sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Amor crucificado

Amor crucificado

O caráter divino do Amor de Jesus está em ser um Amor cruciado e cruciante.
(Primeira parte)


"A cruz é o fogo que purifica a alma
 e a embebe fortemente na virtude.
É a espada com que conquistamos a nossa liberdade
em relação às criaturas
e que nos exonera de toda dependência ou escravidão humana.
É o campo de batalha do amor divino,
 o altar do sacrifício, a maior glória de Deus."
 
O Amor de Jesus é cruciado

O Amor de Jesus, querendo mostrar-me toda a Sua grandeza bem como toda a Sua ternura para comigo, levou-O a crucificar-Se... Jesus me dá pessoalmente os Seus sofrimentos em prova desse Amor. "Entrego a minha alma à morte de mim mesmo..."(Jo 10,18), "Ninguém pode amar mais do que dar a sua vida pelos seus amigos" (Jo 15,13).

"Jesus Cristo, disse São Paulo, amou-me e entregou-Se à morte por mim" (Gl 2,20).

Ah, qual belo é o Amor de Jesus que nasce num mísero estábulo e é deitado na palha, numa manjedoura rústica. "Ó meu bem amado, exclama São Bernardo, quanto mais Vos contemplo pobre e miserável, tanto mais Vos amo e estimo!".

Quão terno é o Amor de Jesus, pobre operário, trabalhando com as mãos para ganhar o Seu pão, o de Sua Mãe Santíssima e o de São José.

Quão grande, sublime e arrebatador é o Amor de Jesus, prostrado no Jardim das Oliveiras, triste, desolado, agonizante, para depois triunfar de todas as angústias, de todas as dores e deste modo operar a minha salvação!

Quão belo é o Amor de Jesus por entre os escarros, as bofetadas, as zombarias da soldadesca ímpia de Caifás, de Anás, de Herodes, de Pilatos!

Como, porém, considerar o esplendor desse Rei de Amor, levando a Sua Nobre Cruz, crucificado entre dois celerados, amaldiçoado pelos homens, abandonado por Deus? E tudo isto por amor a mim!

Ó Amor, sim, inclinai Vossa Cabeça, deitai sobre mim os Vossos olhos moribundos e morrei dizendo-me: "Tudo está consumado!"

O amor de Jesus é cruciante

- Crucifica o homem velho, o homem dos sentidos, da cobiça, da concupiscência. Crucifica-o na Cruz de Jesus a fim de, ligando-o pelos laços de amor, fazer dele um homem novo.

Não é o grito primeiro do Amor de Jesus, ao encontrar-Se por entre os homens: "Fazei penitência, que o Reino de Deus está próximo"? (Mt 3,2). Exige de quem o quiser seguir como discípulo "que renuncie a si mesmo e carregue diariamente a cruz ao seu exemplo" (Lc 9,23).

Eis por que São Paulo nos indica como  a marca segura do verdadeiro discípulo do Salvador o "cingir-se de sua mortificação" (2 Cor 4,10). Acrescentando que quem pertence a Jesus Cristo, "crucifica a sua carne com suas paixões" (Gl 5,24).

Assim é que o amor de Jesus deve crucificar em mim o pecado cometido; o foco do pecado é a concupiscência; o instrumento do pecado que são os sentidos.

- Crucifica o homem justo e santo para que se assemelhe cada vez mais ao Mestre querido. Crucifica o mesmo no seu amor, para que mais se aproxime de Jesus crucificado, mais a Ele se una.

Crucifica-o nas suas Graças, pois toda Graça vem do Calvário e lhe reveste o caráter e a vida.

O Amor de Jesus crucifica ainda no próprio Tabor do amor, já que o sofrimento, o sacrifício, numa palavra a cruz, é o laço que prende o cristão a Jesus Cristo, prova única e real do seu amor para com o seu Deus.

O amor do coração fiel, da alma abrasada, sente necessidade de sofrer para que se possa consolar e se animar e assim suprir aquilo que quisera dizer e fazer de grande pelo seu Salvador. E quando o amor sofre, é-lhe alívio exclamar com toda sinceridade: "Meu Deus, eu Vos amo!..."

(Segunda parte)

O amor faz participar do estado da pessoa amada. - Meu amor para com Jesus deve, pois, ser como era o seu Amor para comigo, um amor crucificante e um amor crucificado.

Amor crucificante

- Jesus crucificou-Se. A mim também cabe crucificar-me com o meu Salvador pela expiação dos meus pecados passados - cada qual segundo sua natureza; meu orgulho, pela Sua profunda humildade; minha vaidade, pelo Seu desprezo dos homens sagazes e doutos, grandes e pequenos; meu amor-próprio, pelo abandono em que todos O deixaram; minha suscetibilidade pela grosseria e falta de polidez da parte dos Seus discipulos.

Jesus humilhou-Se até revestir a forma de escravo, de leproso, do amaldiçoado de Deus e dos homens, do verme, pisado e repisado.

- Jesus expiou minha sensualidade pela penitência de Sua Vida. Uma alimentação parca, um leito duro, como a terra, uma mísera casa sem ornato, eis Sua Vida de todo dia.

A pobreza fá-Lo sofrer até que abrace a Cruz em que vai expiar os pecados de cada um dos seus membros culpados. Atam-Lhe os pés para depois pregá-los e assim expiar os meus passos culpados. Atam-Lhe as mãos para depois pregá-las, a fim de expiar minha vaidade, minhas delicadezas, todos os pecados cometidos pelas mãos.

Põem-Lhe na testa sagrada a coroa de espinhos a fim de expiar essas coroas de rosas, de vaidade, de orgulho que a minha testa soube trazer.

Seus olhos, jorrando Sangue, choram os meus maus olhares.
Seus lábios guardam o silêncio do Cordeiro a fim de expiar minhas palavras indignas.
Suas faces são esbofeteadas por mãos sujas e impuras, a fim de purificar as minhas.
Todo o Seu Corpo é flagelado, coberto de chagas. E essas chagas, acrescidas do Sangue que delas corre, formam-Lhe toda a vestimenta na Cruz. Eis como Jesus expia minha sensualidade.

- Jesus expiou os meus pecados de cobiça, de ambição, de previdência que desconfia da Providência de Deus.

Nada possui e nada quer possuir. Vive da caridade dos seus discípulos. É este o sacrifício máximo do amor; não ter apego a mais nada, saber confiar só em Deus e abandonar-se ao mistério da sua Providência.

Amor crucificado

A cruz é alimento bem como a prova do amor divino.
A cruz caminha ao lado da santidade da alma, seguindo-lhe os passos, a natureza, as Graças.

A alma que ama na verdade, ama, portanto a cruz. Se amasse a Jesus pelo gozo, ou para o gozo, do seu amor, da sua paz, da sua felicidade, seu amor seria tão imperfeito quanto o amor-próprio que o soube inspirar.

É marca das grandes almas amar pela cruz e pelas diversas mortes que o amor pede. E, coisa admirável, Deus encontrou o segredo de fazer sofrer a alma até por entre as maiores Graças e na mais perfeita contemplação de sua Bondade.

Alma alguma jamais gozará de Deus como gozou a Alma humana de Jesus e todavia alma alguma jamais sofrerá como ela sofreu: "A Vida de Jesus, diz a Imitação, foi uma cruz, uma martírio perpétuo" (L.2, c.12, v.7).

A cruz é o fogo que purifica a alma e a embebe fortemente na virtude. É a espada com que conquistamos a nossa liberdade em relação às criaturas e que nos exonera de toda dependência ou escravidão humana. É o campo de batalha do amor divino, o altar do sacrifício, a maior glória de Deus.

Ó cruz de amor, adoro-te levando a Jesus Cristo!
Vem! Que eu te beije, te leve, te coroe. Tu serás a minha vida de amor.

(A Divina Eucaristia - Volume III - São Pedro Julião Eymard)
PS: Grifos meus
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