sexta-feira, 2 de setembro de 2011

VI. Como a Igreja põe diante de nossos olhos as dores da Santa Virgem

Nota do blogue: Segue a sexta parte do livro Ao pé da Cruz ou As Dores de Maria escrito pelo piedoso Padre Frederick William Faber, acompanhe o ESPECIAL AQUI.

VI
Como a Igreja põe diante de nossos olhos
as dores da Santa Virgem



            Tal é a idéia geral que podemos nos fazer das dores de Maria. A Igreja as põe diante de nossos olhos como uma parte do Evangelho, como um dos fatos do Evangelho, e como um objeto de devoção especial. Em seu Diário de Maria, Marchese relata uma antiga tradição que faz remontar aos tempos apostólicos a devoção às dores da Santa Virgem. Alguns anos depois da morte de Maria, enquanto São João Evangelista chorava ainda Sua perda e a demora por Lha tornar a rever, Nosso Senhor apareceu-lhe numa visão, acompanhado de Sua Mãe. As dores de Maria e Suas visitas freqüentes aos santos lugares da Paixão, eram naturalmente um objeto de piedosa meditação para o Evangelista, que havia velado sobre os quinze últimos anos da vida da Santa Virgem. E, como conseqüência dessas contínuas meditações, ele se lembrou de pedir a Jesus que concedesse algum favor especial àqueles que trouxessem em sua memória a lembrança das dores que Ela havia suportado. Nosso Senhor respondeu que concederia quatro graças particulares àqueles que praticassem essa devoção. A primeira seria uma contrição perfeita de todos os seus pecados, algum tempo antes da morte; a segunda, uma proteção particular na hora da morte; a terceira consistiria em que teriam os mistérios da Paixão gravados profundamente em seu espírito; enfim, a quarta seria uma eficácia particular das preces de Maria em favor deles. [Notre-Seigneur répondit qu’il accorderait quatre grâces particulares à tous ceux qui pratiqueraient cette dévotion. La première serait une contrition parfaite de tous leurs péchés, quelque temps avant leur mort; la seconde, une protection particulière à l’heure de la mort; la troisième consisterait en ce qu’ils auraient les mystères de la Passion gravés profondément dans leur esprit; enfin, la quatrième serait une eficacité particulière accordée aux prières de Marie en leur faveur.] No sétimo livro de sua revelações, Santa Brígida que ela teve, na igreja de Santa Maria Maior, em Roma, uma visão que lhe mostrou o imenso valor atribuído no Céu às dores de Maria. Já à bem-aventurada Benvenuta, dominicana, foi concedido experimentar em sua alma a dor que sofreu a Santa Virgem durante os três dias de ausência de Jesus [no Templo, aos 12 anos]. A bem-aventurada Verônica de Binasco teve, no que se refere a essa devoção [às sete dores], várias revelações, em uma das quais, como o contam os Bolandistas, Nosso Senhor lhe disse que as lágrimas vertidas sobre as dores de Sua Mãe Lhe eram mais agradáveis até que as derramadas por Sua própria Paixão. Também, em sua História dos Servitas, Gianius conta que, quando Inocêncio IV foi elevado à cátedra apostólica, ele sentiu-se algo alarmado com o surgimento da ordem nova dos Servos de Maria.

Naquela época, a Igreja sofria com várias seitas cheias de imposturas, como aquela dos Pobres de Lião, a dos que se diziam Homens Apostólicos, a dos Flagelantes e a dos discípulos de Guilherme do Santo Amor, e o papa queria se assegurar se os Servitas, recentemente estabelecidos perto de Florença, não seriam algo do mesmo gênero. Encarregou, pois, o cardeal dominicano Pedro de Verona, mártir e santo depois ele mesmo, de examinar o caso. A Santa Virgem apareceu então a este religioso, em uma visão. Ele viu uma montanha elevada, coberta de flores, iluminada por uma viva luz, e ao cimo da qual estava a Mãe de Deus sentada sobre um trono, enquanto que os anjos seguravam-Lhe ao redor guirlandas de flores. Estes apresentaram-Lhe em seguida sete lírios duma extrema brancura, que Ela segurou por um instante sobre Seu seio, trançando-os depois em forma de grinalda e pondo-os sobre Sua testa. Esses sete lírios, segundo a explicação dEla mesma ao cardeal Pedro, significavam os sete fundadores dos Servitas, aos quais Ela mesma inspirado o pensamento de instituir uma nova ordem, em honra das dores por Ela padecidas na Paixão e Morte de Jesus. Refiramos ainda que um dia Santa Catarina de Bolonha chorava amargamente sobre as dores da Santa Virgem, quando ela viu ao seu redor sete anjos que choravam também, misturando suas lágrimas às dela. Seria fácil, enfim, encher um volume com as visões e revelações referentes às dores de Maria. O leitor as encontrará em abundância sobretudo em dois livros fáceis de encontrar: o Diário de Maria, de Marchese, e o Martírio do Coração de Maria, de Sinichalchi; o primeiro desses escritores era oratoriano, o segundo, jesuíta.

            Essa devoção recebeu da Igreja a mais alta aprovação, pois foi por esta colocada no Missal e no Breviário. Duas festas distintas estão estabelecidas em honra das dores de Maria: uma cai em Setembro, e a outra na sexta-feira da semana da Paixão [isto é, aquela que antecede o Domingo de Ramos]. A Coroa das Sete Dores e várias outras práticas afins, foram enriquecidas com indulgências abundantes. Entre essas práticas podemos mencionar o hino Stabat Mater, o passar uma hora, em qualquer época do ano, em meditação sobre as referidas dores, um exercício em honra do Coração Doloroso de Maria, e as sete Ave-Marias, unidas à jaculatória Sancta Mater, istud agas*; além de um outro exercício nos últimos dez dias do Carnaval, e uma hora ou meia-hora de oração na Sexta-Feira Santa ou nas outras sextas-feiras do ano. Nada falta, portanto, para a santificação dessa devoção, e a Igreja não há omitido meio algum para a ela convidar seus filhos.
[* “Fazei, Santa Mãe, com que as Chagas de Cristo se gravem profundamente em meu peito”.]

A Igreja, todavia, escolhe particularmente sete das dores de Maria para nossa devoção mais especial. Ela as faz entrar no Ofício Divino e com elas forma os sete mistérios da Coroa das Sete Dores. São: a profecia de São Simeão, a fuga para o Egito, os três dias de ausência, o encontro com Jesus carregando a Cruz, a Crucificação, a descida da Cruz e a sepultura de Jesus. Dessa forma, dividindo-as duma certa maneira, três dessas dores se referem à infância de Nosso Senhor, e quatro à Sua Paixão. Ou então, uma cobre toda Sua vida, duas a Sua infância e quatro a Sua Paixão. Ou ainda, uma delas nos põe diante dos olhos os trinta e três anos da vida do Salvador, duas concernem a Jesus infante, duas a Jesus padecente, e duas a Jesus morto. Essas sete dores são, portanto, modelos misteriosos das outras dores tão numerosas de Maria, e podemos dizer que são como que tipos de todas as dores humanas possíveis. Nossos sete capítulos seguintes terão como objeto essas sete dores, uma a uma, empregando, na investigação sobre elas, nosso mesmo método simples e fácil. Cada dor apresentará quatro pontos à nossa consideração: primeiramente, suas circunstâncias; segundo, suas particularidades; terceiro, as disposições nas quais a Santa Virgem se encontrava; e quarto, as lições que daí podemos tirar. Um nono capítulo será acrescentado sobre a Compaixão de Maria, a fim de explicar a relação que existe entre a Paixão e a Compaixão e de reconhecer se a Compaixão teve alguma parte na redenção do mundo, fazendo, assim, compreender o verdadeiro sentido da expressão extraordinária de Co-Redentora, e outras semelhantes, que encontramos em autores recomendáveis que escreveram sobre as grandezas de Maria.

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(Próximo subtítulo a ser traduzido: “Espírito da devoção às dores da Santa Virgem”)

PS.: Grifos meus.                           
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