sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pe. Leonel Franca X J.J.Rousseau

Pe. Leonel Franca X J.J.Rousseau



"A teoria de Rousseau é uma antítese do dogma cristão"

Encontramos aqui, pela frente, um dos erros modernos mais funestos à pedagogia; é o erro da bondade ingênita, natural do homem. Vós lhe conheceis o autor, um desequilibrado genial e malfazejo que muito foi influenciado pela atmosfera social que respirou - o século XVIII - e mais funestamente ainda influiu na sociedade que se lhe seguiu - o século XIX; um homem que escreveu um tratado célebre da educação, ele, filho que desamparou o próprio pai, ele, pai que atirou os próprios filhos numa casa de expostos, sem nunca lhes haver murmurado ao ouvido o nome de sua mãe; vós já lhe pronunciastes o nome: J.J.Rousseau.

Segundo as suas teorias expostas no Émile, o homem nasce naturalmente bom; na criança encontram-se, sem mescla de tendências más, os germes de todas as virtudes; instintivamente a sua alma procura o bem, como a planta o sol.

Deixai que se desenvolvam espontâneamente estes germes felizes, deixa que cresçam, como as plantas selvagens, sem o benefício da poda, em toda a força expansiva e indomada de sua exuberância nativa, e tereis o homem naturalmente e por si mesmo forte, bom e virtuoso.

A teoria de Rousseau é uma antítese do dogma cristão.

Todo o cristianismo - Redenção, isto é, regeneração e reabilitação do homem por Cristo - descansa sobre a verdade histórica de uma decadência original da nossa raça ( Deus não criara o homem tal qual nasce hoje sob os nossos olhos, isto é, sujeiro ao erro, ao vício, à miséria e à morte) e do pecado do primeiro homem a introduzir a desarmonia no plano divino.

Criatura, isto é, por essência depedente, o homem devia, pela submissão livre de sua vontade, gravitar em torno de Deus, como os planetas ao redor do sol. O pecado foi a revolta contra esta ordem essencial e, portanto, necessária e imutável.

A esta desordem introduzida pela culpa nas relações com Deus, corresponde como a pena outra desordem introduzida no interior do homem. rompeu-se o equilíbrio harmônico da sua integridade primitiva: revoltaram-se contra a razão as paixões, e entre o homem superior e o homem inferior, entre a parte espiritual do nosso ser e a parte animal e material inaugurou-se esta luta épica, mãe de tantas lágrimas, que enche a história da humanidade, também ocasião dolorosa da ignomínia de todas as misérias e teatro da grandeza dos nossos heroísmos.

A grandeza moral do homem, antes fruto espontâneo da nossa natureza, passou a ser a conquista gloriosa e penosa de uma vida de esforços e lutas. Eis a verdadeira história da humanidade, consignada na primeira página dos nossos livros Sagrados.

... Ora estes estigmas de uma decadência não os adquirimos na idade madura, trazemo-los desde o berço e já na infância se lhe observam as primeiras manifestações.

Quantas vezes não surpreendemos as mãozinhas ainda inofensivas da criança crisparem-se nervosas num gesto mal esboçado de egoísmo impotente! Quantas vezes nos olhinhos cândidos, suavemente iluminados pelos reflexos da inocência, não relampejam chispas que profetizam cóleras futuras!

Desta triste verdade sobre a natureza humana, não menos evidentemente afirmada pela fé do que atestada pela experiência, derivam para a educação conseqüências de uma gravidade extrema. Não se obtém a unidade e a paz interior da nossa perfeição humana deixando que se desenvolvam desordenamente todos os instintos e tendências que dormem no fundo da natureza.

Há uma hierarquia essencial nas nossas faculdades que importa respeitar, mas respeitar livremente. A harmonia, o equilíbrio sadio que condiciona a nossa felicidade não é fruto espontâneo, é uma conquista laboriosa.

Desde o alvorecer da consciência, a criança já se deve habituar a vencer a si mesma, a assegurar o domínio da vontade sobre as paixões, da razão sobre os instintos, da reflexão sobre a impetuosidadedos primeiros impulsos; numa palavra, deve aprender a governar-se, subordinando o que é inferior ao que é superior, introduzindo a ordem na anarquia das suas tendências, hierquizando, sob o cetro firme de uma vontade iluminada pela razão, a multiplicidade dispersiva e inerente a todos os princípios internos da atividade.

(A formação da personalidade - Pe. Leonel Franca - págs.23-24)
PS: Grifos meus
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