quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Virgem Maria

A Virgem Maria



A Virgem Maria. - Seus pais.
 - Sua Conceição Imaculada. -
Sua vida no templo. - Os desposórios
- A anunciação. - A Encarnação.

Naquele tempo vivia em Nazaré, pequeno burgo da Galiléia, uma Virgem donzela da tribo de Judá, parenta chegada de Izabel e Zacarias. Chamava-se Maria.

Tudo o que os homens sabiam d'Ela, era que sob um exterior singelo e modesto cultava um nascimento ilustre. Por parte de Seu pai Joaquim e de Sua mãe Ana, a família sacerdotal de Aarão. Depois da queda da antiga dinastia, os seus antepassados, despojados da sua alta dignidade e fortuna, e perseguidos, como pretedentes perigosos, pelos novos senhores da Judéia, tinham procurado na obscuridade o repouso.

Desconhecidos ao sombrio Heródes, e ocultos num valesinho solitário, Joaquim e Ana lá viviam em paz dos frutos dos seus rebanhos, bastante ricos, apesar da sua decadência, para aliviar os indigentes e oferecer abundantes vítimas sobre o altar de Jeová.

E contudo decorriam-lhes os dias na tristeza, porque se recusava o Céu a abençoar-lhes com a prole a sua união. Como a mãe de Samuel, cujo nome gracioso tinha, suplicava Ana ao Senhor que lhe pusesse termo à esterilidade: Joaquim juntava as suas preces às da desolada esposa, mas parecia que Deus se comprazia em exercitar-lhes a paciência.

E contudo, por causa da sua perfeita virtude, tinha-os Deus escolhido para executar o mais admirável desígnio de quantos concebera. No momento em que os dois esposos perdiam de todo a esperança, deu-lhes o Senhor uma filha que havia de ser eternamente a Sua glória e a honra da nação.

Esta criatura bendita, colocara-A Deus em Seus eternos decretos acima de toda a criatura, acima dos reis e rainhas, que no decorrer dos séculos representariam o Seu divino poder; acima dos santos, nos quais resplandeceriam com maior brilho as Suas perfeições infinitas; acima até dos nove coros de espíritos gloriosos que Lhe rodeiam o trono. Eva no paraíso terrestre, parecia-lhe menos pura, Ester menos amável, Judite menos forte e menos intrépida.

Ao criar esta Virgem, fez um milagre, com que não favoreceu nenhum filho de Adão. Posto que saída duma raça manchada desde o princípio, preservou-A do pecado original. A torrente lodosa que vai rolando suas ondas por cima de todo o homem que vem a este mundo, deteve-se no momento da Sua Conceição; e pela primeira vez, desde o naufrágio do gênero humano, descobriram os anjos sobre a nossa terra uma criatura imaculada. E por isso num santo arroubamento exclamaram:

"Quem é esta mulher, formosa como o sol, radiante como o astro das noites?"

Ana e Joaquim receberam com gozo esta filha privilegiada de Deus, cujo glorioso nascimento haviam de celebrar à porfia os anjos e os homens. Não conheciam os pais toda a grandeza do tesouro confiado aos seus cuidados, mas bem cedo observaram que a celeste menina em nada se parecia com nenhuma outra criança da terra.

Antes de poder articular palavra, já a razão presidia a todos os seus atos e até nos movimentos mais instintivos nunca obedecia às tendências desordenadas que germinam em todos os corações, inficionando-os. Maravilhados com os dons que Deus prodigara àquele anjo da terra, Ana e Joaquim prometeram consagrar-Lhe a infância ao serviço particular do templo. E de fato, apenas terminava o Seu terceiro ano de vida, levaram-na para a cidade santa afim de a apresentar ao Senhor.

A menina subiu gozosa os degraus do templo, contentíssima de se encontrar na casa de Deus, cujo amor era o que só fazia bater-Lhe o coração. Ali nos aposentos vizinhos do santuário, no meio das Suas piedosas companheiras viu ela passar demasiado rápidos os belos dias da juventude.

As Suas ocupações consistiam na meditação dos Livros santos, e em confeccionar os ornamentos destinados ao culto divino e em cantar os louvores de Jeová. Por vezes com o rosto  voltado para o Santo dos Santos, tomava do seu avô David os cantos inspirados e com um coração mais ardente que o do santo rei, repetia Ela esta letra de amor:

"Senhor que amaveis são os Vossos tabernáculos! Um dia passado em Vosso templo vale mais do que mil nas tendas dos pecadores."

A hora dos sacrifícios, quando o sacerdote imolava a vítima sobre o altar dos holocaustos, suplicava Ela a Jeová que aceitasse pela salvação do povo aquele sangue de expiação e que enviasse enfim o Messias prometido a seus pais. Era o seu único desejo ver com os Seus olhos e venerar a mulher bendita que o havia de dar ao mundo.

Com diferença das filhas de Israel, das quais cada uma aspirava a honra de vir a ser a mãe do Libertador, Maria julgava-se indigna deste inefável privilégio. Um dia até, impelida pelo Espírito de Deus... esquecendo-se de que vivia num corpo de carne, elevou-se até aos anjos do Céu, e prometeu ao Senhor de não ter outro esposo mais que a Ele.

Quando chegaram os dias da adolescência, houve a donzela de deixar o templo e voltar para a Sua casa de Nazaré. O pai e a mãe haviam descido ao sepulcro. Na idade de quatorze anos, encontrou-Se a pobre orfã sozinha, sem proteção nem arrimo. Propuseram-lhe os membros da Sua parentela, entre os quais Izabel e Zacarias, que Se desposasse com um homem da Sua família, conforme prescrevia a lei.

Na qualidade de herdeira única devia tomar, como esposo, o parente mais próximo afim de conservar o patrimônio dos Seus antepassados. Entregando-se de toda a direção do Espírito que a inspirava a seguir este conselho, consentiu, apesar do Seu voto, no matrimônio que lhe propunham. O esposo da Virgem chamava-se José. Sendo, como Maria, da casa de David, descendia diretamente dos reis de Judá pelo ramo de Salomão.

Mas, posto que remontasse até Abrãao por uma esplendida série de antepassados, a nobreza do seu caráter sobrepujava ainda o lustre do nascimento. Justo e temente a Deus, mas pobre e obscuro também, como Maria, exercia em Nazaré o humilde emprego de carpinteiro e ganhava a vida com o suor do rosto. Avisado do voto que a esposa fizera, entrou nos desígnios de Deus, e constituiu-se o guarda da Sua virgindade.

Não esperava o Senhor mais que por esta angélica união para realizar o projeto cuja execução vinha preparando havia quarenta séculos. Uma tarde, ajoelhada na Sua humilde morada, expandia a Virgem de Nazaré a Sua alma diante de Deus com mais fervor que nunca. Eis que de súbito a envolve uma luz celeste e a tira do Seu recolhimento.

Volta a cabeça e observa um anjo em frente de si a alguns passos do lugar em que estava. Era o grande mensageiro de Deus, o arcanjo São Gabriel, aquele mesmo que há quinhentos anos, revelara a Daniel os tempos messiânicos e acabava de predizer a Zacarias o nascimento do Precursor.

Inclinou-se profundamente diante da Virgem e disse-Lhe com a humildade dum vassalo diante da sua rainha:

"Deus vos salve, ó cheia de Graça, o Senhor é conVosco, bendita sois Vós entre todas as mulheres."

Maria reconheceu logo um espírito celeste, e por isso não se assustou com esta visita; mas aqueles louvores que Lhe não parecia deverem-se dirigir a uma pobre mortal, causaram-Lhe grande perturbação. Pela Sua atitude e pelo rubor das faces, adivinhou o anjo o sentimento que a agitava: prosseguiu pois com doçura, chamando-A desta vez pelo Seu nome.

"Maria, Vós encontrastes graça diante de Deus. Eis o que Ele me encarrega de Vos anunciar: Vós concebereis e dareis à luz um filho, a quem dareis o nome de Jesus. Será grande, e chamar-Se-á filho do Altíssimo. Dar-Lhe-á o Senhor o trono de seu pai David, reinará na casa de Jacó, e o Seu reino não terá fim."

Não havia aqui possibilidade de engano: o Messias, havia quatro mil anos esperado, ia aparecer, e este Messias libertador, verdadeiro Filho de Deus, seria ao mesmo tempo Filho de Maria. Esmagada sob o peso de semelhante dignidade, permaneceu a Virgem por um momento assombrada; depois, refletindo no voto de virgindade, que a todo o custo queria guardar, fez esta pergunta ao arcanjo:

"Como será isso possível, quando eu não conheço homem?"

"O Espírito Santo descerá sobre Vós, respondeu o celeste mensageiro, e a virtude do Altíssimo Vos protegerá com a Sua sombra; por isso o Santo que de Vós há de nascer, chamar-Se-á Filho de Deus. Sabeis que Izabel, Vossa prima, concebeu um filho na sua velhice, e eis aí que há seis meses a que era estéril se tornou fecunda: porque a Deus nada é impossível."

Maria não precisava deste exemplo para crer que para a onipotência divina os prodígios são como brinquedos. Entendendo que por intervenção desse poder viria a ser mãe sem deixar de ser virgem, aniquilou-Se diante de Deus e exclamou:

"Eis a escrava do Senhor, cumpra-se em mim a Vossa Palavra." 

Depois de ter obtido este perfeito consentimento, desapareceu o anjo; e o Filho do Eterno, descendo das mansões celestiais, encarnou no seio virginal da Mulher Imaculada. Nesse momento, saudaram os exércitos angélicos ao Rei dos reis e ao Senhor dos senhores: ao Homem-Deus; como Homem, filho de David, filho de Abrãao, filho de Adão, formado do mais puro sangue da bem-aventurada Maria; como Deus, gerado desde toda a eternidade, Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.

E tal é o adorável mistério que arrebatou aos anjos e ao próprio Deus nessa noite mil vezes bendita: o mistério do Verbo feito carne. A memória desta noite relembra-a o sino a todos os filhos dos homens, pela manhã, quando tudo desperta aos primeiros fulgores do dia; ao meio-dia, quando o trabalhador interrompe algum tempo os seus trabalhos; e à tardinha quando o sol ao pôr-se nos vem de novo trazer o descanso.

Então, quando essas alegres badaladas repetirem aos campos e as cidades, aos vales e aos montes:

"O Verbo se fez carne e habitou entre nós";

dobrar-se-á todo o joelho, toda a fronte se inclinará diante do Homem-Deus e de todos os peitos humanos irromperá esta exclamação de amor em honra da Virgem-Mãe:

"Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é conVosco, bendita sois Vós entre as mulheres."

(Jesus Cristo, Sua vida, Sua paixão, Seu triunfo, pelo R. Pe. Berthe, da Congregação do SSmo. Redentor - 1925)

PS: Grifos meus.
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