sexta-feira, 25 de junho de 2010

Servir a Deus e salvar assim a sua alma

Nota: Os grifos em azul são notas do tradutor.

Servir a Deus e salvar assim a sua alma

(Foto: Morte de Santa Rita de Cássia)

Servir a Deus

Ele quer que o nosso louvor e o nosso respeito tomem esta forma bem concreta: servi-lO. Este serviço é por sua vez, claramente precisado pelos mandamentos de Deus e da Igreja, pelos deveres do próprio Estado.

Servir, é nobre ideal quando nos despendemos por uma grande causa, por um chefe simpático. Ora, nenhuma causa é mais esplêndida que a de Deus. Nenhum chefe que nos deva inspirar mais entusiasmo que Nosso Senhor.

Salvar a sua alma

A nossa salvação é a grande realidade que permanece, a imortalidade da alegria. Tudo o mais passa.

A beleza passa. No fim da vida M.me Récamer (Nasceu em Lião. Mulher célebre pelo engenho, pela beleza e pela sala de Abbaye-au-Bois, onde, na Restauração, reunia a mais brilhante sociedade, 1777-1849) estava cega.

Os olhos "azuis ou negros, sumamente amados, sumamente belos" apagar-se-ão. Um dia sairão deles vermes.

O amor passa. Heloísa e Abelardo (Filósofo francês, célebre pela sua paixão por Heloísa e pelos seus infortúnios, 1079-1142) estão ainda perto um do outro. Mas sob a terra pesada do cemitério, no Père-Lachaise. Aproximação de cinzas. E ainda há dúvidas sobre a sua autenticidade.

A popularidade passa. Que diriam os políticos.

O êxito literário passa. A. Dumas pai escreveu duzentos e oitenta e dois livros! Quantos sobrenadam?

As frivolidades passam: as das mundanas de lábios quimicamente vermelhos, de cílios postiços, onde tremulam postiças lágrimas; as dos ambiciosos que multiplicam as intrigas por uma condecoração.

A eloqüência passa. Com muito mais razão a verborreia se esvanece. Segundo o cálculo de um cronista, uma língua feminina agita-se, de maneira a percorrer, em média, 950 quilômetros por ano. É difícil de verificar. Vários provérbios do mesmo gênero foram escritos por homens. Com isso se explicam muitas coisas.

A juventude passa. Apesar de tantos reclamos que prometem uma eterna primavera, vamos acumulando anos. Ou antes perdemo-los.

A vida passa. Temos médicos em quase todas as ruas. Todavia os homens ficam fiéis ao velho hábito de morrer. O professor Augusto Lumière diz que em França, noite e dia, um canceroso expira em cada dez minutos e um tuberculoso em cada cinco minutos. Além de que, nada importa o diagnóstico do médico quando a gente se vai...

A fortuna dos corações passa. A urna que contém o coração de Voltaire foi transferida de local em local. Tornava-se embaraçoso este lamentável coração. No cortejo fúnebre que transportou o coração de Luís XIV, via-se apenas uma dúzia de antigos cortesãos.

O cavaleiro que levava o coração de Vauban (Engenheiro militar e marechal de França. Nasceu pobre e privado de qualquer proteção, mas, pelo trabalho, habilidade e nobreza de porte, ascendeu aos mais altos postos. Dizia-se comumente: "Cidade cercada por Vauban, cidade tomada; cidade fortificada [ou defendida] por Vauban, cidade tomada; cidade fortificada [ou defendida] por Vauban, cidade inexpugnável"; 1633-1707) teve a funambulesca aventura de o esquecer numa estrebaria de posta.

A glória dos monarcas passa. A princesa Luísa da Bélgica escreveu um livro de título impressionante: "A volta dos tronos que vi cair".

Napoleão I, o prestigioso capitão de sessenta batalhas campais, esteve na ilha de Santa Helena cinco anos, seis meses e dezoito dias; mais da décima parte da sua existência, pois que não chegou aos cinquenta e dois anos.

Na sua ilha, vigiado por Hudson Lowe, teve tempo de meditar sobre as traições dos seus irmãos, dos marechais, de Nery (Marechal de França. Cobriu-se de glória em vários campos de batalha, especialmente na Rússia. Napoleão cognominou-o o Bravo dos bravos; 1769-1815) que jurava reconduzi-lo numa jaula de ferro!

Recentemente, nos Inválidos, depois de ter contemplado as duzentas bandeiras de glória, eu olhava para o famoso túmulo. Naquele dia, tinham-se esquecido de lhe tirar o pó. Ter sido Imperador, e nem sequer ser espanejado!...

Tudo passa! Exceto o rito de servir a Deus e de salvar a alma.
Salvar a alma é preferir a alma ao corpo.

***

1- Corpo

Não é em nós o elemento principal. Consultemos este balanço esboçado pelo doutor Ch. Mayne, de Rochester, e citado por outros médicos. Previno que é horrivelmente realista e de um cinismo mortificante para a vaidade humana. Agora, lealmente prevenidos, vejamos:

No corpo humano, encontram-se estes produtos principais:

Ferro: Equivalência => um prego médio.
Açúcar: Equivalência => dois torrões ordinários.
Gordura: Equivalência => sete pequenos bocados de sabão.
Fósforo: Equivalência  => duas mil e duzentas cabeças de fósforos.
Magnésio: Equivalência  => o necessário para uma foto.
Potassa e enxofre, em pequena quantidade.

Total: Estes elementos reunidos vender-se-iam pouco mais ou menos por 40 escudos. Eis o nosso valor mercantil, a nossa cotação comercial. (Consideramos o preço das matérias primas. Um ponto de vista absolutamente diferente é a organização e o funcionamento da máquina humana. É uma pura maravilha, descrita nos artigos Le corp humain, que Prêtre et Apôtre publicou desde novembro de 1936)

Pobre corpo! Não merece o primeiro lugar, pois que Deus, que nos ama tanto, permite para ele quatro grandes humilhações: as doenças, a deteriorização progressiva, a agonia, a decomposição.

Doenças.

a anarquia na célula". Fórmula original. Mas há uma coisa que preferíamos a esta definição imaginosa: a cura. Mas isso!...

O número dos sanatórios, das clínicas, vai crescendo. Objetar-se-á, talvez, que, se há doentes, há felizmente médicos. Mas os médicos conseguem sempre curar as enfermidades das esposas, dos filhos? Não têm eles mesmos os seus achaques? Vivem notavelmente mais tempo que o comum dos mortais? Estes senhores da vida podem prolongar muito a sua? ...

Deterioração

O corpo fatiga-se. Que motor, construído embora de modo impecável e de aço de primeira qualidade, poderia, sem um minuto de descanso, funcionar cinquenta anos?

O nosso corpo é um motor de uma complicação inaudita e trabalha anos e anos. Chega algumas vezes a centenário. Nem um instante de inacção, visto que, mesmo em plena noite, o funcionamento continua para vários órgãos, por exemplo, para o coração.

O coração, no homem, tem, em média, por minuto cerca de setenta pulsações (cada uma com sístole e diástole). Façamos, num dia de lazer, o cálculo das nossas sístoles e diástoles, desde o nascimento até à idade em que nos encontramos: é vertiginoso.

Mas é evidente que o coração não produz impunemente um trabalho tão prodigioso. Paga continuamente a sua contribuição. E tenhamos em conta choques emotivos, desgostos. A própria idade contribui, porque, a partir dos cinquenta anos, o homem já não caminha só com as pernas, mas também com o coração.

A máquina humana gasta-se pelo seu labor.

Fórmulas estranhas, mas exatas: vivemos com a condição de nos matarmos progressivamente; a vida esfacela-se perpetuamente pelo esforço que fazemos para a conservar.

Agonia

Os literários (por exemplo, Lamartine, que, na sua peça Le crucifix, conta o trespasse de sua mãe) tentam poetizar os últimos momentos. Falam-se de crisálida... Muito belo! Mas, vós que contemplais agonias, dizei-me: pensáveis em crisálidas? Pela minha parte, confesso não ter pensado nunca em borboletas de asas matizadas, quando estava perto do leito em desordem onde um homem agonizava.

A agonia, do ponto de vista que nos ocupa neste momento, isto é, considerada pelo lado puramente corporal, é bem uma humilhação total e um fenômeno extremamente prosaico.

Decomposição

Se alguns poetas se esforçaram por enfeitar a agonia, nenhum pensa em fazer uma discrição risonha do cadáver em plena deliquescência. Desta vez, já não há meio de suavizar a pintura.

Eis reduzido a um horror sem nome esse corpo ao qual instintivamente nos apegamos, esse corpo de que Chrysale dizia: "Farrapo sim, talvez; mas amo o meu farrapo" (Femmes savantes, Act. I, 26-7)

Eva Lavalliere fazia esta observação verdadeira, que muitas faltas ordinárias, são pecados do corpo: guloseima, preguiça, impureza...

É finalmente abandonado aos vermes este corpo pelo qual os mundanos passaram tantas horas nos salões de beleza, suportaram o capacete enorme e quente que seca as ondulações, se sujeitaram os banhos turcos que fazem emagrecer, dispenderam muito dinheiro com os melhores cosméticos.

Até para aqueles que não têm nenhuma preocupação de galanice, o corpo  é ainda um escravo exigente. Que tempo ele reclama! Que subtração o orçamento da nossa curta vida! Se se fizesse a adição de todos os quartos de hora passados a barbear-se! Contem-se as horas de sono, as que supõem o toucador, as refeições, os descansos. Ficaremos espantados por ver que um bom terço de vida se passa a sustentar ou a repousar o corpo.

E todavia, tem apenas uma importância de segunda ordem. Lamentamos de todo o coração os materialistas, os que escrevem como Aug. Lameere, antigo Reitor da Universidade livre de Bruxelas: "O homem é um animal como os outros: já não se pode pensar em atribuir-lhe uma alma imortal." (Carta de Lameere ao jornal Le Peuple, onde está citada em primeira página, 25 de novembro de 1934)

2- A alma

Qual é o seu valor?

Interroguemos sucessivamente as religiosas, os missionários, os Santos, Cristo...

Resposta das religiosas

O fim das religiosas contemplativas, docentes, hospitaleiras, etc., é antes de tudo dar glória a Deus: mas, além disso, salvar a sua alma e outras almas. Contemplemos essas santas mulheres que se ocupam de crianças anormais, as Irmãzinhas dos pobres, tão dedicadas por velhos desiludidos, algumas vezes estropiados. Os destroços humanos sobre que delicadamente se inclinam são interessantes? Não, mas conservam uma alma. Que ela esteja num corpo arruinado, que importa?

Quando nos oferecem um diamante com o estojo, que é nos preocupa? o preço do estojo, ou o do diamante? Ora bem; a alma do enfermo mais miserável é (se se pode empregar comparação manifestamente imperfeita) a pérola fina, de subido preço, num escrínio lamentável.

Resposta dos missionários

Aqui, no Gésus de Bruxelas, quantos deles vemos partir cheios de entusiasmo, quantos vemos voltar arruinados pelas fadigas! Façamos passar pelo espírito tudo o que a vida do missionário supõe: dilacerações do coração; afastamento da pátria; calores sufocantes; sacrifícios do conforto e destas mil facilidades ás quais, sem o pressentirmos, nos habitua pouco a pouco a civilização moderna; relações cotidianas com seres grosseiros cuja maneira de ver  difere totalmente da nossa.

Mas esses pobres gentios têm uma alma; eis o que explica todos os labores dos missionários.

Resposta dos mártires

Os das grandes perseguições antigas, os das grandes perseguições modernas, suportaram os tormentos, de preferência a perder a sua alma. (Leia-se, no II Livro dos Macabeus, o capítulo VI - suplício dos Judeus fiéis, de Eleázaro, dos sete irmãos)

Resposta dos Santos

Eles, que tinham as nossas tendências, praticaram magnificamente o "Vince teipsum". Simples homens, levaram uma vida que estava acima da natureza humana. Se tiveram este heroísmo cotidiano, era em vista de santificar a alma.

Pelo mesmo motivo, todos os cristãos devem algumas vezes contrarias os próprios gostos, impor-se penosos deveres. Paulo Bourget fez, em Némésis, esta observação justa: "O cristianismo repousa todo sobre o valor, sobre o preço das almas." (Plon, cap. I, pág. 109)

Resposta de Cristo

Ensina-nos, melhor que qualquer outro, quanto as nossas almas são preciosas. Por elas, deu um alto preço: "Fostes libertados, não por coisas perecíveis, prata ou ouro, mas por um sangue precioso, o do Cordeiro" (1ª Epistola de S.Pedro, I, 18 e 19). E Santo Agostinho: "O Redentor veio e deu o preço: derramou o sangue. Perguntais o que comprou? Vede o que deu e sabereis o que comprou. O sangue de Cristo é precioso." (Iº de Julho) que o Breviário nos recorda estas palavras do grande Doutor, tão enérgicas e preciosas, em latim:

"Venit Redemptor et dedit pretium: fudit sanguinem suum. Queritis quid emerit? Videte quid dederit et invenietis quid emerit. Sanguis Christi pretium est".

Dissemos que a grande sabedoria era salvar a nossa alma. Notemos bem que a salvação depende de nós. Somos livres. Evidentemente que, quando se trata do dever, da salvação, não temos uma liberdade moral (o direito de escolher o mal), mas uma liberdade física (a possibilidade de pôr um ato culpável).

Podemos nós cometer o pecado, perder-nos? Não, no sentido de que o mal não é permitido. Sim, no sentido de que a falta é uma ação realizável. O Senhor quis deixar ao homem uma liberdade que faz a legitima altivez do seu mérito, uma liberdade que é perfeitamente dirigida pelas leis divinas, encorajada pela promessa das recompensas, estimulada pela ameaça dos castigos.

"No princípio, Deus criou o homem, e deixou-o nas mãos do seu conselho. Deu-lhe também os Seus mandamentos e preceitos. Se guardando constantemente a fidelidade que Lhe agrada, quiseres cumprir os mandamentos, eles serão a tua salvação.

Pôs diante de ti a água e o fogo; estende a mão para o que mais te agradar. Diante do homem está a vida e a morte, o bem e o mal; o que escolher lhe será dado". (Ecli. XV, 14-18).

Praticar o bem, obedecer a Deus, é por excelência "o serviço pessoal". Nenhuma substituição possível.

A salvação da alma é questão que nós mesmos decidimos. Nós, com a graça de Deus. Colocados entre os dois caminhos, da direita e da esquerda, adotamos e seguimos livremente uma destas rotas... Isto é de tal modo verdadeiro que podemos formular estes dois princípios:

Se o homem está decidido a salvar a sua alma, nada pode impedi-lo;
Se o homem está decidido a perder a sua alma, nada é capaz de lhe violentar a resolução.

(Excertos do livro: Em face do dever - Volume I, pelo Pe. G.Hoornaet, S.J, traduzido por Pe. Elísio Vieira dos Santos, o original que serviu para esta tradução é o da 1ª Edição francesa que tem por título: "Face au Devoir")

PS: Grifos meus.


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