quinta-feira, 20 de maio de 2010

X - A CRUZ: A MÃE

X - A CRUZ: A MÃE


Dizem que quando Jesus foi condenado à morte e entregue aos judeus para ser crucificado, elevou-se na araçá tão formidável clamor, que a Virgem Maria, refugiada numa casa da rua principal que seguia o fundo do vale do Tyrópeon, ao pé do Pretório, compreendeu, àquele grito de ódio, que tudo estava terminado: ergueu-se logo e, amparada por mãos amigas saiu à frente da porta para aguardar a passagem do lúgubre cortejo.

Este se formava a toda pressa no interior do corpo de guarda; requeriam-se pelo menos quatro soldados para levar os pregos, os martelos, as cordas, as escadas: um centurião romano deveria presidir à execução; estes cinco homens estavam escalados para a emergência. Não é fora de propósito pensar que vários outros, criados do Pretório ou soldados romanos, tenham pedido e conseguido agregar-se ao cortejo do famoso Rei, ou que outros mesmos lhe tenham sido acrescentados por dever oficial.

Pilatos tinha entregado Jesus aos judeus; no sopé da escada do Pretório, aquela turba sequiosa esperava pela Vítima: na primeira fila os sacerdotes, os escribas, os anciãos, os notáveis do Sinédrio e, provavelmente, a sua tropa de criados e de soldados. Isto fazia uma escolta compacta, cerrada. A cruz que de há muito haviam preparado para Barrabás é trazida: aguarda em pé, sustentada por um homem ao pé da escadaria. Jesus aparece no topo dos vinte e oito degraus, hoje transportados a Roma; desce devagar, regiamente, escoltado por criados e soldados. Tem as mãos atadas.

Nunca monarca algum que descesse para um carro de triunfo manifestou mais altivez, mais magnitude do que deixou transparecer Jesus nessa curta descida que ia ter à cruz.

Através das vestes, sob os passos, qual púrpura real e roçagante, marcava-Lhe o Sangue as pegadas e a passagem.

Chegado em baixo, é violentamente agarrado pelos algozes: adaptam-Lhe a cruz aos ombros; quer a tenha carregado num só ombro, quer deitada sobre as costas, ocupadas então as duas mãos em suster-lhe os dois braços dela, é sempre certo que o pé da cruz arrastava em terra. A cada passo, portanto, os tropeços do caminho, as pedras, o calçamento, as asperezas imprimiam um solavanco ao pé da cruz, e este solavanco repercutia dolorosamente nos ombros ensangüentados do Mestre.

Aliás, é-Lhe o corpo todo uma ferida só; os milhares de golpes da flagelação, as contusões repetidas das bofetadas, dos sôcos, das pauladas, não deixaram lugar algum sem pisadura; cada passo, cada movimento, o própria roçar das vestes são outros tantos padecimentos.

Mas o sinal é dado: soam os clarins, os clamores avultam, a onda se abala e logo, numa marcha que se quer apressada, lá se vai o pobre Jesus, cedendo ao peso, curvado, dobrado quase, com a cruz a dançar-lhe nas costas a cada passo; o suor, o Sangue, um palor lívido o rosto. A cabeça está por força abaixada, os cabelos caem-Lhe ante a face em longas mechas empapadas de Sangue e suor. É através deste intrincado sangrento que a multidão, ávida desses espetáculos, busca apreender o trabalho dos sofrimentos passados e o da morte que se aproxima.

Tudo se faz com pressa e precipitação nesse último acompanhamento. Os judeus estão pressurosos por acabar com aquilo, ou porque queiram quanto antes ver expirar a sua Vítima, ou porque o grande dia do sábado, que principiará naquela noite, os instigue e anime, ou porque no fundo receiem algum surto de magia no condenado.

As ruas de Jerusalém são estreitas, a multidão apaixonada é tumultuosa. Jesus é assim esbarrado, sacudido, o pé da cruz se desvia; todo o corpo do pobre condenado segue essas oscilações e esses contra-golpes.

À saída da grande porta de três vãos por sobre a qual haviam apresentado o Homem, Ecce Homo!, a rua desce rapidamente, em ladeira íngreme, para emendar em ângulo reto com a via principal que se estendia ao longo do vale do Tyropeon.

A escolta que O acossa, as vaias que O ensurdecem, o impulso dados pelos sacerdotes e anciãos que precedem o cortejo, sobretudo a cruz que O sobrepuja, que O verga e O impele para a frente: tudo isto faz com que a marcha de Jesus seja precipitada, de tal sorte que, chegado ao termo da ladeira, impelido por aquele declive doloroso, Ele cai bruscamente, e a cruz esmaga-O com todo o seu peso.

O Sangue, dizem, escorreu-Lhe da boca e das narinas. Foi preciso certo tempo para reerguer a cruz e Jesus. Este estava tão macilento, tão lívido, que um murmúrio de compaixão prorrompeu num grupo de mulheres que O seguia. Entretanto, sem dó O sobrecarregam de novo.

O cortejo vira à esquerda; a rua é reta, sem acidente, por alguns metros. Com as vestes cobertas de poeira e de Sangue, o Mestre se adianta, mais curvado que nunca.

Súbito, à esquerda, à frente de uma porta e amparada por algumas mulheres, – Ele distinguiu Madalena, – avista Ele Sua Mãe.

Ela estende instintivamente os braços: esse gesto da Mãe diante de quem tudo desapareceu e que só vê o Filho.

Ele soergueu um pouco a cabeça rorejante de Sangue e olhou-A. O cortejo passou, impelido numa onda de empurrões e pó. Maria continuava a estender os braços, mas a figura do Filho já desaparecera no turbilhão humano que o rodeava.

Que olhar! Que silêncio! Há sofrimentos que não se podem exprimir; desnaturá-los-ia a palavra; tudo se diz com um olhar e em silêncio. É nessas horas que as almas comunicam entre si diretamente, através do invólucro da carne que sofre.

A vida espiritual tem estados semelhantes. Jesus passa: a alma estende os braços e quer segurá-lO... Ele já passou. Mas olhou-a. E, como Maria, a alma se põe no encalço de Jesus: aquele olhar fascinou-a, ela irá até o Calvário, espezinhada, padecente por todos os poros, a sangrar, porém irá, porém se manterá lívida, de pé, junto à cruz.

Assim Jesus manifesta o Seu poder divino até no meio das ignomínias e das inferioridades padecidas em Sua Paixão.

Uma palavra pôs por terra os algozes que O vinham prender no horto.

Um olhar traspassou Pedro e transtornou-lhe a alma: Et conversus Jesus respexit Petrum.

Um outro olhar cai sobre Sua Mãe: Ela segue arrastada pelo Seu Amor que vai adiante.

Dentro em pouco ouviremos uma palavra de Jesus dar o Céu ao bom ladrão.

É mister quebrar a casca sangrenta da Paixão para lhe achar o fruto da divindade.

Está lá, ainda que oculta. Por assim dizer, desde que subiu ao Calvário Jesus só age e só opera nas almas através do sofrimento que as oprime.

Não há serem salvos e predestinados senão os que são conformes a Jesus Cristo, e a Jesus Cristo Crucificado (Rm 8, 29).

Ó minha alma, inveja pois esta semelhança, rejubila-te se alguns traços sangrentos daquela face lívida, desonrada, desprezada, se imprimirem em ti.

Olha, a multidão grita, os braços se agitam e empurram Jesus, a cruz Lhe pesa, os amigos são poucos... onde estão mesmo? A estrada se faz ascendente e desolada até à porta judiciária por onde se sai da cidade. Há na tua vida algo deste sombrio cenário? Então estás na estrada real. Praeit Dominus: o Senhor vai na frente; é lá em cima, no Calvário, que Ele dá o paraíso.

A lembrança do doloroso encontro de Jesus e Maria permaneceu cara à piedade dos fiéis amantes do Calvário. Mostra-se ainda hoje, em Jerusalém, no lugar presumido desse encontro, numa cripta sombria, sobre um mosaico antiqüíssimo, a dupla efígie de dois pés, dois pés de mulher: estão desenhados sobre o fundo escuro do mosaico, em pedras brancas e brilhantes: era ali que se postava Maria quando Jesus passou. Gostam as pessoas de ver esse lugar e a posição dos pés: estão voltados obliquamente para o lado do pretório, frente para Jesus que dali vinha.

Minúcia alguma é indiferente quando se trata de uma Mãe – e que Mãe! – a aguardar, na angústia e na desolação preditas pelo profeta Simeão, a passagem do Filho que caminha para a morte.

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(Capítulo X da primeira parte do livro “A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

(Recebido por e-mail)
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