domingo, 14 de outubro de 2012

O Deus desprezado

Padre Júlio Maria,  C.SS.R.
O Deus desprezado, ano de edição 1932.


 Convençamo-nos os padres: não conseguiremos santificar os fiéis, converter os ímpios, regenerar as paróquias, exaltar o catolicismo no Brasil sem que o povo veja em nós amor efetivo a Jesus Cristo.
Santo Afonso Maria de Ligório, homem que não só pelas suas virtudes, como também pelos seus talentos de teólogo e escritor, Soberanos Pontífices declararam suscitado por Deus para a regeneração de uma época, não julgava possível aos seus missionários a conversão das almas sem o amor do Santíssimo Sacramento, cuja devoção, que lhes tornou obrigatória, diz ele, de todas a mais agradável a Deus, a mais abundante em frutos, a mais prática em resultados. 
Não há uma só congregação, das que se destinam a salvação das almas pelo ensino e pregação, na qual o culto do Santíssimo Sacramento não seja considerado o meio eficacíssimo de dar ao seu apostolado zelo, fervor e unção.
Como pode nas nossas paróquias o clero secular, desarmado do recolhimento, da mortificação, das penitências, que fortificam os religiosos; e lhes são muito fáceis, levar a efeito a grande obra da salvação das almas sem o poderoso e soberano auxílio desse culto, de que os religiosos julgam não poder prescindir?!
Pergunta Faber: "Não é verdade que a alegria espiritual, o espírito de adoração, a simplicidade e o gosto da vida oculta são assim grandes necessidades da vida cristã em geral e especialmente eclesiástica? Pois estas graças brotam do culto do Santíssimo Sacramento como as mais belas flores do altar.”
Interpretai o conceito do grande teólogo; e compreendereis a sua extensão. Não é verdade que a tristeza, o zelo amargo, o espírito do mundo, a vaidade e a dissipação são os maiores obstáculos que temos de vencer se queremos corresponder à grandeza da nossa vocação?
Ora, com que Mestre poderemos aprender melhor a alegria espiritual, a doçura, o discernimento da profanidade, a humildade e o recolhimento do que com Jesus Cristo?
E onde Jesus Cristo nos aparece mais no apogeu da doçura, da renunciação do mundo do abatimento e da vida oculta do que no Santíssimo Sacramento?!
É impossível sairmos de diante do Tabernáculo, onde vemos Jesus Cristo, por amor, reduzido a mais completa pobreza; humilhado até a forma de um simples elemento, sem o desejo, quando mais não seja, de sermos menos ambiciosos, mais mortificados, menos cheios de vaidade e amor próprio?
O amor próprio, diz um mestre da espiritualidade, é o opróbrio, a vergonha, o cativeiro, a minoria, o ar corrompido da vida espiritual.
Ora, onde o nosso amor próprio pode encontrar melhor, exemplo, de mortificação do que nesse abatimento, nessa abjeção de Jesus Cristo Sacramentado?
Que magníficos insultos ao nosso orgulho!
Que eloquentes exprobrações às nossas suscetibilidades.
Que nítido espelho o Santíssimo Sacramento para todos nós mirarmos bem as rugas do nosso rosto sacerdotal!
Quando mesmo não fosse dever rigoroso do padre conviver o mais possível com o Santíssimo Sacramento; nunca o padre deverá renunciar tão fecundo meio de santificação; ele deverá ter sempre presente esta máxima de um santo: "o grande obstáculo ao progresso espiritual é não fazermos senão o que é de preceito, ou o que não ofende a Deus, abstendo-nos de tudo que podemos omitir sem pecado."
Que máxima! Quem na vida espiritual vive indagando a exata medida de suas obrigações para só dar a Deus aquilo que não Lhe pode recusar sem pecado está de fato bem inclinado a pecar.
Que fluido tão sutil e facilmente evaporável a espiritualidade! Ninguém melhor o sabe do que o padre, acostumado pela própria experiência vê-la tão fortemente combatida por tudo que o cerca.
Inclinado por tantas influências do mundo exterior a facilmente dissipar-se, é lhe preciso, compreende-se, um ímã que a todo o instante a retenha e concentre. Todos os santos nos ensinam onde podemos encontrar este ímã. A oração mental, a leitura ascética, a mortificação do espírito ou do corpo são, sem dúvida, remédios para tão triste enfermidade da vida espiritual; mas o específico, dizem os santos, -  só o tato, a convivência com Jesus Cristo, não na ação transitória dos seus outros sacramentos, mas nesse que nos coloca face a face com Ele, no convívio da amizade que consola, na intimidade do colóquio que instrui, no aconchego das confidências que consola os pesares e esclarece as dúvidas.
Oh! o Santíssimo Sacramento é a devoção imprescindível do padre. O cristão que o despreza é o viandante imprudente que se lança nos atalhos sem o guia que conhece a estrada; mas o padre que o despreza é o naufrago temerário que recusa a tábua no oceano onde se debate contra as ondas e a tempestade!
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