terça-feira, 22 de junho de 2010

O amor ao dever

A importância da formação do coração
Parte IV

O amor ao dever

Que é preciso fazer para sugerir às crianças o amor ao dever?
- É preciso ensinar-lhes exatamente o que é o dever.

- É preciso apresentar-lhes o dever como uma coisa séria, prática, definitiva e sagrada.

- É preciso dar-lhes, acerca do dever, uma idéia amável.

- É preciso infundir-lhes a noção e a estima do dever até à medula e ao sangue.

Que é então o dever e como se devem instruir nele as crianças?
Dir-se-á às crianças:

- Que o dever não está subordinado à impressão, ao prazer ou ao interesse; que se não identifica como o saber viver.

- Que o dever é aquilo que se impõe à consciência onde quer que se esteja; é o que elas devem fazer para agradar a Deus na situação em que se encontram, é, numa palavra, a vontade de Deus.

Como se podem habituar as crianças a considerar o dever como uma coisa séria?
Atribuindo-lhes a máxima importância, encarando-o não só pelo seu  enunciado, mas também por tudo o que se lhe correlacione, lhe diga respeito, e o traduza ou o represente: os professores e o modo como estes se exprimem, os pregadores e a natureza das suas predicas, as lições e as suas finalidades, etc.

Como se podem habituar as crianças a considerar o dever como uma coisa prática?
Obrigando-os a cumprir, todas as vezes, o que se lhes dá a conhecer...

Como se podem habituar as crianças a considerar o dever como uma coisa definitiva?
Apresentando-o às crianças sempre sob um aspecto imutável, independente das necessidades, do humor e do capricho.

No entanto, em quantos lares se ouvem ordens contraditórias que se sucedem quase sem interrupção:

- Por que é que não vais brincar?
E a seguir:
- Tu fazes muito barulho.

Ou então:

- Tu comes muito!
E seguidamente:
- Vamos! mais este pastelinho...

Como se podem habituar as crianças a considerar o dever como uma coisa sagrada?
- Dando-lhes sempre, nas suas palavras e ações, a prioridade dos interesses, nos gostos, nos afetos, no repouso e até na vida;

- Habituando as crianças a comportarem-se da mesma maneira, a perguntarem sempre a si mesmas: que devo eu fazer? e nunca: que é que eu gosto de fazer? que interesse tenho eu em fazer? etc.

- Exercitando-as no cumprimento do seu dever, porque é o dever, isto é, a vontade de Deus.

Como proceder para dar, do dever, uma idéia amável?
- É preciso cumpri-lo e obrigar a cumpri-lo francamente e com decisão.

- É preciso cumpri-lo e obrigar a cumpri-lo com generosidade, sem temor de ultrapassar os estritos limites.

- É preciso cumpri-lo e obrigar a cumpri-lo alegremente.

Para longe esses suspiros resignados em face do dever... "Não há remédios"!... "Ah! se eu pudesse fazer i que eu desejo"!...

Para longe esse mau humor que acompanha o tempo do trabalho e essa alegria expansiva que se sente apenas nos dias de repouso.

Não! Não!

Os dias em que há mais que fazer, os dias em que se exige mais esforço às crianças, devem ser marcadas por um aumento de alegria familiar. Assim o quer o Evangelho, quando recomenda que se abracem com alegria as obrigações custosas da penitência: Unge caput tuum et faciem tuam lava: Perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. (Mat. VI, 17)

Como se pode infundir a estima do dever "até a medula" e ao sangue das crianças?
- Mostrando-lhes as vantagens que derivam do cumprimento do dever.
- Incitando-as a cumprir sempre o dever.

Quais são as vantagens que resultam do cumprimento do dever?
- A alegria da consciência. - "Se soubésseis como se é feliz todas as vezes que, volvendo os olhos para o interior da nossa alma, aí se encontra o sorriso e se ouve a voz amada da consciência a dizer-nos: Cumpriste o teu dever!"
(Palhetas de ouro, 1ª série, 135)

- A segurança.- "O dever cumprido é um travesseiro sobre o qual se repousa sem inquietação, esperando, com o sorriso nos lábios, a recompensa prometida aos servos fiéis."
(Palhetas de ouro, 1ª série, 135)

- A santificação. - "O dever é o martelo que deita abaixo o que em nós há de terrestre e nos ajuda a fazer brilhar os dons celestiais que Deus nos concedeu. O dever é a barreira, talvez incômoda e embaraçosa para a fantasia, mas que nos impede de nos afastarmos para longe do caminho da virtude. Um santo pode definir-se: uma alma que cumpre perfeitamente o seu dever."
(Palhetas de ouro, 5º série, 43-44-45)

- O próprio bem-estar físico. - "O ar que se respira é mais suave, as plantas são mais perfumadas, o pequeno quarto onde se trabalha é mais ameno, o próprio trabalho tona-se mais fácil, a vida é mais bela. É um oásis que derrama sombra por todos os caminhos, fontes por entre os areais, vozes misteriosas e animadoras por todas as solidões."
(Palhetas de ouro, 5º série, 43-44-45)

- A benevolência para com os outros. - "O dever cumprido dá, para com os outros, essa bondade misericordiosa que se espalha como uma doce atmosfera, e atrai as almas. O dever é a pedra dura e rugosa que pule as asperezas do caráter e as substitui por uma disposição cheia de benevolência e de caridade."
(Palhetas de ouro, 5º série, 43-44-45)

É preciso então cumprir sempre o nosso dever?
Sim, sempre.


- Mesmo quando não agrada.
Aquele que cumpre o seu dever nunca está só; tem sempre em si, consigo e perto de si, Deus; Deus, testemunha dos seus esforços, Deus sustentáculo da sua fraqueza, Deus recompensa de sua generosidade.

- Mesmo quando possa ter conseqüências humanamente lamentáveis.

Faz o que deves, suceda o que suceder, diz um provérbio familiar a nossos pais. É preciso cumprir sempre o dever ainda que à custa da nossa vida, dizia Pe. Deroulède. Um velho cavaleiro, o conde Gruyère, partindo para a cruzada de Godofredo de Bulhão, bradava a seus companheiros este grito dos bravos: "Avante! Trata-se de chegar lá, volte quem voltar!" (R.Razin, A doce França, Não temais.)

"Conheço o meu dever, cumpre-me segui-lo;
não quero ponderar se perderei a vida."
(Racine, Bérénice, II, 2)

(Excertos do livro: Catecismo da educação, do Abade René de Bethléem, continua com o post: O coração deve ser desinteressado)

PS: Grifos meus.
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