domingo, 2 de maio de 2010

O meio da educação moral - Terceira parte

O meio da educação moral
Terceira parte


Capítulo III

Aqueles que se não ocupassem bastante de seus filhos, embora fossem piedosos e regrados pessoalmente, sujeitar-se-iam, por esta única falta, a mais formidável condenação
(São João Crisóstomo – Discurso sobre a educação das crianças)

Quais são as condições desta vigilância?
São quatro as principais:

- É preciso saber olhar: a perspicácia.
- É preciso querer ver: uma certa desconfiança.
- É preciso esquecer-se de si mesmo: o sacrifício.
- É preciso deixar à criança um meio de se acostumar a uma vida pessoal: o afrouxamento progressivo da vigilância.

Artigo I – A perspicácia

Os pais não gozam duma certa perspicácia natural em tudo o que diz respeito à educação?
Sim, já tivemos ocasião de o fazer notar. E todos aqueles que se ocupam das crianças têm a satisfação e a consolação de encontrar pais e mães que vêm repetidas vezes elucidá-los, com uma precisão admirável, sobre o temperamento, o caráter, os defeitos, as faltas, as qualidades e os recursos de seus filhos; nada lhes escapou.

Pode dizer-se que esta perspicácia é geral?
Não, infelizmente.
Ah! quantas vezes, penetrando na alma e na vida de certas crianças, somos obrigados a dizer ou pensar:

- Que pais tão cegos!

Leva a crer que têm olhos para não ver, ouvidos para não ouvir; uma minoria para não se recordar de nada; uma responsabilidade para a calcar aos pés. Esta falta de perspicácia não se encontra tão somente nalguns pais sem educação, sem consciência e sem fé. Nota-se, também, nos pais e mães que quereriam proceder bem, que pensam sempre proceder bem, e que não são, entretanto, os amigos de seus filhos, senão à maneira do urso da fábula, isto é, com incapacidade e duma maneira perniciosa.

Qual é o corretivo obrigado da perspicácia?
É a discrição: É conveniente observar sem o dar a conhecer, diz M.me de Stuart...

E quando existe esta perspicácia, é sempre suficiente?
É muitas vezes viciada por uma confiança exagerada nas crianças. Eis porque dissemos que a segunda condição a realizar, para praticar a vigilância, é uma certa desconfiança.

Artigo II – Uma certa desconfiança

Em que consiste a desconfiança?
Em não julgar os seus filhos fora da lei comum.
Em não ter neles uma confiança exagerada.

Em não dizer com leviandade: “tenho confiança em meus filhos e nas pessoas que os acompanham: posso, portanto, estar sossegado”.

Qual será primeiro fruto desta sábia desconfiança?
Será aproveitar com solicitude todas as indicações que se possam colher sobre o comportamento dos filhos.

Artigo III – O sacrifício

No fundo, que á muitas vezes nesta cegueira e nesta confiança exagerada?

Há, sobretudo, o medo do sacrifício.

A vigilância é a sujeição; fecham-se os olhos para nada ver, e proclama-se bem alto que não é necessária, que não há perigo algum.

- Para não ter que intervir, afastam-se as crianças, mandam-nas brincar e divertir-se na rua, confiam-se a estranhos.
- Fica-se pelo menos tranqüilo durante esse tempo.

- Sim, pais inconsiderados, os vossos ouvidos estão tranqüilos, os vossos olhos também, a vossa casa e o vosso espírito... Mas a vossa consciência deveria estar atormentada e com remorso! Ela deveria reprovar a vossa negligência e o vosso egoísmo, o odioso tráfico em que talvez tenhas vendido, por um pouco de repouso, a alma e a virtude dos vossos filhos!

- Para não se privar duma reunião, dum divertimento, dum baile, duma viagem... deixam-se as crianças entregues a si mesmas, ou confiadas a criados!
“Os anjos deixam o céu, apesar de verem sempre a face de Deus, para desveladamente se ocuparem dos vossos filhos” (Mgr. Pichenot) e vós, pais, vós não podeis fazer um sacrifício!

Artigo IV- O afrouxamento progressivo da vigilância

O papel das mulheres cristãs tem alguma coisa de análogo ao dos anjos da guarda: elas podem governar o mundo, mas com a condição de permanecerem invisíveis, como eles.”
(Ozanam)

A vigilância pode ficar sempre estrita e minuciosa?
Não; e haveria múltiplos inconvenientes em que assim fosse, quando a criança é já crescida:

- Os pais que quiserem ver tudo, tudo saber, tudo verificar e tudo julgar, tornariam inútil a consciência da criança. Ora, uma faculdade sem exercício atrofia-se. O exagero da vigilância conduz, portanto, à destruição da consciência.

- “A criança fará pouco caso da própria consciência se percebe que os pais e os mestres também não ligam importância; não se esforçará por ser conscienciosa, porque reconhece que a sua consciência é considerada desprezível”.
(Segundo F. Hieffer, A autoridade, p. 111-112).

Assim, logo que a vigilância falte ou afrouxe, não haverá nessa criança mais que um ser amoral, inconsciente do bem e do perigo, pronto a tomar a desforra do constrangimento que as vistas do mestre lhe impõem. Houve alguém que disse: “Quando os policiais se vão deitar, a minha consciência adormece com eles”
(Segundo F. Hieffer, A autoridade, p. 111-112).

- A criança dificilmente poderá fazer face às necessidades da existência, se não desenvolver a sua vida pessoal...

A que se deve atender para, sabiamente, determinar o grau de vigilância que convém à formação da criança?
Em princípio, é preciso ter em conta a idade, o temperamento, os hábitos, a educação, o grau de formação da consciência e da vontade, e, de harmonia com estes dados, proceder “de maneira a obter o maximum de ordem, compatível com o maximum de liberdade e de iniciativa pessoal”
(F. Kieffer, ob. cit., p. 124)

Com efeito, “é preciso que a criança sinta que, à medida que, por fraqueza, abusar da liberdade, a vigilância afirmar-se-á e tornar-se-á mais ativa; ao passo que, sabendo gozar essa liberdade, a vigilância far-se-á discreta e respeitosa”.
(F. Kieffer, ob. cit., p. 124)

Capítulo IV - O objeto da vigilância

“Os olhos das mães não são feitos como os das outras pessoas: descobrem a distância e, na sombra, podem ler até nos corações”.
(Mgr. Pichenot, Tratado prático de educação maternal, p. 56).

Qual é o objeto da vigilância?
A vigilância deve exercer-se sobre tudo que, sejam pessoas ou coisas, possa fazer correr algum perigo às crianças. Desenvolvendo esta idéia, daremos algumas indicações, que, sem a pretensão de serem completas, bastarão, sem dúvida, para abrir os olhos.

Artigo I – As pessoas

Quais são as pessoas que devem ser, em dados casos, objeto da vigilância?
São:

- Certos membros da família;
- O pessoal;
- Os camaradas;
- Os irmãos as irmãs dos amigos que as crianças têm arranjado;
- As pessoas convidadas;
- Os conhecimentos de termas e praias;
- Os encontros fortuitos.

1º - Certos membros da família

É verdade que há perigo, para a virtude das crianças, no próprio seio da família?
“Acreditar-me-ão os pais? Pergunta Mgr. Dupanloup. É muitas vezes sob o seu teto e quase sob os seus olhos, cerrados por uma lamentável falsa segurança, é aí muitas vezes que o mal contamina os seus filhos. E como o poderiam evitar? Se eles nem sequer suspeitam da sua presença...”
(Da educação, t. III, p. 446.)

O pai pode ser um perigo para os seus filhos?
Apressamo-nos a dize-lo: o perigo é muito raro, mas ai! Não é quimérico. Eis porque somos obrigados falar dele; que os pais nos perdoem!

Quando é o pai um perigo para os seus filhos?
Quando despreza a religião e a moral a ponto de a não respeitar nem em si, nem nos outros. A mãe, a quem arranjaram aquele casamento, ou se quis arrumar, aceitando aquele noivo, ou pela sua bela posição, ou por amor, a mãe imprudente ou sacrificada, será obrigada, se quiser preservar os seus filhos, a defendê-los da influência perniciosa do pai!

Que situação, meu Deus!

Se ela o não faz, estas pobres criancinhas, que são a carne da sua carne, e o osso do seu osso, e que desejaria sinceramente conduzir ao céu, como, aliás, é do seu dever, estas criancinhas perderão, na convivência com o pai, a fé e a virtude. Há homens tão desagradados que não respeitam a fé dos filhos, nem a virtude das filhas.

Em que consiste o perigo que vem dos irmãos mais velhos e das irmãs mais velhas?
- O mal pode vir duma ação recíproca; mofando um do outro, corrompem-se, arrastam-se mutuamente.
É isto possível?
É mesmo freqüente.

- O mal pode vir na ação dos mais velhos sobre os mais novos. Os primeiros abusam dessa autoridade que dão a idade e o tamanho, e, quando estão uns com os outros, sós e sem vigilância, o diabo joga com eles o seu horrível jogo da tentação e do pecado.

- O mal pode vir só do mau exemplo.
Por instinto, as criancinhas imitam os grandes, e fazem muito mais depressa o que vêem fazer aos irmãos e às irmãs do que aquilo que lhes fora recomendado pelos pais.

- O mal pode vir da cumplicidade ignorante dos mais novos; a sua timidez torna-os instrumentos dóceis e a sua ingenuidade serve de capa às práticas mais vergonhosas.

- O mal pode vir do afeto mal orientado dos irmãos mais velhos que estragam e contribuem para deformar os mais novos.

Que se deve pensar desta desculpa: “Meu filho tem companheiros; nunca sai; brinca sempre com os seus irmãos e irmãs?”

Na maior parte dos casos, será o suficiente para acalmar as inquietações mais delicadas; mas seria uma falta de conhecimento e de prudência fazer disso o ponto de apoio duma segurança absoluta. Desde que há possibilidade do mal, persiste a obrigação da vigilância.

Qual será o remédio?
O remédio está em se aplicarem, desde o princípio, as leis e os métodos da boa educação, por uma forma tão sensata, que a maneira de proceder dos mais velhos seja sempre uma lição de coisas, um exemplo vivo, e dos mais atraentes, das recomendações e dos conselhos dos pais e das mães.

O perigo não é maior quando se trata de primos e de primas?
Pelo menos assim parece aos olhos daqueles que sabem vigiar e querem ver. Neste caso particular, as quedas são inumeráveis. Um bom pai de família contava-nos um dia, a chorar, coisas vergonhosas sucedidas a seus filhos, e resultantes da convivência com um primo.

Para o caso, não era mais que um acidente, porque as vítimas não desconfiavam de nada; o sedutor tinha-lhes adormecido à consciência.

Um criado fora encarregado pelo seu jovem amo de ir comprar um livro licencioso. Não ousou desobedecer; depois, envergonhado da sua condenável fraqueza, contou a verdade ao preceptor das crianças, que procurou saber como o jovem, tão bem educado, havia podido conhecer o título da obra.

Um primo, vindo do colégio, falara-lhe desse livro, declarando-o muito atraente. O primo não tornou a ser convidado. Não seria, porém, já muito tarde?
(Depoisier, Da educação, p. 22-23).

(Excertos do livro: Catecismo da educação, do Abade René Bethléem, continua...)

PS: Grifos meus.
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