terça-feira, 3 de setembro de 2013

A Mãe segundo a vontade de Deus - Das criadas e das governantas

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.

A Mãe segundo a vontade de Deus ou Deveres da Mãe Cristã para com os seus filhos, 
do célebre Padre J. Berthier, M.S
Edição de 1927


VI- Das criadas e das governantas

Deve a mãe, como já dissemos, cultivar por si própria, os primeiros anos de seus filhos, com a mais atenta vigilância, e não se separar deles, senão o menos possível. Assim fazia aquela santa senhora do Chantal. Ela nunca perdia de vista os seus filhos; despia-os por suas próprias mãos, deitava-os ela mesma, e não os deixava, senão depois de todos estarem a dormir. No dia seguinte, despertava-os, vestia-os, e depois levava-os ela própria à capela. Mas nem sempre as ocupações e a vida doméstica permitem às mães de família o prazer de terem os seus filhos, debaixo do alcance da vista, e por isso confiam-nos a criados, ou damas de companhia.


Daqui se vê quanto é importante escolher a pessoa que deve, durante a ausência da mãe, cum­prir para com a criança um ministério mais nobre, do que comumente se pensa; direi mesmo uma im­portante missão! Numas das suas cartas, dá S. Jerô­nimo sábios conselhos a Gaudêncio, acerca da ma­neira de educar a pequena Pacatula, sua filha, que não tinha ainda sete anos. — «Que a criada que acompanhar essa criança, dizia ele, que a governanta encarregada de a guardar, não seja nem ociosa, nem faladora, mas que seja sóbria, grave, aplicada ao tra­balho manual, e que nada diga, que não seja pró­prio para formar uma jovem para a virtude. Traçai com o dedo uma passagem para a água, espalhada na terra, e a água, segue logo o vosso dedo: assim sucede com uma idade tenra e delicada, que toma facilmente todas as formas, e levá-la-eis para toda a parte que quizerdes.» Escrevendo a Locta, nobre viuva romana, recomenda o mesmo santo doutor, que escolha para sua filha uma ama que se não en­tregue à moleza, nem à intemperança, e uma gover­nanta que, por sua modéstia, seja digna de ser esti­mada. — «É necessário, acrescentava, que as criadas que acompanharem a vossa filha se desviem com cuidado das reuniões mundanas; porque ensinariam mais maldade a vossa filha, do que elas mesmas teriam aprendido, nessas reuniões».

S. Gregório, escrevendo a uma nobre patrícia, chamada Théoctista, recomenda-lhe que vele com cuidado pelos filhos da imperatriz, e pelas pessoas que os rodeiam. — «Para eles, diz este santo doutor, as palavras das amas, serão um leite salutar, se elas forem virtuosas; mas um veneno mortal, se elas forem depravadas.» —«Se deixais a vossa filha entre­gue a mulheres de espírito leviano, mal regulado e indiscreto, escrevia a uma senhora distinta o imor­tal Fénelon, elas lhe farão mais mal em oito dias do que vós poderíeis fazer-lhe em muitos anos. Falarão umas para as outras, com excessiva liberdade, diante duma criança que observará tudo, e que tudo jul­gará poder fazer. De forma que a criança ouvirá maldizer, blasfemar, mentir, suspeitar, disputar; verá cenas de ciúmes, inimizades, questões irritantes e cenas incompatíveis com a sua idade. Além disso estas pessoas, dotadas ordinariamente dum espírito servil, não deixarão de querer agradar à criança, mostrando-lhe ao vivo tudo quanto ela desejar saber». Mas se mulheres dum espírito leviano são capazes de fazer tanto mal às crianças, que lhes são confia­das, não seria uma desgraça extrema, uma verdadeira calamidade deixar cair uma criança, entre as mãos duma mulher de costumes fáceis, e um crime para os pais entregar em semelhantes mãos o depósito mais precioso o mais sagrado que Deus lhes conce­deu ? Seria possível que uma mãe escolhesse, para uma função, que exige tantas virtudes, uma pessoa suspeita, ou simplesmente desconhecida? Pois há-as que chegam a levar até esse ponto a sua negligência, e a sua imprevidência. — «Quem não tem muitas vezes deplorado a sorte das crianças expostas? ex­clama sobre este assunto, Mgr. Dupanloup. Só a caridade as recolhe e as educa; a irmã de S. Vicente de Paulo, transformada em mãe, sem deixar de ser virgem, as aquece contra o coração; mais tarde os bons Padres da doutrina cristã, ou algumas irmãs zelosas lhes prodigalizam os seus cuidados. Mas as crianças ricas nem sempre têm a mesma felicidade, porque, depois de terem haurido, como a criança exposta, um leite mercenário, são muitas vezes abandonadas em casa dos pais, a criados que as depravam. Quantas vezes não tenho lido ocasião de deplorar isto mesmo, e em famílias cristãs! Ah ! se os pais soubessem tudo! Se eu pudesse dizer-lhes tudo quanto sei [1]

Antes, pois, de fixar uma escolha, que é de tama­nha importância para seus filhos, e para ela própria, uma mãe cristã procura com escrupulosa solicitude saber qual foi o comportamento da pessoa a quem vai confiar os seus filhos. Deve ter extremo cuidado em não encarregar de tão graves funções uma pessoa inexperiente, muito nova, deve seguir em tudo os san­tos conselhos que ditava Fénelon: — «Deveis ter, pela menos, escrevia ele a uma piedosa mãe, uma pes­soa segura, que vos responda por vosso filho, durante as ocasiões, em que vos virdes constrangida a separar-vos dele. É preciso que essa pessoa tenha bastante juizo e virtudes para saber tomar uma auto­ridade branda, e para conservar as outras mulheres, no seu dever; para repreender vosso filho, sem atrair a sua animadversão, e para vos dar conta de tudo o que merecer a vossa atenção, afim de evitar más consequências. Confesso que semelhante mulher não é fácil de encontrar, mas é importante procurá-la, e depois remunerá-la convenientemente, para viver bem junto de vós. Sem esse auxiliar importante, nada ou pouco podereis fazer [2]

Escolhei pois, ou na vossa casa, ou na vossa família, ou na vossa terra, em alguma comunidade bem dirigida, alguma rapariga que julgueis capaz de ser aplicada a esse fim. Tratai imediatamente de a formar para esse emprego, e conservai-a algum tempo junto de vós, para a experimentardes, antes de lhe confiardes cargo tão precioso»[3].

Convém notar que o ilustre prelado, cujas salu­tares lições acabamos de transcrever, queria que a virtuosa senhora, a quem ele escrevia, não perdesse nunca de vista a sua filha exceto no caso duma absoluta necessidade; são estas as suas próprias palavras. Não há mão efetivamente, por mais meiga e firme que seja, que possa substituir, junto duma criança, a mão de sua mãe.

M.me Acarie tinha sabido afeiçoar à sua família Andrée Levoie, senhora cheia de fé e de virtudes; e no entretanto nunca lhe confiava as suas filhas, senão quando os seus negócios ou as suas boas obras a obrigavam a sair de casa. Mas quando regressava, exigia sempre contas do que as filhas tinham feito, durante a sua ausência.

Notas:

[1] Mgr. Dupanloup
[2] Fénelon — Carta a uma senhora.

[3] Fénelon — Da educação das meninas.
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