terça-feira, 22 de outubro de 2013

Exercícios Espirituais para Crianças - PARTE SEGUNDA (Via iluminativa) - II. O NASCIMENTO DE CRISTO

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.
Fr. Manuel Sancho, 
Exercícios Espirituais para Crianças
1955
PARTE SEGUNDA A Imitação de Cristo
(Via iluminativa)


II. O NASCIMENTO DE CRISTO

Os Presépios. — 2. O Nascimento de Cristo. — 3. Grandeza do Menino Deus, e por que Ele Se veste da nossa carne. — 4. Contemplação da Virgem e de S. José. — 5. O amor à humildade e pobreza, fruto desta consideração. — 6. Caso curioso que se passou numa Missa do Galo.

1. — Em tempos de Natal veem-se Presépios magníficos. Há-os com fontes, lagos, prados de musgo, bosquezinhos diminutos. Nos tanques de vidro nadam patos, cada um tão grande como meio tanque; e há galinhas junto a umas choupanas, e pastores e vaquinhas e carneiros diminutos; moinhos de vento, rios, pontes, aldeiazinhas, montanhas de cortiça... Pelos caminhozinhos brancos de areia caminham pastores e pastoras com muitos presentes para o Menino. Mas o principal de tudo é uma gruta dentro de um portal, e no mais profundo da gruta, num berço de palha, está o divino Menino; Sua Mãe de um lado, e S. José, com sua vara florida, do outro; aquecendo-o com o seu bafo, o boi e a mula, e uma turba de anjos voando pelo ar... Ao longe fazem fundo umas montanhas cinzentas; por cima um céu vermelho acinzentado; trepando montanhas acima e serpenteando, veredas como fitas brancas. Veem-se umas barcas com suas velas num mar distante e... acabou-se o Presépio.


Há uma variedade de Presépios para todos os gostos, e, apesar das suas ingênuas impropriedades, todos se parecem no fato de em nenhum deles faltar o Nascimento do Menino, e haver em todos montanhas e encostas e sítios fragosos. Pois bem: com isto e com o que os Evangelhos nos contam, vamos reconstruir a história do Nascimento do Salvador do mundo.

2. — Pelas montanhas da Judéia caminham S. José e a Virgem. Vêm da Sua casinha de Nazaré, que está muito longe, e acorrem a Belém para o recenseamento que César Augusto quer fazer de todo o Império Romano. A Virgem vai montada numa jumenta, S. José faz de peão e de guarda. O caminho é péssimo. Quebradas, gargantas, desfiladeiros, tudo eles atravessam com fadiga. Quando os força o cansaço, eles descansam ao abrigo de uma rocha ou de uma brenha; depois continuam o penoso caminho. S. José acode solícito a remediar as necessidades e incômodos de sua Esposa, quase menina então.

Chegam a Jerusalém; depois a Belém. Fatigados, procuram abrigo; ninguém os socorre, e em Belém, cheia de forasteiros que acorrem à pequena cidade com o mesmo objetivo que eles, não acham pousada. Achá- la-iam se fossem ricos, mas não têm uns mi­seráveis dinheiros, e então as pessoas os desprezam. Os próprios parentes encolhem os ombros. A Virgem sorri resignada; S. José suspira. Varão justo! Se fosse por ti aquele desprezo e desamparo, não suspirarias; mas é por Ela, é por tua puríssima Esposa, flor delicada do Saron, é pela futura Mãe de Deus. O rosto de S. José anuvia-se, mas umas palavras da Virgem o asserenam. Meus filhos, acompanhai com o pensamento e com o vosso afeto os nossos dois viandantes, e consolai-os e dizei-lhes que os amais. Assim a Virgem vos sorrirá como a S. José, e o santo Esposo de Maria far-vos-á uma carícia como só ele sabe fazê-las.

Finalmente os castos esposos têm de passar a noite num estábulo perto de Belém, lugar próprio para os animais, mas não para as pessoas. Suponde que aquele estábulo fosse como os demais. As cadeiras para se sentar seriam algumas pedras; para dormir, um monte de palhas e de erva, se a havia; por tapetes e cortinas, teias de aranha poeirentas; por todo resguardo das intempéries, quatro más paredes com grandes fendas por onde coava sibilante o vento gelado. O teto, de penha dura; por um buraco via-se a abóbada do firmamento, onde tremeluziam as estrelas, parecendo tiritar de frio.

Então nasceu o Filho de Deus, ali, naquele presépio. Os céus destilaram mel e doçura, a terra estremeceu de alegria; os anjos cantaram aleluia... Mas naquele cantinho só se via um Menino nu sobre umas palhas, sua Mãe que O beijava, S. José que O adorava, e o boi e a mula ajoelhados, aquecendo-O com seu fôlego. Que gente de bem esse boi e essa mula! Tinham mais entendimento do que muitas pessoas.

Deus não queria que Seu Filho, nascendo vestido da nossa carne, estivesse tão abandonado, e enviou uma porção de anjos para Lhe celebrarem o Nascimento. E eis que da abóbada azulada se desprendem mil alados mensageiros, músicos uns, cantores outros, e descem sobre o Presépio de Belém, e entoam uma sinfonia digna de ouvir-se! Tocavam e cantavam assim: “Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens de boa vontade”. E, no silêncio da noite, os vales ecoavam e os penhascos repercutiam desse canto, e o eco, subindo aos céus, dizia:

Glória! Glória! Glória!

Alguns anjos avisaram os pastores que pernoitavam por aquelas cercanias. Acorre ao Presépio aquela gente simples, um com a sua gaita, outro com o seu pandeiro, outro com a sua guitarra, e as pastoras com cestinhas e presentes, como nos Presépios, e à música dos anjos mistura-se a algazarra dos pastores, e multiplicam-se os aleluias e os cânticos. Os pastores adoram o Infinito, chorando, beijando-lhe os pés, e S. José e a Virgem sorriem de contentamento. Nem tu­do haviam de ser tristezas, oh não! e por isso o céu e a terra se uniram e alegraram o Presépio onde nasceu o Rei do Céu.

Contemplai como por seus anjos Deus avisa os pastores, gente simples, para que vão adorar o recém-nascido, e não avisa os fariseus e os príncipes dos sacerdotes, por soberbos. E é que Deus ama a humildade e aborrece a soberba. Também avisou mais tarde os Reis Magos, que eram ricos, porém pobres pelo coração e simples como os pastores. Olhai com que alegria zagais e rabadães e maiorais, todos misturados, adoram o divino Infante.

Agora, meus filhos, misturai-vos entre os pastores, aproximai-vos, pela consideração, do divino Menino, e adorai-O também. Beijai-Lhe os pés, depois as rótulas dos joelhos, depois o rosto. Pedi à Virgem que vo-lO empreste um pouquinho, e, com Ele nos vossos braços, dizei-lhe:

Que é isto, meu Jesus? Que nova loucura é esta? Tu, meu Deus, que tens pendente de um dedo a redondeza da terra, tu o Infinito, assim reduzido a este invólucro de uns membrozinhos róseos? Dizes que o amor a mim te trouxe à terra! Obrigado, meu Deus, obrigado! Ó membros divinos, quero cobrir-vos de beijos, porque sois os membros do meu amado, Jesus, que desde agora sereis meus membros! Ó rosto celestial, que copias a beleza do céu, rosto de neve e de rosa, deixa-me juntá-lo ao meu rosto de criança, como Tu, ó Menino de minha vida! Ó dulcíssimos lábios que ainda têm duas gotinhas de leite virginal, não sou digno de beijar-vos, mas pede-mo o amor! Favo de mel pela doçura, tesouro de amor por consolarem e encherem o coração sedento!... Ó meu Jesus! meu Jesus!

Entremos, ó filhos de minha alma, em tão saborosas considerações e, se não acertardes a dizer ao Menino palavras de amor e agradecimento, aproximai-vos da Mãe e pedi-Lhe que vo-las ponha no coração, pois Ela entende muito disto.

3. — Para mover-vos ao amor de Deus e à imitação do Menino nas virtudes que Ele nos ensina do presépio, cátedra de humildade, considerai quem é aquele Menino e por que é que Se veste da nossa carne.
Havia uma vez uma ilhota abominável, árida, desnuda, açoitada pelas ondas no meio do oceano. Eram, enfim, uns arrecifes, e entre eles havia fundos precipícios e muito pouca terra onde poder pousar o pé. Naquela horrível ilhota havia, expulsos da sua nação por incorrigíveis, uns tantos criminosos, doentes, raivando desesperados, cheios de pus no corpo e na alma. Por toda roupa usavam farrapos. Os ruídos da ilhota estavam em harmonia com os seus míseros habitantes: fora, as ondas que rebentavam contra os alcantis; dentro, os gritos desesperados daqueles infelizes.

Um bom dia, porém, o filho do Rei, compadecido daquela gente, vestiu-se dos farrapos deles, mas não do seu pus, e, numa barquinha bela e branca, como uma gaivota, conduzida por um bom timoneiro, arribou à praia da ilhota. Saltou em terra, rodearam-no os bandidos, e o Príncipe lhes disse:
Venho para voo consolar e curar; venho para vos redimir e vos restituir ao meu reino, que perdestes — infelizes! — por cul­pa vossa. Trar-vos-ei de novo ao meu reino na minha barquinha conduzida pelo meu timoneiro.

Imaginai o júbilo que irromperia na ilhota, imaginai com que extremos de alegria não receberiam o Príncipe aqueles infelizes!

O Príncipe é o Filho de Deus feito homem, o Menino Jesus; os farrapos de que se veste são a nossa carne, que Ele faz sua carne; a barquinha é a Virgem Maria, por meio da qual hemos de ir para o céu; o barqueiro é o bendito S. José que é um timoneiro excelente. Sereis tão loucos que não beijeis comovidos os pés do Menino Jesus, que é o nosso Príncipe? tão ingratos que não lhe deis as graças mais profundas?

Olhai-o. Vestido dos andrajos da nossa carne, ainda se vislumbram nos seus olhos claros, mais belos do que os de sua mãe, centelhas da sua divina formosura. De rosto risonho, Ele parece dizer: “Vinde a mim, que sou amor e misericórdia”. Através desse mísero envoltório, que nem por miserável deixa de ser a preciosa carne de um Deus, contemplai a divindade escondida, vede-lhe a grandeza, e sobretudo os extremos da sua misericórdia, e, afundada a fronte no pó do estábulo, mais abaixo ainda do que o boi e a mula, que nunca pecaram, dizei-lhe:

Somos pecadores, meu Deus, mas perdoai-nos, pois desde agora seguiremos a trilha que a vossa Humanidade bendita começa a marcar-nos. Começais humildemente, Rei da Glória: pela trilha da humildade vos seguiremos.

Proponde-vos esta virtude necessária, co­meço insubstituível de toda santidade.

Mas, por que razão o Príncipe do céu se vestirá da nossa carne?

Se Ele tivesse alguma obrigação para conosco, se nos devesse alguma coisa, se o homem o houvesse servido e amado como Ele merece, compreende-se que, por gratidão, para corresponder ao nosso amor, o Rei do céu se chegasse a nós, e mesmo então a sua condescendência, ao rebaixar-se assim, seria imerecida de nossa parte. Mas o homem era nem mais nem menos como os bandidos execráveis da ilhota, criminoso, cheio de lepra. Todavia o Rei do céu veste-se da sua carne e quer tirá-lo da lepra do pecado. Por quê? Ouvi-o bem, meus filhos, ouvi-o para que o vosso coração só pulse por Jesus. Só por nosso amor Ele desceu ao mundo e nasceu Menino pequeno, do seio da Santa Virgem Maria.

Se amor com amor se paga, como pagaremos o amor que Cristo nos teve fazendo-se Menino, ocultando a sua grandeza infinita? Como sucede que cada dia Ele se tome ainda mais pequeno na Eucaristia? Pensai no amor daquele Príncipe ao chegar vestido de farrapos à ilha dos arrecifes, e depois comparai-o com o amor do Filho de Deus, muito maior, tão maior quanto dista da altura infinita de Deus à altura de um Príncipe da terra, que, este, é um nada.

Assim como o príncipe da parábola entra na ilhota para salvar os seus criminosos ha­bitantes, assim também Cristo nasce da Vir­gem Maria para nos salvar do pecado e nos levar ao céu. Quando uma criança se afoga no mar, um marujo denodado lança-se à água e salva a criança de uma morte certa. Que agradecimento não há de ter a criança para com o seu heróico salvador? Pois mui­to mais faz Cristo para nos salvar, em nascendo de uma Virgem. Adorai-o de novo por tamanha misericórdia.

Considerai agora o que faz o Menino-Deus deitado nas palhas. Ã vista exterior, Ele faz o que fazem os outros recém-nascidos; chora mais do que ri. Seus membros delicados sentem o frio da noite; seu corpinho estremece. Os pastores que o adoram não fariam tal se os anjos não lhes houvessem assegurado ser aquele o Messias prometido. Sua Mãe e S. José penetram mais fundo, e o adoram e o amam. Os anjos fazem outro tanto. Sem embargo, interiormente, na al­ma do Menino desenrola-se uma vida mara­vilhosa. Com ela Ele goza da visão de Deus; com sua alma, ama sua Mãe extraordinaria­mente, depois S. José, depois todos nós. Ao mesmo tempo, padece voluntariamente, por­que obedece a seu Pai Celestial. Inicia a sua carreira neste mundo amando a todos, per­doando aos que o ofenderam e ofendem, an­siando por salvar todos os homens pelos quais desceu do céu à terra. Ali, no presépio, começa a sua obra de redenção do gênero humano. No fundo do seu coração Ele se lembra de todos e de cada um de vós, e vos ama e quer que sejais santos, pagando-lhe amor com amor.

Considerai-o assim, e procurai mover o vosso coração para com o vosso amiguinho Jesus, e imitar as virtudes que no presépio Ele vos ensina.

Tudo isto Ele o faz enquanto homem, pois enquanto Deus Ele é o Verbo divino feito carne, Deus onipotente, criador de todas as coisas, revestido da natureza humana porque nasceu para nos salvar. Contemplai-o assim, e, se o vosso coração não se move ao seu amor, é que não meditastes bem este mistério.

4. — Ao contemplardes o Menino, não vos esqueçais da Mãe, que também é nossa Mãe. Olhai o que Ela faz assim que nasce o divino Infante. Deixa-o desnudo sobre as palhas e, enquanto os mansos animais o aquecem com seu fôlego, Ela o adora de joelhos, São José faz outro tanto, e os dois choram de alegria. Depois a Virgem envolve em panos seu Filho. Eu vi o cueiro que se conserva numa das nossas catedrais como preciosa relíquia, e é um pano grosseiro, como estamenha ou coisa que o valha. Com isso envolveu a Virgem o recém-nascido. Mas não tinha Ela outro pano melhor para envolvê-lo, já que não tinha sedas ou flanelas, pano de linho suave, algodão felpudo sequer?... Nada, não tinha nada a pobre Mãe, tinha só aquele pano pobrezinho. Que pobreza! Que desamparo!

O Menino era inteligente, porque era Deus, compreendia tudo e sentia tudo, e, embora se alegrasse no seu coração, porque começava a sua carreira no mundo para nos remir, em todo caso sentiu a aspereza do cueiro e a crueza da noite, e derramou as primeiras lágrimas. Se os vossos olhos se humedecessem de compaixão porque o vosso companheiro Jesus assim padece, eu daria por bem empregada a minha explicação. Vede como a Virgem se dói daquele desamparo, e enxuga as lágrimas de seu Filho com beijos quentes de amor materno. Eu penso que S. José, a quem, exceto sua Esposa, ninguém ganha em bondade, teria tirado o seu manto e teria dito:

O Menino não há de passar frio, embora eu me enregele.

E teria feito uma espécie de mantilha e nela teria metido provisoriamente Jesus, e assim a coisa ter-se-ia ido compondo.

Agora, pela consideração, juntai-vos à Virgem e pedi-lhe que vos faça sentir algo do muito e do grande que Ela sentia; que anelos maternais satisfeitos! que impulsos de amor como nenhuma criatura sentiu! que união aos primeiros sofrimentos do Menino pelos homens!

Os meninos bons, quando sua mamãe sofre ou ri, eles sofrem ou riem com ela. Pois juntai-vos à alegria da Virgem e também ao seu sofrimento, e dizei-lhe:

Senhora, somos tão obtusos de entendimento e escassos de vontade, que o boi e a mula poderiam dar-nos lição. Mas tu, minha Mãe, põe um pouco de tua parte, para que no nosso entendimento penetre um raio da luz com que contemplavas aquele mistério, e para que o nosso coração receba do teu coração maternal um pouco daquele fogo de amor que naquela bendita noite o consumia.

5. — Como Cristo baixou ao mundo para nos remir e para nos dar exemplo, e como, nestas exortações da Via iluminativa que agora seguimos, consideramos os exemplos que Cristo nos deu, para imitá-los, reparai em que o fruto desta contemplação do Nascimento do Menino Deus é a humildade em primeiro e depois a pobreza. De ambas estas virtudes Ele nos dá exemplo.

Quem era o Menino Jesus? Era o Filho de Deus, era infinito, alcandorado no mais alto dos céus, gozando à direita do Pai. Sem embargo, para nos dar exemplo de humildade, Ele desce do alto sólio que ocupava ao seio de uma donzelinha e, vestido de um corpo pequeno, nasce num estábulo. Num estábulo o Rei do céu! Pequenino aquele que enche tudo! Já ponderastes bem o que isto significa? Significa que, para nos ver humildes, Deus se faz humilde; que, para dissipar os fumos da nossa soberba, Ele nasce desta maneira, como nem sequer nasce o filho de um mendigo. Vamos a ver qual é o menino que, em vista deste inconcebível exemplo de humildade, se atreve a ser orgulhoso, a julgar-se superior aos seus companheiros e a desprezá-los. Vamos a ver qual é a menina que se preza de linda e de que a louvem e distingam. Oh, filhos, que mal faríeis em serdes vaidosos e soberbos, depois de considerardes a humildade que nos mostra Cristo no seu Nascimento!

Em segundo lugar, Cristo no Seu nascimento dá-nos exemplo de extrema pobreza. Qual é o infante que, logo ao nascer, não é envolvido em panos suaves? O pano de Cristo foi uma xerga grosseira. Ele não tem casa onde nascer, e nasce num estábulo; não tem berço, e nasce numa manjedoura. Quando vós os meninos cansais vossa mamãe pedindo-lhe que vos compre uma roupa nova, pensai em Cristo nascendo tão pobremente; quando ambicionais riquezas, lembrai-vos de Jesus pobre e desnudo; e quando a vós, meninas, vos tentar a vaidade do vestido e de quatro cintos ou enfeites, lembrai-vos de Jesus pobre e desamparado.

Luisinha meditou muito bem o Nascimento de Jesus em Belém, e sentiu a pobreza d’Ele. Volta para casa cheia de bons propósitos de imitar Jesus pobrezinho.

Justamente sua mamãe acaba de lhe fazer um vestidinho precioso; ele fica otimamente em Luisinha, mas também fica bem numa sua irmã. Luisinha lembra-se do Menino Jesus pobre e nuzinho em Belém, e diz a sua mamãe, mas não sem antes abafar um suspiro:

Fique este vestido para minha irmã; eu me contento com o que estou usando.

Sua mamãe sorri compreendendo, e dá o vestido à irmãzinha. O anjo também sorri, e dá um beijo na fronte de Luisinha.

Essa menina fez bem a sua meditação do Nascimento de Cristo, porque tirou fruto dela, que imediatamente pôs em prática. Desejo que também vós tireis esse fruto desta meditação. Imitai o Menino Jesus pobre, tende afeição à pobreza, procurai a veste humilde, não fujais do pobre, pensai que como tal Cristo nasceu, chamai ao mendigo irmão e, junto com a esmola material, dai-lhe a esmola espiritual do vosso sorriso e consolo. Oh! os pobres também têm coração e são irmãos prediletos de Jesus!

Uma vez, já sendo S. Raimundo Nonato cardeal da Santa Igreja, um pobre pediu-lhe esmola. O santo não trazia um centavo, porque dava tudo. O pobre tinha a cabeça descoberta, e fazia um vento frio que cortava como uma navalha. O santo tira o seu chapéu de cardeal e dá-lo ao mendigo, para com ele cobrir a cabeça, e continua rumo ao convento das Mercês, sua casa, de cabeça descoberta.

Logo se põe em oração e, arroubado em êxtase, vê achegar-se dele a Rainha do Céu com um luzido cortejo de Virgens; estas tecem entre si uma grinalda de flores, e a Virgem Maria coroa com ela o santo, dizendo:

És digno de que aquele que cobriu a cabeça do pobre com seu chapéu seja coroado com esta grinalda[1].

Assim premia Deus os que socorrem o po­bre e amam a pobreza de que Ele nos deu o exemplo.

6. — Para terminar, quero contar-vos um lindo caso que se passou com uma menina muito amante do Menino Jesus.

A menina estava como pensionista num colégio de Paris. Era a noite de Natal, e no colégio celebravam a Missa do Galo.

Como era muito pequena, a menina não podia assistir à Missa do Galo. Em compensação, haviam-lhe dito que indo dormir, ela ouviria da sua cama uma missa branca, bem branca!

Missa branca! — dizia ela consigo. — Para que quero eu missa branca? Quero é a outra em que nasce o Menino Jesus.

As pequenas foram dormir. A nossa menina fingiu dormir na sua caminha, mas, apenas ficou sozinha no dormitório, levantou-se e vestiu-se com tento, e de pontinha de pés foi à igreja.

Não havia ninguém no templo, que dava para a rua, porque ainda não era meia-noite. Para que não a vissem, a menina meteu-se num confessionário, esperando pelo Nascimento do Menino Jesus. Num altar havia um presépio, mas o berço de palhas estava vazio: sem dúvida as religiosas estavam vestindo o Menino.

A menina achou natural que o Menino Jesus não estivesse no presépio. Claro! Ele tinha de nascer à meia-noite... Então Ele viria.

Dentro em pouco entrou uma mulher na igreja: trazia um menino nos braços. Era uma pobre mulher sem teto nem abrigo: procurava um abrigo para o filhinho e, vendo a igreja aberta e o berço do Menino Jesus vazio, aproveitou a conjuntura e deixou no berço o seu menino, ao amparo da Providência, e saiu da igreja chorando.

A colegial pensou que, como já se aproximava a meia-noite, aquela mulher era a Virgem Maria, e seu filhinho o Menino Jesus.

Aproxima-se do berço, toca no rostinho do menino, que chorava, e diz-lhe:

Por que estás chorando, meu Jesus? Tua Mãe te deixou sozinho? Coitadinho! Estás com fome, e quem te dará de mamar? Cala-te, que eu te vou trazer leite da cozinha.

A menina foi voando à cozinha. Ante o estranho pedido da menina, de que queria leite para o Menino Jesus, as freiras puseram-se a rir; mas logo viram que efetivamente havia um menino vivo no presépio.

As religiosas recolheram-no; convencida dolorosamente de que o recém-nascido não era o Menino Jesus, a menina quis ser a protetora dele. Fê-lo batizar e pôs-lhe o nome de Manuel. Com licença dos seus pais, que eram muito ricos, recebeu-o em sua casa, eles lhe deram educação, e mais tarde ele entrou num seminário e fez-se sacerdote, que rogou sempre pela sua protetora[2].

Estais vendo, meus filhos, o amor que a colegialzinha tinha ao Menino Jesus, e como Ele lho premiou.

Em conclusão, aprendei deste Exercício um grande amor a Jesus Menino, pois Ele vos teve um amor imenso nascendo num presépio. Imitai-o na pobreza e humildade, e, pedindo à Virgem estas virtudes, rezai-lhe comigo três Ave-Marias.

Notas:
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[1] Fr. Manuel Sancho, Vida de S. Raimundo Nonato.
[2] Malinjoud: Catecismo da Infância.
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