domingo, 22 de setembro de 2013

Exercícios Espirituais para Crianças - PARTE SEGUNDA (Via iluminativa) - I. O REINO DE CRISTO

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.
Fr. Manuel Sancho, 
Exercícios Espirituais para Crianças
1955
PARTE SEGUNDA A Imitação de Cristo
(Via iluminativa)


I. O REINO DE CRISTO

1. Qual há de ser o primeiro dos Exercícios da semana. — 2. Apelo à conquista do Reino de Cristo. — 3. Alegria do caminho de Cristo. — 4. Como conquistaremos almas para este Reino de Cristo. — 5. Resumo.

1. — Vossa alma já está limpa de pecados pela confissão sacramental; já concebestes ao pecado ódio de morte; já resolvestes corrigir-vos pela oração e pelo exame quotidiano: assim dais o primeiro passo para atingir o vosso fim último, Deus. Mas a Ele devereis chegar pela imitação de Seu Filho Jesus Cristo. Por isto, à primeira semana de Exercícios, que trata de extirpar os pecados e que por isso pertence à Via Purgativa, segue-se naturalmente a Via iluminativa, isto é, seguir o caminho trilhado por Cristo, nossa luz e guia, imitando as suas altíssimas virtudes.

Entre parênteses vos direi que isto de primeira ou segunda semana de Exercícios se refere ao tempo que Santo Inácio deixou estabelecido para a duração dos Exercícios. Ordinariamente tinham-se quatro semanas de Exercícios. Que comprido! não é verdade? Isto me direis porque sois crianças fracas, e rebentaríeis com a carga. Também há pessoas grandes que dizem o mesmo. Agora eles costumam fazer-se em oito dias, e mesmo em menos, em seis, em cinco, em três, que é muito pouco tempo para labor tão magno e importante. 

O comum é fazerem-se em oito dias. A primeira semana costuma durar três ou quatro dias; a segunda e a terceira, dois ou três; e a última, um apenas. Assim, quando eu vos falar de semana, já me entendereis.

Nesta segunda semana começa-se, pois, a seguir a Cristo, e a primeira meditação ou explicação é a do “Reino de Cristo”, que é a meditação fundamental desta semana, como a do fim do homem é a fundamental dos Exercícios; e, assim como então a primeira coisa que se apresenta à consideração dos exercitantes é o fim do homem, que é Deus, para depois, pelas meditações seguintes, afastar os impedimentos que se opõem à consecução deste fim, impedimentos esses que são os pecados, assim também pomos agora como fundamento desta semana o “Reino de Cristo”, que é resolvermo-nos a imitá-lO, para depois, nas outras meditações, irmos considerando as virtudes que Ele praticou, e procurando copiá-las em nós. Fique, pois, assente que, para imitar a Cristo, o que é a finalidade desta segunda semana, a primeira coisa que devemos fazer é resolver-nos a segui-lO. Nosso fim é Deus, e a Deus se vai por Cristo.

2. — Estais lembrados daquele exemplo que vos propus da viagem em automóvel? Disse-vos que, para fazer aquela viagem sem percalços, havia que suprimir obstáculos que impedissem o veículo de caminhar, havia que limpar de pedras a estrada, aplanar depressões, levantar calçadas..., o que significa tirar os pecados, únicos impedimentos no caminho de Deus. Desembaraçada já a alma desta carga terrível, prontas as asas e com ânimo de empreender o voo, como ignoramos o caminho e nesta vida é de noite, carecemos de luz e guia. A luz e guia é Cristo. Logo, se queremos seguir o caminho do céu, devemos ter a Cristo por luz e guia.

Para que esta verdade entre, pela imagina­ção, no nosso entendimento, Santo Inácio propõe uma parábola. Diz ele: figurai “um rei humano, eleito por mão de Deus Nosso Senhor, a quem fazem reverência e obedecem todos os príncipes e todos os homens cristãos”, rei esse que diz a todos os seus súditos: “A minha vontade é conquistar toda a terra de infiéis; portanto, quem quiser vir comigo, deve ficar satisfeito de comer como eu, e assim de beber e de vestir, etc.; igualmente deve, como eu, trabalhar de dia e velar de noite, etc., para que assim tenha depois parte comigo na vitória como teve nos trabalhos. Considerai o que a um rei liberal e tão humano devem responder os súditos, e, por conseguinte, se algum não aceita a peti­ção dele, quanto merece ser vituperado por toda gente, e tido por perverso cavalheiro”.

Olhai as qualidades desse rei: ele é tão poderoso que todos os outros príncipes e to­dos os cidadãos lhe obedecem; e Deus escolheu-o para os seus grandes desígnios. É tão bom que só pensa em empregar o seu poderio para a glória de Deus, trazendo a Deus todos os povos. Tão grande é esse rei, tão louváveis os seus desígnios, que todos os súditos devem responder-lhe oferecendo-se-lhe em absoluto, e o que se negar a isso será tido por perverso cavalheiro. Não é verdade que deixar de segui-lo seria uma insigne covardia? Mas, os que o seguem, com que entusiasmo o seguem! Quantas e belas esperanças abrigam eles sob as ordens de tal rei!

Agora escutai a explicação da parábola. O rei é Jesus Cristo, que diz a cada um de nós: “A minha vontade é conquistar o mundo todo e todos os inimigos, e assim entrar na glória de meu Pai; portanto, quem quiser vir comigo há de trabalhar comigo, para que, seguindo-me no penar, também me siga na glória” (Sto. Inácio). De modo que, se vós teríeis oferecido vossas pessoas ao rei da parábola, quanto mais não deveis oferecê-las a Jesus Cristo, que é verdadeiro rei de todo o mundo? Assim, pois, “todos os que tiverem juízo e razão hão de oferecer suas pessoas ao trabalho”. E sabeis qual é este trabalho? É “lutar contra a sua própria sensualidade”, é renegar-se a si mesmo, é sermos enfim bons soldados de Cristo na conquista do reino dos céus para nós e para outros a quem salvemos.

Olhai a pessoa de Jesus Cristo, Rei magnífico que vos chama ao Seu serviço. Ele é belo sobre toda ponderação, atraente, misericordioso, amantíssimo sobretudo das crianças. Que há n’Ele que não seja amor e doçura?

Qual será esse reino que Jesus quer conquistar? É o reino das almas, é aquele reino cuja vinda pedimos no Padre-Nosso dizendo: “Venha a nós o vosso reino”. É este o reino que Ele quer conquistar, e para o qual pede o vosso auxílio. Quer conquistar as almas e reinar nelas.

É tal a excelência deste reino que devemos conquistar, que só por ele se fez carne o nosso bom Jesus, e andou entre os homens cujas almas queria ganhar, escolhendo para a Sua obra os apóstolos, pregando pelo mundo uma doutrina trazida do céu, para nos santificar e nos levar para lá; fazendo o bem, morrendo por nós, deixando após si lugar para a Sua Igreja santa, o Seu reino deste mundo, a qual, seguindo a mesma rota de Seu esposo Cristo, fosse continuadora e executora da Sua vontade na grande conquista das almas. Nós pertencemos a essa Igreja, e estamos obrigados, nesta obra da salvação do mundo, a seguir o nosso rei Jesus. Olhai como é magnífico e excelente esse reino! Como não seguirmos o apelo do nosso Rei Jesus? 

Sigamo-lo, pois, na conquista desse reino.

Determinados que já estais a isso, querereis saber que coisa seja esse reino de Cristo. Esse reino é a alma de cada um — como acabo de dizer, — na qual Jesus quer reinar por graça, ajudando-o nós nessa conquista espiritual; Ele quer entrar em nossos corações e aí reinar. Mas necessita de que vós o deixeis entrar.

Com muitíssimo gosto — dir-me-eis. Jesus entrar e reinar em nós? Que beleza! Que entre, que entre e reine!

Aplaudo esta resposta vossa, tão ingênua e cordial; mas, esperai. Entrar num coração e reinar nele significa fazê-lo inteiramente seu e governá-lo à sua vontade, e isto custa à vontade própria os seus sacrifícios. Mas não vos assusteis: dar-vos-ei um remédio muito bom para dardes por completo o vosso coração a Jesus e lho entregardes ao Seu alvedrio amando-O deveras.

Os dois amiguinhos Antônio e Pedro amam-se entranhadamente. Aquele já é taludo e de forças; este é menor e fraco. Certo dia eles saem juntos para brincar à margem de um rio. Pedro, distraído, pisa em falso numa das touceiras da margem e cai no rio, que por ali é profundo. Antônio, bom nadador, lança-se à correnteza e tira fora seu amigo já meio afogado. Desde então o amor de Pedro ao seu salvador não tem limites. Antônio, que é bom, serve-se deste profundo carinho do seu amiguinho para bem deste, conseguindo dele tudo quanto quer. Assim, depois de lhe salvar o corpo, salva a alma do amigo e, de ricochete, a sua própria.

Neste exemplo Antônio reina no coração do seu amigo e consegue dele tudo o que quer, e, ainda quando lhe peça impossíveis, o fraco e pequeno Pedro se reforça e consegue... esses impossíveis, para dar prazer ao seu amigo.

Do mesmo modo, Jesus Cristo quer reinar nos vossos corações depois de vos haver salvado da morte eterna, conquistando-vos para Ele e querendo que façais por Ele... que? impossíveis? Nada disso: quer fazer em vós a Sua vontade.

Os mandamentos que Ele vos impõe e os conselhos que vos dá são, com Sua ajuda, fáceis. “Meu jugo é suave e minha carga leve”, diz Ele. É jugo o que Ele vos impõe, e o jugo é levado por dois. Jesus Cristo está convosco nesta conquista espiritual das vossas almas. Que temeis? Olhai, olhai o vosso capitão Jesus que vos convida a esta empresa de felicidade vossa e honra sua, e, olhando-o, e considerando o que Ele vos pede, determinar-vos-eis a segui-lo com o maior dos prazeres.

Agora imaginai Cristo sentado na planura de Genesaré; vede-O como, olhando para uma multidão de meninos e meninas que O cercam e que disputam entre si e se atropelam para estarem mais perto d’Ele, diz estas amorosíssimas palavras: “Deixai vir a mim as criancinhas” (Mc 10, 14). Ponde-vos, pela consideração, entre aqueles meninos, pensai que Cristo nosso Rei vos chama e quer que vos achegueis d’Ele, porque Ele quer conquistar um Reino, o nosso Reino, o Reino d’Ele nos vossos corações, pois Ele o diz: “Meu reino está dentro de vós” (Lc 17, 21). À conquista de vós mesmos caminha Ele, por isso vos chama, por isso vos quer.

Não sem razão compara-se este apelo de Cristo à conquista de um Reino. Sabeis o que sucede quando um rei quer conquistar um Reino? Faz declaração de guerra, soam clarins, congregam-se hostes, afiam-se e brunem-se as armas, previnem-se os ânimos valorosos... Assim vos chama Cristo, dizendo: “Às armas, meninos! pois vamos conquistar para mim o Reino de vossas almas”. Receio que as meninas, que se sentem pouco belicosas, se julguem excluídas deste apelo: nada disto; também vós sois chamadas a esta guerra de novo gênero, porque Cristo quer reinar nos vossos corações.

Agora vede o que fazem os soldados quando o rei os chama à conquista: “Aqui estamos! — dizem eles. — Viva o rei!” Assim haveis de responder a esse chamado de Cristo: “Aqui estamos, prontos a seguir-te: Viva Jesus!” E é este precisamente o fruto do exercício deste dia: a resolução de seguir a Cristo, mande Ele o que mandar.

3. — Alegro-me com este vosso entusiasmo: se prosseguirdes nele, depressa conquistareis o vosso coração para Cristo. Mas ai! que talvez algum pensamento desalentador, como um mau caruncho, roa esta vossa energia e faça vacilar as vossas perninhas. Seguir a Cristo nosso Rei! Que bonito! Mas quão difícil! — diz o caruncho — e quão triste! — acrescenta. Ladeira acima, por íngremes penedias, sem um pouco de prazer que alegre a vida... horizontes turvos... deixando aos lados risonhos jardins que se têm de passar de largo; fontes rumorosas, sem poder atirar-se a elas de bruços e beber um gole sequer que acalme a sede abrasadora...

Oh! que engano funesto se dessa maneira julgais o seguir a Cristo! O caminho do prazer é bonito na fantasia: na realidade, é uma agonia continuada. Os seus deliciosos jardins de flores têm áspides; as suas claras fontes trazem veneno que amarga as fauces e aumenta a sede; no fim abre-se o antro do inferno...

Em compensação, o caminho de Cristo não é triste como parece à primeira vista.

Imaginai que sois uns exploradores, desses a que chamam boy scouts ou escoteiros, e que caminhais por uma senda edregosa e ladeira acima, mas ides com uma turba de amiguinhos capazes de desenrugar o cenho mais franzino. Levam eles compridos bordões de alpinistas, carabinas e espingardas de ar comprimido para atirar nos pássaros, e também sua mochila bem repleta e uma cornetinha para as ordens. E levam como capitão um menino mais crescido, bonachão como um pedaço de pão, o qual é como se fosse pai deles. Este vai adiante, ajuda os pequenos, corta sarçais com a sua faca de mato... e ri, e anima, e com o seu cantil dá de beber a quem o necessita. Quando a hoste infantil se cansa, ele manda fazer alto e, à sombra de um arvoredo, tira um riquíssimo cordial, reanima-os com um par de tragos e... “Avante... meninos! Avante os exploradores!” — diz o capitão apontando para um bosquezinho precioso, com seu castelo pequeno no meio, fim da expedição, castelo no qual esperam os pequenos as mais gratas surpresas. — Avante, meninos! repete o rapaz, ajudando a este, amarrando a mochila àquele outro e as botas a um terceiro. — Que bom capitão que temos! — dizem os exploradores, e levantam-se como um só homem e recomeçam a penosa marcha, sem se lembrarem de penas, cantando todos um hino guerreiro. Vamos a ver quem é o bravo que se atreve a dizer que este caminho é triste.

Pois mais alegre é o caminho que temos de fazer para conquistar o Reino de Cristo. Vai conosco uma turba imensa de santos e santas, gente alegre, embora a muitos pareça triste. O capitão é Cristo, e, quando a sede fatiga, Ele aproxima dos nossos lábios abrasados um riquíssimo cordial que sabe a leite e mel, o cordial da Eucaristia; e nos apoia a Ele, para que bebamos do Seu lado aberto o leite da consolação ou, quando menos, do esforço animoso. Se os ardores do sol e a aspereza do caminho fatigam, há n’Ele suas paradazinhas onde, à sombra amiga do nosso Capitão, nós limpamos o suor do rosto e, quando soa a voz de mando: “Avante, meninos! Avante, meus filhos”, Ele nos dá a mão e, às vezes, até nos carrega às costas. É triste isto? Não sabe o que diz quem assegura que é triste seguir a Cristo.

Um pouquinho difícil... sim, mesmo algo difícil é; mas asseguro-vos que muito mais o é seguir o diabo. Coisa interessante! O que parece bonito e agradável aos sentidos, vindo do diabo, que é um velho apodrecido, vem empestado e dá náuseas; e o que parece repugnante e áspero à primeira vista, vindo de Cristo, perde a sua crueza, e sobe a néctar a própria amargura. Dizei-me se há alguma coisa mais amarga do que as lágrimas, e, todavia, derramadas por Cristo, são doces como córregos de mel. Como é isto, meu Jesus, que assim dulcificas o que tocas? É que por onde passas vais deixando cintilações da Vossa formosura!

4. — Como conquistaremos almas para este reino de Cristo? Escutai. Posto que, embora custoso, seja tão alegre o seguir a Cristo na conquista deste reino de cada uma de nossas almas, Ele quer que, depois de olharmos seriamente pela nossa salvação, olhemos também pela de nosso próximo. Lembrai-vos do que fazia o menino Antônio, que salvou a vida a Pedro e depois se prevalecia do amor deste para conduzi-lo ao céu.

Mas, perguntar-me-eis — podemos salvar almas conquistando-as para Cristo? Isso compete aos missionários.

Aos missionários e a vós. Como? De duas maneiras. Primeiro procurando serdes cada dia mais santinhos. Só com seu exemplo o santo leva ao céu atrás de si muitas almas. O exemplo é como os rosmaninhos e as alfazemas floridas que, por seu aroma, atraem as abelhas: assim a alma santa atrai outras almas. Pelo que, dai bom exemplo, como o rosmaninho dá flores repletas de mel.

Em segundo lugar, podeis trazer almas a Cristo fazendo de missionários de verdade, orando pela conversão dos cristãos pecadores, dos gentios e hereges, e fazendo por eles algum sacrifício. Num colégio de meninas há um mealheiro para as missões, e em cima do mealheiro um negrinho de feltro. Uma colegial mete amiúde no mealheiro uma moeda de dez centavos. Cada vez que a põe, o negrinho inclina a cabeça. A nova missionária compreende muito bem que a saudação do negrinho não significa outra coisa senão a saudação do Anjo da Guarda aplaudindo aquela esmola para as missões. Além disto, a menina faz outros sacrifícios, e reza de todo o seu coração para que o reino de Cristo se estenda entre os gentios. Esta menina é um verdadeiro soldado de Jesus Cristo que o segue na conquista do reino das almas.

Eis aqui um belo meio para aumentar o reino de Jesus Cristo. Mas há outro também muito praticável e consiste em atrair a Jesus Cristo as pessoas com quem tratamos. O amor é proselitista, atrai gente ao nosso partido, e, como vós amais a Jesus e quereis atender ao apelo que Ele vos faz a prol da conquista do Seu reino, naturalmente havereis de ter grandes desejos de lhe trazer almas. Vedes algum amiguinho vosso que deixa bastante a desejar; fazei o que puderdes para levá-lo a se confessar e a comungar; dizei-lhe como é mau o pecado, como ele se expõe a condenar-se andando por veredas perigosas, e outras coisas deste gênero que o amor a Jesus vos porá nos lábios. Talvez topeis, na vida, com criaturas ignorantes que andam longe de Deus. Falai-lhes, aconselhai-as, mostrai-lhes o bom caminho. Outras vezes, encontrareis algum ignorante sem culpa: ensinai-lhe a olhar para o céu.

Uma vez uma menina me trouxe outra menina para que eu a batizasse. Isto não aconteceu nem na Mourarja, nem na China, nem no fundo de uma mata africana, porém numa das nossas grandes urbes católicas. A pequena catecúmena pedia o batismo com muita insistência. De que meios se valeu a nova missionária para trazer aquela ovelhinha à Igreja de Cristo, que é o seu reino na terra? Contou-lhe coisas da História Sagrada; explicou-lhe à sua maneira algo do catecismo... o que tudo a outra pobrezinha ouvia encantada. Via um mundo novo para ela. Principalmente se comoveu quando ouviu Joaninha (assim se chamava a catequista) dizer-lhe um dia:

Nós as meninas católicas trazemos na fronte uma estrela que é o resplendor da graça que temos na alma; por essa estrela Jesus Cristo nos reconhece como Suas.
Mas eu não estou vendo em ti estrela nenhuma, disse a outra.
Mas vê-a o anjo da guarda, Deus a vê.
Pois eu quero trazer essa estrela.
Essa estrela ser-te-á dada pelo batismo, com a graça que receberás pela água batismal. Enquanto não te batizares, ainda que espanhola, serás uma mourazinha.

Não embalde pedia a pobre mourazinha o batismo. Instruíram-na, batizaram-na... Suponho que agora ela será uma boa cristã, seguidora de Cristo. Ouvistes, pois, como uma menina entendia muito bem essa coisa de ganhar almas para o reino dos céus.

Às vezes numa família há algum dos seus membros afastado de Deus; mas também há nela um menino amante de Jesus Cristo; e, não podendo sofrer que uma pessoa a quem ele ama esteja afastada do único bem, esse menino reza por ela, sacrifica-se, fala-lhe, e afinal consegue trazê-la a Deus. Quantos pais blasfemos têm sido convertidos por um bom filho! quantas mães loucas, por uma filha virtuosa! E vede como um menino, uma menina se unem a esses soldados de Jesus, os missionários, e estendem o reino de Cris­to pelo mundo, conquistando-lhe almas.

5. — Agora resumamos esta meditação, para que recordeis os motivos que tendes para seguir a Cristo, e formeis melhor os propósitos de fazê-lo.

Ao começarmos esta segunda semana de Exercícios, pomos como base da meditação o Reino de Cristo. Este Reino de Cristo é rei­nar Ele em nossas almas. Recordaremos a parábola de Santo Inácio sobre o rei humano que chama seus súditos para conquistar todos os homens e fazê-los cristãos. Segue-se de­pois a aplicação da parábola. Este rei é Cristo; nós somos os súditos; o reino que Ele quer que conquistemos são ''as nossas almas e as dos nossos próximos. Para mover-nos a isso, contemplaremos como é amável a pessoa de nosso rei Cristo, e quanto Ele nos ama; depois pensaremos em que este reino que devemos conquistar é o reino das almas na terra, para o que faremos a vontade de Cristo, a fim de depois reinarmos com Ele no céu. É tão grande a excelência deste reino das almas, que por ele Cristo se fez nossa carne, e morreu por nós.

Ora, para que Cristo reine em nós, mis­ter se faz que nos entreguemos por comple­to à sua vontade, amando-o de coração, a exemplo daquele menino livrado da morte por seu amiguinho. De ainda mais nos livrou Cristo, pois nos livrou da morte eterna. Vamos, pois, determinar-nos a seguir a Cristo na grande conquista. Não devereis temer dificuldades, pois Cristo vai conosco e alegra o nosso Calvário melhor do que aquele capitão dos escoteiros alegrava os seus subordinados, e, para nos esforçarmos e aplacarmos a nossa sede, dá-nos o cordial da Eucaristia.

Além disto, não haveis de vos contentar com salvar vossas almas; haveis de trabalhar para trazer a Deus almas dos vossos próximos, particularmente as mais ligadas a vós por parentesco, amizade e trato; e, enfim, haveis de rezar pelas missões e fazer por elas algum sacrifício. Quantas vezes, pela oração e pelos sacrifícios de uma criança, as palavras dos missionários são mais eficazes, e um gentio se converte e se batiza, e o principal missionário diante de Deus foi uma criança!

Agora, cheios os vossos corações destes bons propósitos, resolvidos a seguir sem vacilação o caminho de Cristo, que é o da Cruz, pedi a nossa Mãe Maria que torne eficazes estes bons desejos, e para isto rezai comigo três Ave-Marias.
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