terça-feira, 29 de junho de 2010

AS TORTURAS DO CORAÇÃO

SEGUNDA PARTE


AS TORTURAS DO CORAÇÃO

I.  DOS SENTIMENTOS DO CRISTO
NO MOMENTO DE ENTRAR NA SUA PAIXÃO:
A SUA ALTIVEZ

Parece que Jesus tinha avivado em si dois sentimentos nos dias que precederam a Sua dolorosa Paixão.

Um grande sentimento da Sua dignidade pessoal em primeiro lugar, e a seguir uma profunda e vivíssima ternura com respeito àqueles que vai deixar.

E, na realidade, a primeira coisa com que se preocupa – e já de longa data – é com que os Seus padecimentos não sejam um objeto de escândalo.

Parecia tão estranho que aquele enviado de Deus, aquele Messias, fosse entregue aos gentios, cuspido, espezinhado, coberto de feridas, coroado de Sangue e, afinal, crucificado!

E então Jesus prepara os Seus discípulos para esse terrível destino, e prepara-os por Suas palavras, por Suas alusões, algumas vezes por Suas repreensões.

Absit, Domine, exclama Pedro; não, Senhor, não pode ser assim: Vós flagelado, Vós crucificado!
Em verdade, em verdade, durus est hic sermo, quis potest audire? Esta palavra excede os limites, não pode isto ouvir-se e suportar-se.

– Assim será porém, Pedro... e tu mesmo, mais tarde, quando tiveres envelhecido, quando tiveres compreendido, deixar-te-ás conduzir à mesma Cruz, às mesmas ignomínias.
E esta palavra era oculta para eles – para Pedro como para os outros –, eles não compreendiam.

Nós não podemos compreender por nós mesmos a terrível necessidade dos Calvários íntimos, públicos ou pessoais.

Oportuit Christum pati(: Convinha ao Cristo o padecer). Era preciso.

Deus emprega às vezes toda a nossa vida em nos fazer compreender este doloroso Oportet, mas a ele temos de chegar se quisermos ser salvos.

Até lá, Jesus quer poupar os Seus fiéis amigos. Previne-os então, desenrola previamente as páginas sangrentas do livro.

Sabe que se vai tornar o ente repugnante que fará desviar os olhos e provocar náuseas... o verme que se torce no Sangue e na lama... o homem das dores... mas por trás desse homem, desse verme, daquela Face que mete dó... há, no entanto... o Deus.

Não o esqueçais, meus caros filhinhos...

Por isto que Ele se vai fazer tão miserável, sair da Sua condição e da Sua situação, descer a fundo no opróbrio, não quisera fossem esquecer o que Ele é, de onde vem, com Quem sempre permanece.

– Um momento, e já não me vereis, diz melancolicamente. Mas, ficai sabendo:

De Deus venho, a Ele torno, estou com Ele; vedes que Eu vos falo claro para que compreendais.

– Pois sim, prosseguem os Apóstolos. Falais de fato claramente. Agora cremos que sois de Deus.
– Credes! Responde Jesus... e a hora vem, já veio, em que todos vós ides fugir e me deixareis só.

Dessa forma, é um misto de sentimentos diversos em que se afirma a Sua Divindade, no momento mesmo em que ela se vai eclipsar dolorosamente.

Esta afirmação daquilo que somos, assim pelo sangue como pela condição, em face daqueles que nos vão calcar aos pés, é natural a todo ente superior.

A abdicação da própria dignidade pessoal é a última que a gente se resolve a assinar.

Naquela lúgubre cena histórica que se desenrola em Varennes, no início da paixão da Realeza Francesa, quando a família real é brutalmente acuada pela turba chocarreira a um canto da tenda ordinária de um vendeiro, e quando Luiz XVI entra ridiculamente metido no seu disfarce de criado, Maria Antonieta, que tinha sangue, tem como que um sobressalto de indignação régia: o rubor assoma-lhe ao rosto em vendo o cenário que a rodeia, e aos que falam familiarmente demais ao príncipe, ela diz vivamente: “Mas afinal é o Rei!” Ai! Ela dirá também mais tarde: “Nós bem que queremos um Calvário, contanto que elevado!”

Às vezes não se tem sequer a irrisória consolação de subir no sofrimento. Há que descer aos próprios olhos e aos olhos de todos.

Jesus, que sabe que esta especial humilhação Lhe será reservada, mesmo aceitando-a de antemão, não quisera perder toda consideração aos olhos dos Seus, e nos Seus profundos abaixamentos deseja que a nossa piedade advertida a nós próprios nos repita amiúde: Ecce Rex vester! É sempre o vosso Rei!

Assim, não nos é proibido sofrer ao nos vermos diminuídos. Assim, há uma legítima reivindicação da própria dignidade.

Tudo isto me consola, ó meu Deus, mas como é assustador pensar que a gente poderá às vezes sofrer essa desconsideração e esse desprezo dos nossos, para calcar ainda mais nas Vossas a própria vida e morte: Fiat.

Cumpre, pois, entrar na Paixão baixando a cabeça, depois de a haver erguido um instante para mostrar que podia cingir uma coroa: Fiat.

Breve não terá Jesus outro rasgo senão este; outra palavra senão este termo tão breve e tão cheio.
Terá perdido a Sua altivez, e a Sua força estará por terra.

+ + +

(“A Subida do Calvário”, do padre Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.
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