quinta-feira, 11 de outubro de 2012

"O homem máquina", por Pio XII



 A SALVAÇÃO NÃO PODE VIR UNICAMENTE DA
PRODUÇÃO E DA ORGANIZAÇÃO

Dir-se-ia que a Humanidade de hoje, tendo sabido construir a maravilhosa e complexa máquina do mundo moderno, subjugando em seu serviço forcas ingentes da natureza, se mostra incapaz de lhe dominar o avanço, como aquele que, tendo deixado escapar o leme das mãos, corre o perigo de ser submergido e despedaçado. Essa incapacidade de domínio deveria naturalmente levar os homens, que são vítimas dela, a não esperar a salvação unicamente dos técnicos da produção e da organização. O trabalho destes, só quando unido e orientado para melhorar e fortalecer os verdadeiros valores humanos, poderá contribuir, e notavelmente, para resolver os graves e vastos problemas que angustiam o mundo. Em caso nenhum, porém, conseguirá estabelecer um mundo sem misérias. Quanto desejaríamos que todos se convencessem disso, aquém e além do oceano!

A VIDA SOCIAL NÃO PODE CONSTRUIR-SE À MANEIRA DUMA GIGANTESCA MÁQUINA INDUSTRIAL

Sabe-se aonde se há de ir buscar o tecnicismo para o inserir no pensamento social: nas gigantescas empresas da indústria moderna. Não temos aqui intenção de pronunciar juízo sobre a necessidade, utilidade e inconvenientes de semelhantes formas de produção. Constituem sem dúvida aplicações maravilhosas da potência inventiva e construtiva do espírito humano; são justamente apresentadas à admiração do mundo essas empresas, que, segundo normas maduramente estudadas, conseguem coordenar e englobar, na produção e na administração, a atividade dos homens e das coisas; nenhuma dúvida também que a sua sólida ordem e por vezes a beleza completamente nova e própria das formas externas são motivo de legítimo orgulho para a idade presente. O que, pelo contrário, devemos negar é que elas possam e devam valer, como modelo geral, para conformar e ordenar a moderna vida social.
Antes de tudo, é claro princípio de sabedoria que só há verdadeiro progresso quando se acrescentam novas conquistas às antigas, novos bens aos adquiridos no passado, numa palavra, quando se sabe entesourar experiência. Ora, a História ensina que outras formas de economia nacional têm sempre tido influência positiva em toda a vida social; influência de que aproveitaram não só as instituições essenciais - como a família, o Estado e a propriedade privada - mas também as constituídas em virtude de livre associação. Indicamos, por exemplo, as indiscutíveis vantagens verificadas onde predominava a empresa da agricultura ou dos misteres.
Sem dúvida, também a moderna empresa industrial teve efeitos benéficos; mas o problema, que hoje se apresenta, é este: Um mundo que não reconheça senão a forma econômica dum enorme organismo produtivo, será igualmente capaz de exercer influência benéfica na vida social em geral, e nas três instituições fundamentais em especial? Devemos responder: o caráter impessoal de tal mundo opõe-se à tendência totalmente pessoal daquelas instituições, dadas pelo Criador à sociedade humana. De fato, o matrimônio e a família, o Estado e a propriedade privada tendem, por sua natureza, a formar e desenvolver o homem como pessoa, a protegê-lo e a torná-lo capaz de contribuir, com a sua voluntária colaboração e responsabilidade pessoal, para a conservação e desenvolvimento, também pessoal, da vida social. A sabedoria criadora de Deus fica portanto alheia àquele sistema de unidade impessoal, que atenta contra a pessoa humana, fonte e fim da vida social, imagem de Deus no seu mais íntimo ser.

A "DESPERSONALIZAÇÃO" DO HOMEM MODERNO

Infelizmente não se trata aqui de hipóteses e previsões, pois já se vê na prática esta triste realidade: onde a mania da organização invade e tiraniza o espírito humano, manifestam-se logo os sinais da falsa e anormal orientação do desenvolvimento social. - Em não poucos países, o Estado moderno vai-se tornando gigantesca máquina administrativa. Estende a sua intervenção a quase toda a vida: quer tornar matéria da sua administração toda a gama dos setores políticos, econômico, social e intelectual, até o nascimento e a morte. Neste clima do impessoal, que tende a penetrar e a envolver toda a vida, não é portanto nada de maravilhar que o sentido do bem comum desapareça da consciência dos indivíduos, e o Estado perca cada vez mais o primordial caráter duma comunidade moral de cidadãos.

EFEITOS DO MULTÍPLICE DESCONHECIMENTO DA PESSOA HUMANA

Quem tenha ainda dúvidas sobre tal estado de coisas, olhe para o populoso mundo da miséria e pergunte a tão variadas categorias de indigentes que respostas lhes costuma dar a sociedade, disposta como está a desconhecer a pessoa. Pergunte-se ao indigente vulgar, falto de qualquer recurso, que não raras vezes se encontra nas cidades, nas vilas e nos campos; pergunte-se ao pai de família necessitado, frequentador assíduo dos centros de assistência social, e cujos filhos não podem esperar por longínquos e vagos prazos duma idade de ouro sempre para vir. Pergunte-se também a um povo inteiro em nível de vida inferior ou bastante baixo, que - tomando lugar na família das nações ao lado de irmãos que vivem na suficiência ou até na abundância - espera em vão, duma Conferência Internacional para outra, qualquer melhoramento estável da própria sorte.
Qual é a resposta que muitas vezes dá a sociedade hodierna ao desempregado que se apresenta na agência de emprego, predisposto já por hábito, quem sabe, a nova desilusão, mas ainda não resignado ao imerecido destino de se julgar um ser inútil? E qual é a resposta que se dá ao povo que, por mais que faça e se esforce, não consegue libertar-se das garras atrofiantes do desemprego em massa?
A todos estes já de longa data se repete incessantemente que o seu caso não pode ser tratado pessoal e individualmente, que a solução deve ser encontrada numa regulamentação que se há de estabelecer, num sistema que abrangerá tudo, e que, sem prejuízo essencial da liberdade, conduzirá homens e coisas a uma crescente e mais coesa forca de ação, resultante de maior utilização do progresso técnico. Quando se realizar tal sistema - assim se afirma - surgirá automaticamente a solução para todos: um nível de vida em constante ascensão e o emprego geral em toda parte.
Estamos longe de pensar que o contínuo adiamento para uma futura e poderosa organização de homens e coisas seja expediente mesquinho de quem não quer prestar socorro. Julgamos pelo contrário que se trata de firme e sincera promessa, capaz de excitar confiança. Entretanto, não se vê sobre que sólidos fundamentos possa apoiar-se tal promessa, uma vez que as experiências realizadas até agora conduzem antes ao cepticismo a respeito de sistemas como esse. Este cepticismo é, além disso, justificado por uma espécie de círculo fechado, em que o fim estabelecido e o método adotado correm um após outro sem jamais se encontrar nem harmonizar. Realmente onde se quer assegurar a ocupação de todos, com a contínua elevação do nível de vida, tem-se motivo para perguntar ansiosamente até que ponto ele se poderá elevar sem provocar uma catástrofe, e sobretudo sem ocasionar a desocupação em massa. Parece deste modo que se deve procurar o mais alto grau possível de emprego, mas procurando ao mesmo tempo assegurar a sua estabilidade.
Nenhuma confiança pode portanto iluminar tal panorama, dominado pelo espectro daquela insolúvel contradição, nem se fugirá nunca das suas malhas se se continua a contar apenas com o elemento da mais alta produtividade. É mister considerar os conceitos de nível de vida e emprego de mão de obra não como fatores puramente quantitativos, mas como valores humanos no pleno sentido da palavra.
Quem, portanto, quer prestar auxílio às necessidades dos indivíduos e dos povos não pode esperar a salvação dum sistema impessoal de homens e coisas, mesmo poderosamente desenvolvido sob o aspecto técnico. Todo plano ou programa deve ser inspirado pelo princípio de que o homem - como sujeito, guarda e promotor dos valores humanos - está acima das coisas e mesmo acima das aplicações do progresso técnico e que importa sobretudo preservar de uma nefasta "despersonalização" as formas fundamentais da ordem social mencionadas, e utilizá-las para criar e desenvolver as relações humanas. Se as forças sociais forem dirigidas para esse fim, não só realizarão uma natural função sua, mas trarão valiosa contribuição ao provimento das necessidades atuais, porque lhes compete a missão de promover a perfeita solidariedade recíproca dos homens e dos povos.

A SOLIDARIEDADE RECÍPROCA DOS HOMENS E DOS POVOS

É sobre a base desta solidariedade, e não sobre sistemas vãos e instáveis, que Nós convidamos os homens a edificar a sociedade. Aquela exige que desapareçam as desigualdades clamorosas e irritantes no nível de vida dos diversos grupos de um povo. Na consecução desse objetivo, prefira-se à coação externa a ação eficaz da consciência, que saberá impor limites às despesas de luxo e impelirá igualmente os menos ricos a cuidar antes de tudo do necessário e útil, e a economizar o restante, quando o houver.
A solidariedade dos homens entre si exige, não somente em nome do sentimento fraterno mas também da própria conveniência recíproca, utilizar todas as possibilidades na conservação dos empregos existentes e na criação doutros novos. Por isso, aqueles que são capazes de aplicar capitais considerem à luz do bem comum, se poderão conciliar com a sua consciência pô-los de lado com vã cautela, deixando de fazer tais investimentos desoportuno. Por outro lado, procedem contra a consciência aqueles que, usufruindo egoisticamente os próprios empregos, impedem que outros encontrem trabalho, permanecendo assim desocupados. E quando a iniciativa privada se mostra inoperante ou insuficiente, os poderes públicos são obrigados a proporcionar, na maior medida possível, meios de trabalho, empreendendo obras de utilidade geral, e a facilitar, com a orientação e outros auxílios, a colocação dos que procuram trabalho.
O nosso convite para tornar eficaz este sentimento e esta obrigação de solidariedade estende-se também aos povos como tais: cada povo, no concernente ao nível de vida e à ocupação da mão de obra, desenvolva as suas possibilidades e contribua para o progresso correspondente de outros povos menos favorecidos. Se bem que ainda a mais perfeita realização da solidariedade internacional dificilmente possa conseguir a igualdade absoluta dos povos, urge todavia que ela seja praticada ao menos em medida tal que chegue a modificar sensivelmente as condições atuais, que estão bem longe de representar uma proporção harmoniosa. Noutros termos, a solidariedade dos povos exige a cessação das enormes diferenças no nível de vida e simultaneamente nos investimentos e no grau de produtividade do trabalho humano. Esse resultado não se obterá mediante uma regulamentação mecânica. A sociedade humana não é uma máquina, nem pode tornar-se tal, mesmo no campo econômico. Ao contrário, é preciso ter sempre em conta a contribuição da pessoa humana e da individualidade dos povos, como base natural e primordial, de que será sempre necessário partir para chegar ao fim da economia pública, isto é, para assegurar a suficiência permanente de bens e serviços materiais, ordenados por sua vez a melhorar as condições morais, culturais e religiosas. Esta solidariedade e a desejada melhor proporção de vida e de trabalho deveriam portanto efetuar-se nas várias regiões, mesmo relativamente grandes, onde a natureza e o desenvolvimento histórico dos povos interessados mais facilmente podem oferecer para isso uma base comum.
As dificuldades econômicas não são todavia as únicas que sofre o homem na sociedade atual. Muitas vezes surgem, em conexão com elas, dificuldades de consciência, sobretudo para o cristão preocupado em viver segundo os ditames da lei natural e divina. A consciência, a que se deveria confiar em grande parte o remédio e a salvação, vê-se assim condenada a íntimas torturas pelos propugnadores da concepção impessoal da sociedade. É talvez este o ponto extremo a que chega o homem, no seu esforço de remediar os males, quando se afasta do divino modelo (1).

(1) Alocução ao Sacro Colégio, 24 de dezembro, 1952. 

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos. 
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