simão Cirineu resmunga. Esse minuto de atraso e de alívio é pago caro: afligem mais duramente a Jesus. Se assim aproveita Ele – pensam – o repouso que Lhe concedem aliviando-O do peso, é muito simples impedir as sensibilidades de que é objeto: e brutalmente tornam a pôr nos ombros do condenado a Sua pesada Cruz. Jesus consente, sem dizer palavra.

A mulher piedosa entra toda trêmula para casa. Simão de Cirene retoma a seu cesto e a sua ferramenta e o seu caminho para a cidade. Sente-se aliviado, só vendo no incidente a feliz circunstância que o desvencilhou do peso incômodo e vergonhoso da Cruz. Não compreendeu a honra imensa que lhe foi feita.

Compreendê-lo-á mais tarde. Mais tarde!... Depois!... Com o tempo!... Com a reflexão!...

Há coisas que só se compreendem na volta. Tais as nossas cruzes e as nossas provações.

Oh! Como nos sentiremos ufanos, santamente ufanos, mais tarde, de havermos carregado a Cruz rastejante do Mestre que há de julgar o mundo inteiro à sombra gigantesca e radiosa dessa Cruz! Como nos sentiremos felizes de juntar-lhe uma parcela da nossa, para torná-la maior ainda! Com que regozijo apresentaremos ao Filho do Homem os ombros machucados por essa Cruz, fazendo como Ele que ostentará aos olhos de todos os pés e mãos traspassadas!

Simão Cirineu entrou no drama da Paixão, nele figura com o seu nome, com o de seus dois filhos ainda por cima, porque carregou por alguns instantes a Cruz... resmungando! Se Deus dá semelhante glória e tal segurança de salvação a quem O segue constrangido e recalcitrante, que não fará por aquele que abraçar com amor as cruzes quotidianas que lhe forem oferecidas!

O Crux, ave, spes unica! Ave, ó Cruz, única esperança!

Cruz santa, cruz bendita, minha cruz de cada dia, és a minha esperança de salvação e predestinação!

E nesse entretanto a mulher piedosa, Verônica, recolheu-se à sua morada, pousou o véu todo manchado em cima de uma mesa, mal se atreve a olhá-lo: ouve ainda passar tumultuosa à porta a multidão compacta que vocifera, subindo, os seus brados de morte. Então não se pode conter no lugar, sai de novo, mistura-se ao sinistro cortejo. Aquele semblante do Senhor ficou-lhe nos olhos, no coração; quer vê-lO ainda, como Pedro na noite precedente, ao menos para entrever ainda uma vez aquela Face que ela enxugou. Assim, a palidez e o horror daquele semblante fascinam-na agora tanto quanto o faziam dantes a doçura e o brilho do Filho do Homem.

Só a Deus pertence o atrair-nos pelos Seus opróbrios, bem mais ainda, o induzir-nos a reproduzirmos em nós os traços do Seu semblante desfigurado, quando menos a nos alegrarmos se essa divina semelhança nos cabe em partilha.

E efetivamente essa Face do Cristo, dolorosa, Face de condenado, Face lívida e sangrenta, Face incessantemente ultrajada e enxugada, é a verdadeira face dos eleitos.

Quantos semblantes avançam assim radiantes de esquecimentos e de desprezos! Sejam quais forem as nossas culpas, quaisquer que tenham sido as nossas quedas, se tivermos esse semblante Jesus reconhecerá a Sua semelhança. Já estávamos salvos pela dor e pelo desdouro da Sua Face; salvos seremos ainda pelas contusões de que cobrirmos a nossa.

O mundo é louco, loucos são os homens; verdadeiro sábio é aquele que padece os mesmos padecimentos que o Cristo.

Espera, ó pobre eleito chasqueado e escarnecido, o fulgor do teu rosto há de cegar mais tarde aos que te cospem à face.

Ibant gaudentes, quoniam digni habiti sunt... contumeliam pati (At 5, 41). É o caminhar vagaroso, nobre e triunfante de todos os Mártires: eles vão felizes, porque são oprimidos e desonrados por amor do Cristo.

O mundo está cheio de Mártires! diz São Gregório Magno. Fazem-nos os homens, fa-los ainda mais o demônio. Todos quantos, por qualquer tentação, padecem violência no coração, no pensamento, na memória, no corpo e na alma: Mártires do Cristo, semblantes de eleitos!

No local do encontro de Jesus com Verônica, desce-se a uma espécie de cripta, cavada e construída no lugar mesmo onde se abria a casa da piedosa mulher.

Ali, na sombra, que rasgam de onde em onde alguns clarões de círios e lâmpadas, ergue-se a um canto um grupo grosseiramente esculpido. O Cristo com a Sua veste vermelha, com a Cruz pesada ao ombro, e em frente Verônica. Todos os fiéis se aproximam do grupo de joelhos: eu ali vi mulheres cobrirem de beijos os braços, as mãos, a Cruz do Cristo. Outras tomavam da coroa de espinhos e punham-na na própria cabeça ou na dos filhos.

Homem algum suscitou jamais através dos séculos semelhante entusiasmo. Que estátua a gente ainda beija após dois mil anos com tanto amor?

Só esse é Deus, esse a quem se beijam assim as Chagas, a Coroa de Espinhos, os cravos e o lado perfurado.

(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Peroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.
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