quinta-feira, 20 de maio de 2010

A escolha

A escolha


De todos os atos do casamento o mais importante é, sem dúvida alguma, a escolha, porque é dela que depende, para sempre, o futuro. Da escolha depende a felicidade ou a desgraça do lar; sobre ela repousam os valores moral e espiritual da família. A escolha é livre, porque o amor é livre e não nasce de um imposição: é mais fácil extingui-lo do que impô-lo; mas, uma vez feita a escolha, ela o terá sido definitivamente, para a vida toda.

É por esse motivo, porque a escolha do casamento é coisa primordial e definitiva, que é preciso que não nos enganemos. Ora, a escolha pode ser falsa por várias razões. Uma vez são razões de ordem mundanas e social; outras são as paixões carnais, imaginativas; outras ainda, preocupações de amor-próprio sem que se olhe para o amanhã.

Não seria demais que os candidatos ao casamento ouvissem e examinassem todas essas ordens de razão mesmo porque eles não saberiam nunca prescrutar suficientemente a natureza de todos os seus sentimentos.

É por ocasião da escolha daquele que será o companheiro de uma vida toda, que os futuros esposos deverão invocar o divino Espírito Santo, para que as falsas luzes da paixão não venham obscurecer os raios luminosos do amor espiritual, tal como deve ser realizado entre cristãos.

Os homens têm duas concepções contraditórias do amor a escolher. Ou bem eles o indentificam com a paixão carnal, ou vêm no amor um meio de colaborar na grandiosa obra de Deus, com a fundação de um lar.

Se atentarmos na paixão carnal, é fácil vermos que esse amor não é livre. Ele é uma febre sensual que acorrenta as pessoas e, praticamente, lhes rouba o senso das realidades morais e objetivas. Aquele que se entrega a essa espécie grosseira de amor, preocupa-se apenas em acorrentar o objeto de sua cobiça, afim de fazê-lo cair sem mais resistências e submetê-lo aos seus desejos de posse pecaminosa...

Para que o amor seja livre é necessário que ele se liberte das exigências da paixão. A paixão deve ser sempre dominada e, muitas vezes mesmo, corajosamente destruída. Somente por este preço é que as faculdades superiores do respeito, do devotamento e da generosidade encontram meios de se libertar e de se desenvolver.

Deixar-se prender pelos olhos ou pela imaginação a uma paixão cega, não é escolher o objeto de seu amor, mas tornar-se o joguete de seus próprios desejos. A paixão tem seu nascedouro das profundezas do instinto carnal, enquanto que o verdadeiro amor eleva o instinto às mais altas aspirações espirituais da alma.

A educação e os hábitos agem na boa ou má escolha dos jovens. Aquele que está habituado a obedecer unicamente aos seus caprichos, fará sua escolha em função de um capricho; o que está habituado a pesar seus atos, a refletir, não se decidirá nunca superficialmente.

Não é demais observarmos aqui que a responsabilidade de certos erros na escolha dum marido ou duma mulher provém, muitas vezes, das faltas cometidas pelos educadores. Quem, além dos pais, é o responsável pela escolha precipitada de um jovem que se deixou levar unicamente por uma paixão de momento? Se esses pais não se tivessem sempre curvado aos caprichos do filho, ele agora não seria capaz de agir precipitadamente, num caso de tanta gravidade e que requer tanta meditação.

Por que um jovem escolhe sua esposa apenas pelos bens materiais que ela possui, sem levar em conta suas qualidade morais? Não será porque sempre lhe ensinaram que os bens de fortuna valem mais do que tudo no mundo?

Os hábitos adquiridos, assim como a educação recebida, podem prejudicar ou favorecer a liberdade da escolha. Se as paixões obscurecem e falseiam os julgamentos, aqueles que se libertarem dessas paixões serão mais livres do que aqueles que ainda se encontram acorrentados a elas. Aquele que se tornou um escravo da carne, já não é capaz de fazer uma escolha, mas unicamente de obedecer a um impulso; ao contrário, há plena liberdade de escolha para aquele que conseguiu se livrar de todo o interesse egoísta e vulgar.

O jovem que nunca olhou as mulheres senão com olhar de cobiça e que nunca pensou em associá-las às suas aspirações morais e espirituais, está reduzido a escolher sua esposa apenas pelos encantos que possuir; ser-lhe-á impossível penetrar no conhecimento da alma feminina.

É necessário não concluir, pelo que acima ficou escrito, que o atrativo físico não tem nenhuma importância no matrimônio: o que se quis frisar foi que, quanto maior preponderância tiver o atrativo físico sobre as outras qualidades do objeto amado na escolha, tanto menos livre se tornou essa escolha...

A próposito do casamento, toda a averiguação é difícil e não nos move nenhuma presunção de poder dar aqui processos e métodos infalíveis. Sobre esse terreno escorregadio, os erros são sempre possíveis.

Uma das primeiras preocupações que deve surgir aos futuros cônjuges deve ser sobre a saúde. É inadmissível que dois cristãos se unam pelo casamento, sem se terem assegurado previamente a existência de uma prole sadia. Não precisamos salientar agora que a saúde moral deve ficar colocada muito acima da saúde física: é curial que muitas vezes se encontram almas superiores em corpos débeis; mas não resta a mínima sombra de dúvida que antes de se unirem pelo casamento, os futuros esposos têm a obrigação de se precaver, na medida do possível, de legar a seus filhos máculas congênitas. Não é para defesa desses riscos de hereditariedade mórbida que a Igreja e a sociedade civil impedem o casamento entre primos próximos? ...

O conhecimento das disposições morais deve ser o centro das averiguações de que falamos acima: pesquisa essecial mas, quão difícil muitas vezes! Se é verdade que há almas perfeitas que têm a ventura de se conhecer bem e que fazem questão de se mostrar tal qual são, quantos há que mistificam suas atitudes e seus gestos, certos de que assim conseguirão logo um casamento?

Nunca será demais insistir com os jovens que a maior mentira consiste em enganar alguém para se fazer desposar.

Entretanto, mesmo advertidos e convencidos sobre esse ponto, os jovens procuram instintivamente se tornar agradáveis uns aos outros: surgem daí  incovenientes desvios, que necessitam de uma indispensável averiguação das realidades morais que estão escondidas sob esta ou aquela atitude.

Essas realidades morais estão em profunda dependência com o meio social e familiar. Infelizmente, as próprias famílias se mascaram e, cúmplices de seus filhos, encaminham as coisas para uma solução que lhes agrada. O meio dos amigos também está sujeito a influenciar os espíritos, afim de não perder suas relações. Por isso, nada poderá substituir a própria observação...

É necessário, enfim, conhecer as crenças morais e espirituais daquele ou daquela que se pensa desposar: convicções relativas aos grandes problemas da vida - da moral conjugal - da educação dos filhos.

Além destas questões já tratadas, o jovem cioso do seu futuro tem de enfrentar outras interrogações, antes do casamento.

Deve optar por um casamento precoce ou por um casamento tardio?

... Não será tentar a Providência o constituir uma família, sem que se possa ainda prover as suas necessidades? Neste particular, pode-se dizer que a idade do casamento tende a variar com as situações sociais dos pretendentes ao matrimônio. Todavia, não é necessário, sob o pretexto de prudência, se espere para fundar um lar até que se tenha resolvido, antecipadamente, todos os problemas que se apresentarão no decurso do seu desenvolvimento.

"Cada dia tem o seu mal", dizia Jesus. Parodiando o Mestre, pode-se dizer: "Cada dia tem a sua prudência". Uma vez que o homem tem a certeza que pode fazer face às necessidades do lar que vai fundar, deve ter confiança que a Providência virá em seu socorro à medida que a família for crescendo.

Em face de tantos e tão variados problemas, os jovens que querem chegar à solução deles, têm muitas vezes uma necessidade de auxílio. A quem deverão confiar tantas perguntas de difícil resposta? Antes de darem conhecimento da escolha que fizeram, não seria conveniente dá-la a conhecer a alguém para que pudessem ouvir alguns conselhos?

Uma elementar prudência manda que contem com a experiência daqueles que já viveram muito, para terem visto e ouvido bastante. Em primeiro lugar os pais devem ser consultados. Eles têm muito mais facilidades, do que os dois interessados em uma união, para fazer pesquisas sobre a saúde, a situação material, a posição social do candidato. Além do mais, amam os seus filhos e desejam unicamente a sua felicidade.

Essas condições são essenciais para que não se enganem em suas averiguações. Eles conhecem o caráter do filho e estão aptos, mais do que ninguém, para ver se uma determinada união traz probabilidades de felicidade que eles sonharam para o filho.

Um amigo experimentado, um diretor de consciência, pode também prevenir enganos e orientar a escolha.

Não é raro, entretanto, ver-se jovens que se recusam terminantemente fazer qualquer confidência sobre os seus sentimentos. Eles acreditam, em geral, que um celibatário por vocação, ignora tudo quanto se refere ao coração e suas aspirações. Entretanto, o padre, pelas confissões que ouve e pelo seu profundo conhecimento das paixões humanas, está em situação privilegiada e pode, melhor do que qualquer outra pessoa, distinguir um verdadeiro, de um falso sentimento, sabe ver o que é uma paixão egoísta e o que é um dom generoso da alma.

Os jovens não deverão pois penetrar no matrimônio precipitadamente. Sabendo que o casamento não é uma união passageira e que envolve consigo, não somente o seu próprio futuro, como também os dos filhos que virão, não deverão se casar antes de ter examinado se a união que se apresenta oferece as garantias morais que asseguram a sua perfeita solidez...

A verdadeira sabedoria humana consiste em contar com Deus, mais do que com todos os cálculos da prudência. Mas, fazer abstração de sua razão e de suas faculdades de observação, não será desprezar a Providência? A conciliação da Fé com a sabedoria é que deve ser aplicada pelos jovens que receberam de Deus a missão de fundar um lar cristão.

(Excertos do livro: O casamento, do Cônego Jean Viollet)

PS: Grifos meus.
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