sábado, 8 de maio de 2010

IX - A CANA

IX - A CANA


A coroação de espinhos foi um episódio imprevisto da Paixão. Uma crueldade que não entrava no primeiro programa. Uma idéia satânica germinou no cérebro dum legionário: é logo posta em execução com toda a impetuosidade. O fito é menos o de fazer sofrer a Vítima do que o de ridicularizá-la. E tudo é sabiamente organizado neste sentido.

O Cristo está sentado, despojaram-nO das vestes: o corpo chagado, lavrado de golpes, está coberto apenas por aquele molambo de púrpura, sujo e curto. Ataram-Lhe as mãos pela frente e na mão direita colocam-Lhe um “cetro” para que o traje de rei ficasse completo. Esse cetro é um pedaço de cana...

Os soldados, que já se divertiram com a esdrúxula vestidura de rei, começam a aproximar-se-Lhe. Com todas as exterioridades de um respeito oriental, dobrando o joelho e prostando-se diante de Jesus, saúdam-nO ironicamente: Ave, Rex Judaeorum.

Depois, nessa atitude, de joelhos e próximos dEle, eis que, de repente, um Lhe lança no rosto uma cusparada, outro se ergue e Lhe dá uma bofetada: faria o choque escorregar a cana de entre os dedos trêmulos do Mestre? Um terceiro segura-a, levanta-a se caiu, e dá com ela uma bordoada na cabeça coroada de espinhos, em meio a risadas, a vivas e aclamações. Parecendo engraçada a brincadeira, cada qual lhe disputa um lugar.

Estava ali toda uma coorte; qualquer que tenha sido o número de soldados, havia de certo bastantes atores dolorosos naquele drama improvisado para se supor que as pauladas e os hediondos escarros se tenham sucedido sem trégua, em meio às aprovações ruidosas dos espectadores.

Qual poderia ser então a face, a cabeça, o corpo de um pobre já a escorrer sangue, que se torna em alguns instantes o alvo único de tantas bofetadas e ultrajes?

Recusa-se a imaginação a ver e a contar.

Breve já não há diferença, como cor, entre a carne e o manto, entre o rosto e a coroa. Tudo é rubro, tudo é púrpura, tudo é Sangue.

No meio daquele pretório cercado de soldados, na maioria jovens, violentos, de risos grosseiros, um ser lastimável está abatido, retalhado de golpes, a sangrar por todos os lados; já não é mais que uma massa vermelha, repugnante como uma carne esfolada.

Ecce Homo: eis o homem; Ecce Rex vester: eis o vosso Rei! Eu vo-lo trago, diz Pilatos à multidão que se agita no sopé da grande porta encimada por um terraço.

Jesus aparece no Seu vestuário de Sangue, mal coberto, envergonhado do Seu manto em frangalhos, com a cabeça torturada pela coroa de espinhos, com a cana a Lhe tremer nas mãos.

Eis o homem!

E todavia já se Lhe não distinguem os traços humanos através da mascara de Sangue coagulado; só os dois olhos fitam dolorosamente aquela multidão.

“Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos em torno a mim, como a galinha o faz aos seus pintinhos!”

Nesse momento eles estão reunidos e em torno dEle, mas de todas as bocas só se desprende um clamor: Tolle, tolle! Fora, tirai-O! Crucifige, crucificai-O!

Popule meus, quid feci tibi? Ó meu povo, que te fiz Eu? Murmura o Coração em Sangue do Mestre.

Há muitas vezes palavras íntimas que nos são dirigidas por Jesus no segredo da alma, em meio aos apelos das nossas paixões. Porque o drama é o mesmo: Jesus está diante de mim. A turba das más inclinações rebrama. E não raro lançamos a essa turba o pobre corpo ensangüentado de Jesus, como Pilatos o vai fazer daí a instantes.

Tolle, tolle, crucifige eum: tirai-O, crucificai-O!

Na igreja das Damas de Sião, em Jerusalém, no topo das ruínas daquele arco triunfal por cima do qual foi assim apresentado Jesus, Rei coroado de espinhos, colocaram, aos pés de uma imagem do Ecce Homo, uma coroa de ouro, um diadema real: uma homenagem, uma reparação.
Rex esto: sede o Rei, ó Cristo, sede o meu Rei primeiramente!

No nosso coração, onde o mundo tem o seu cantinho afagado e fechado, Jesus tem dificuldade reinar com o Seu manto de púrpura irrisório, Sua coroa de espinhos e Seu cetro de cana. Mas é preciso.

Rendamos algumas vezes a Jesus homenagens secretas: ponhamos-Lhe em espírito uma coroa aos pés. Ele o merece.

Rex esto: sede Senhor, em seguida, Rei de todos. Ai! Será o pequeno número que Vos aceitará tal como estais hoje no terraço. Rei de dor, Rei de comédia, Rei escarnecido, posto a ridículo. Mas sempre Rei.

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(Primeira parte do livro “A subida do Calvário”, do padre Louis Perroy, SJ)

PS: Texto recebido por e-mail, mantenho os grifos.
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