quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Das Adversidades


Retirado do livro
Pe. de La Colombière
Excertos
 Livro de 1934 - 54 páginas

(Em breve este livro estará no Alexandria Católica)

Para conhecer a vida de São Cláudio de La Colombière CLIQUE AQUI


Das Adversidades
(De como são úteis aos justos e necessárias aos pecadores)
Vede essa terna mãe que por mil carícias trata de acalmar os gritos do filho, que o rega com suas lágrimas, enquanto lhe aplicam o ferro e o fogo; desde que aquela dolorosa operação se faz a seus olhos e por sua ordem, quem pode duvidar de que aquele remédio violento não deva ser extremamente útil àquela criança, e que ela não deva encontrar nele uma saúde perfeita, ou ao menos o alívio duma dor mais viva e mais longa?
Faço o mesmo raciocínio quando vos vejo na adversidade. Vós vos queixais de que vos maltratam, de que vos ultrajam, de que vos mortificam por calúnias, de que vos despojam injustamente dos vossos bens: o vosso Redentor (este nome é ainda mais terno do que o nome de pai e de mãe), o vosso Redentor é testemunha de tudo o que sofreis; Ele que vos traz no seio, Ele que declarou altamente que quem quer que vos toca o toca na pupila dos olhos, Ele próprio, não obstante, permite que sejais atribulados, embora pudesse impedi-lo, e duvidais de que essa provação passageira vos deva proporcionar as mais sólidas vantagens?

Acrescentai a isso que, quando se tratou de nos poupar penas que visivelmente nos teriam sido inúteis, Ele nada esqueceu, forçou as leis da natureza para nos garantir contra elas. Tudo quanto se atura após a morte, seja nas chamas do purgatório, tudo isso é computado como nada; não se pode esperar daí nem glória nem recompensa; só se sofre então por sofrer. Que não fez Jesus Cristo para nos preservar desses tormentos infrutíferos? Pôs tudo em uso, até o atraí-los sobre sua pessoa inocente. Foi neste intuito que ele derramou todo o seu sangue e expirou na cruz. Sim, Jesus Cristo abandonou-se a si próprio à cólera de seu Pai e à fúria dos judeus, para impedir não só que fôssemos entregues ao fogo eterno, mas ainda que fôssemos um só momento detidos no purgatório; satisfez por nossas culpas as mais leves, não deixou nada por pagar; muito mais, deixou um tesouro inesgotável de méritos à sua Igreja para os novos crimes em que incidimos todos os dias. Esta razão única me faz às vezes de mil demonstrações. Quando o Espírito Santo não tivesse chamado bem-aventurados aos que sofrem neste mundo, quando todas as páginas da escritura não falassem em favor das adversidades, quando não víssemos que elas são o quinhão mais comum dos amigos de Deus, eu não deixaria de crer que nos são infinitamente vantajosas; para me persuadir disto basta eu saber que um Deus que preferiu sofrer tudo o que a sanha dos homens pode inventar de mais horríveis torturas, a me ver condenar aos mais leves suplícios da outra vida; basta-me, digo, que saber que é esse Deus que me prepara, que me apresenta o cálice de amargura que eu devo beber neste mundo. Um Deus que sofreu tanto para me impedir de sofrer, não me faria sofrer hoje para dar A si um prazer cruel e inútil.
Quanto a mim, senhores, quando vejo um cristão abandonar-se à dor nas penas que Deus lhe envia, eu digo primeiro: Aí está um homem que se aflige com a sua felicidade; pede a Deus que o livre da indigência em que se acha, e deveria dar-lhe graças de o haver reduzido a ela. Estou certo de que nada lhe podia suceder de mais vantajoso do que isso que faz o motivo da sua desolação; tenho para o crer mil razões sem réplica. Mas se eu visse tudo o que Deus vê, se eu pudesse ler no futuro as consequências felizes com que Ele coroará essas tristes aventuras, quanto mais confirmado me sentiria no meu pensamento.
Com efeito, se pudéssemos descobrir quais são os desígnios da Providência, é certo que desejaríamos com ardor os males que sofremos com tanta repugnância. Toda gente sabe a história célebre de José. Quando os irmãos o despojaram; quando, para se desfazerem dele, o venderam aos ismaelitas, quem poderia dizer quantas lágrimas derramou ele, quantas súplicas fez para curvar os irmãos desnaturados, quantas vezes lhes abraçou os joelhos, com que dor desaprovou tudo o que os pudesse ter desgostado no seu proceder? Pode-se duvidar de que ao mesmo tempo ele tivesse feito mil votos para obter algum socorro do céu num extremo tão premente? Filho da Providência, inocente vítima, como Deus vos amaria pouco se vos escutasse! Como faríeis votos bem diversos se ele vos fizesse conhecer aonde vos devem conduzir o exílio e a servidão que temeis! O acontecimento fez ver, cristãos ouvintes, que ele tinha mais motivo de se alegrar do que de se queixar do indigno tratamento que recebia. Sabeis que Deus o levava ao trono por esse caminho. Meu Deus, se tivéssemos um pouco de fé, se soubéssemos quanto nos amais, quanto tendes a peito os nossos interesses, com que olhos encararíamos as adversidades? Ir-lhes-íamos ao encontro com solicitude, bendiríamos mil vezes a mão que nos ferisse.
Que bem me pode, pois, advir dessa moléstia que me obriga a interromper todos os meus exercícios de piedade? Dirá talvez alguém; que vantagem posso esperar dessa perda de todos os meus bens que me lança no desespero, dessa confusão que me abate a coragem e me traz a perturbação ao espírito? É verdade que esses golpes imprevistos, no momento que ferem, acabrunham às vezes aqueles sobre quem caem, e os põem fora de estado de aproveitar na mesma hora da sua desdita; esperai porém, e logo vereis que é por esse meio que Deus vos dispõe a receber os mais insignes favores. Se não fosse aquele acidente, não vos teríeis tornado mais mau, porém nunca teríeis sido tão santo. E não é verdade que, desde que vos havíeis dado a Deus, ainda vos não tínheis podido resolver a desprezar não sei que glória fundada em algum agrado do corpo, ou qualquer talento do espírito, que vos atraía a estima dos homens? Não é verdade que ainda vos restava algum amor ao jogo, à vaidade, ao luxo? Não é verdade que o desejo de adquirir riquezas, de elevar vossos filhos às honras do mundo, ainda não vos havia abandonado inteiramente? Talvez mesmo que algum apego, alguma amizade pouco espiritual, disputava ainda o vosso coração a Deus? Não vos era preciso mais que aquilo para entrardes numa liberdade perfeita; é pouco, mas afinal ainda não tínheis podido fazer esse sacrifício; a quantas graças, entretanto, esse obstáculo detinha o curso. Era pouco, mas não há nada que custe tanto à alma cristã quanto romper esse derradeiro laço que a prende ao mundo e a si mesma. Não é que nessa situação ela não sinta uma parte da sua enfermidade; mas o só pensamento do remédio a espanta, porque o mal está tão perto do coração que, sem o socorro duma operação violenta e dolorosa, não se pode curá-lo; foi por isto que se tornou mister surpreender-vos, que se fez preciso que uma mão hábil, quando menos o pensáveis, tenha levado o ferro bem a dentro na carne viva, para furar essa úlcera oculta no fundo das entranhas; não fora esse golpe, e o vosso langor duraria ainda. Essa moléstia que vos detém, essa bancarrota que vos arruína, essa afronta que vos cobre de vergonha, a morte daquela pessoa que chorais, todas essas desditas farão em breve aquilo que todas as vossas meditações não terão podido fazer, o que todos os vossos diretores teriam tentado inutilmente.
E, se a adversidade em que estais tiver o efeito que Deus pretende, se vos desgostar inteiramente das criaturas, se vos obrigar a vos dardes sem reserva ao vosso Criador, certo estou que de que lhe dareis mais agradecimentos por aquilo que Ele vos houver infligido, do que lhe oferecestes de votos para desviar a aflição: todos os demais benefícios que haveis recebido Dele, todos esses benefícios comparados àquela desdita não passarão aos vossos olhos de favores ligeiros. Havíeis sempre considerado as bênçãos temporais que até aqui Ele derramara sobre vossa família com os efeitos da sua bondade para convosco; mas então vereis claramente, sentireis no fundo d’alma que Ele nunca vos amou tanto como quando derribou tudo o que tinha feito pela vossa prosperidade, e que, se Ele tinha sido liberal dando-vos riquezas, honra, filhos, saúde, foi pródigo retirando-vos todos esses bens.
Não falo dos méritos que a gente adquire pela paciência; é certo que, geralmente, a gente ganha mais para o céu num dia de adversidade do que durante vários anos passados na alegria, por mais santo o uso que deles se faça; e para acabar de vos dizer francamente o meu pensamento, eu desconfio extremamente de todo bem que fazemos na prosperidade, e não creio que a gente se deva ficar lá muito nas virtudes que nela se praticam.
O grande apóstolo só se glorifica das suas cadeias, dos seus naufrágios e dos injustos suplícios a que o condenaram. Não faz menção alguma nem das suas orações nem das suas pregações apostólicas, porque, nessa espécie de ubras santas, raramente a gente se defende das surpresas do amor próprio sem o socorro de um longo estudo, duma extrema vigilância, duma graça extraordinária.
Todos sabemos que a prosperidade nos amolenta, e muito é quando um homem feliz segundo o mundo se dá o trabalho de pensar no Senhor uma ou duas vezes por dia: as ideias dos bens sensíveis que o rodeiam ocupam-lhe tão agradavelmente o espírito, que ele se esquece facilmente de tudo o mais. A adversidade, ao contrário, só dando por si mesma pensamentos tristes, leva-nos como naturalmente a levantar os olhos para o céu, para amenizar por essa vista a impressão amarga dos nossos males. Sei que se pode glorificar a Deus em toda a sorte de estados, e que a vida dum cristão que o serve numa fortuna risonha, não deixa de lhe fazer honra; bem longe, porém, que esse homem o honre tanto como o homem que o bendiz nos sofrimentos! Pode-se dizer que o primeiro é semelhante a um cortesão assíduo e regular que não abandona o seu príncipe, que o segue ao conselho, que é de todos os seus prazeres, que lhe faz honra a todas as festas; mas que o segundo é como um valente capitão que toma cidades para seu rei, que lhe ganha batalhas através de mil perigos e à custa do seu sangue, que leva bem longe a glória das armas de seu amo e os limites do seu império.
Assim, senhores, um homem que goza de saúde robusta, que possui grandes riquezas, que vive na honra, que tem a estima do mundo, esse homem, se usa como deve das suas vantagens, se as recebe com gratidão, se as refere a Deus que lhes é a fonte, certamente não se pode duvidar de que glorifique seu divino Mestre por um procedimento tão cristão: mas se a Providência o destitui de todos esses bens, se o cobre de dores e de misérias, e se, no meio de tantos males, ele persevera nos mesmos sentimentos, nas mesmas ações de graças, se segue o Senhor com a mesma prontidão, com a mesma docilidade, por uma senda tão difícil, tão oposta às suas inclinações, é então que ele publica a grandeza de Deus e a eficiência da sua graça, da maneira a mais generosa e a mais retumbante.
Daí, cristãos ouvintes, julgai que glória não devem esperar de Jesus Cristo as pessoas que o tiverem glorificado em trilha tão espinhosa; julgai com que aplausos não há de ser recebido no céu um cristão cuja vida não tiver passado de uma série de desventuras, de um exercício contínuo de paciência; um cristão que se apresentar, por assim dizer, coberto de sangue e de feridas, que tiver seguido seu Mestre em todas as suas penosas empresas, que lhe tiver sido o companheiro fiel dos sofrimentos. Será então, cristãos ouvintes, que havemos de reconhecer o quanto Deus nos terá amado dando-nos as ocasiões de merecer recompensa tão abundante; será então que censuraremos a nós mesmos o nos termos queixado daquilo que nos devia aumentar a felicidade, de havermos gemido, de termos suspirado quando tínhamos motivo para nos alegrarmos, de termos duvidado da bondade de Deus, quando Ele nos dava dessa bondade as mais sólidas provas. Se tais devem ser um dia os nossos sentimentos, por que não entrarmos desde hoje em tão feliz disposição? Por que desde esta vida não bendizermos a Deus no meio dos males, pelos quais estou certo de lhe render um dia no céu eternas ações de graças? Por que hei de invejar a sorte dos que vivem na prosperidade, quando eles próprios me invejarão um dia as adversidades que eu tiver padecido?
Santo Agostinho não pode admirar bastante que um senhor tão poderoso como nosso Deus, tão feliz, tão independente das suas criaturas, tenha querido obrigá-las, por um mandamento expresso, a lhe terem amor, isto é, a proporcionarem a si próprias a vantagem maior que possam fruir. Eis aqui, porém, a meu ver, um traço de bondade ainda mais admirável: e é que Ele não se contente de impor aos seus inimigos obrigação tão vantajosa para eles, e os force de alguma sorte a cumprir essa feliz obrigação.
É pela adversidade, cristãos ouvintes, que Ele coage os homens mais perversos a reentrarem nas suas boas graças; e que outra via mais eficaz para os levar a isso? A palavra de Deus, o uso dos sacramentos, as graças comuns podem manter na prática do bem os que se obrigam a eles, mas um homem sobrecarregado do peso dos negócios públicos e domésticos, uma mulher que vive nos prazeres, que é escrava da vaidade, um cristão, numa palavra, que envelheceu na sua impiedade e nas suas desordens, é mister, senhores, é mister que sofra ou que pereça.
Sei o quanto a palavra de Deus é eficaz, sei que ela é mais penetrante do que uma espada de dois gumes; mas todos os dias não vemos senão sobejamente que os homens lhe resistem e que ela não pode atingir até os corações empedernidos. Que não se há dito contra esse luxo espantoso que devora a substância assim dos pobres como dos ricos, contra esse jogo que consome impiedosamente um bem com que se poderia comprar o céu, esse jogo que nos arrebata um tempo que nos fora dado para ganharmos a eternidade? Que se não diz ainda hoje em dia contra esses desregramentos? Ai! Mas que é que produzem os nossos discursos no espírito dos jogadores de profissão, desses que gastam o mais possível em roupas? Uns esquecem-no um momento após, outros só se lembram deles para escarniçá-los; alguns até se ofendem com eles, e creem ter motivo para se queixar do pregador, porque ele disse da parte de Deus o que não podia calar sem trair a própria consciência e sem se tornar réu de perfídia. Que cumpre então faça o Senhor para fazer essas pessoas tornarem ao dever? Não há outro meio senão a indigência; há que reduzi-las à necessidade de trabalhar para fazer subsistir a família, e de revender, para viverem, aquilo que compraram para se enfeitar. Ide falar de oração e de retiro àquela mulher enamorada da própria beleza, tão vaidosa das atenções que se tem com ela no mundo; acreditais que ela seja capaz de apreciar os vossos conselhos ou sequer de ouvi-los? Para salvá-la, faz-se mister que uma moléstia a desfigure, ou que uma esmagadora confusão a faça banir para sempre das companhias.
Que tempo escolhereis para exortar aquele rico, aquele voluptuoso, a se converter? Não está ele disposto a ouvir a palavra de Deus, e muito menos ainda a vos chamar a casa para tomar junto a vós conselhos salutares. E quando o estivesse, como haveria um pensamento santo de encontrar lugar naquele espírito abarrotado dos seus negócios temporais? A própria graça, por insinuante que seja não acha abertura para lhe passar até o coração. Oh! Como há então, ó meu Deus, que desesperar daquela alma? A vossa sabedoria não tem então meio para retirá-la do precipício? O Senhor tem um meio, cristãos ouvintes, e este meio é o que ele se serve sempre para reconduzir os eleitos seus que a prosperidade lhe arrebatou; esse meio é a adversidade, é a perda daquele processo, a morte daquele marido, daquele filho único, uma paralisia, uma gota violenta, uma febre maligna, um langor incurável, uma afronta insigne. Qual será o efeito dessa desgraça? Disporá aqueles homens à compunção por uma dor mortal, dar-lhe-á desgosto dos prazeres com que estava encantado, levá-lo-á a fazer reflexões sobre os desregramentos da sua vida que lhe atraíram a cólera de Deus; sofrerá que a gente de bem se lhe achegue, quando menos para consolá-lo. E como procurará por toda parte remédios para o seu mal, far-lhe-ão conhecer a causa deste, prepará-lo-ão para receber os remédios convenientes à moléstia de sua alma. Enfim, ver-se-á ele felizmente forçado a mudar de vida, ou pela impotência de perseverar no pecado, ou pelo desejo de deter o braço do Onipotente que pesa sobre ele.
Tudo isto nos faz ver suficientemente que, de qualquer modo que vivamos, deveríamos sempre receber a adversidade com alegria. Se somos bons, a adversidade nos purifica e nos faz melhores; enche- nos de virtudes e de méritos; se somos maus, se somos viciosos, ela nos corrige, força-nos a nos tornarmos virtuosos. Se em algum de nós não tem ela este feliz efeito, se há alguém que ela não transforme ou que torne ainda pior, é esse coração endurecido que tem razão de se afligir; essa resistência inflexível é de todos os indícios de reprovação o mais certo e o mais visível. Um cristão que vive mal e que Deus não castiga, deve tremer; e, se lhe resta ainda algum sentimento, deverá fremir; mas um pecador que Deus castiga e que não verga aos seus golpes, pode-se ousadamente arrolá-lo entre os réprobos e desesperar da sua salvação.
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