terça-feira, 25 de outubro de 2011

Prática da Simplicidade na Família

Prática da Simplicidade na Família
por
Monsenhor de Gibergues
(Livro: A Simplicidade segundo o Evangelho - 
Instruções para às senhoras e às jovens - 1945)


Não é menos admirável a alma simples em suas relações com o próximo. 

No seio da família, a jovem simples vê nos pais os representantes de Deus e é surpreendente o respeito, a afeição e a confiança que lhes tributa. 

Aceita de boa vontade a autoridade natural do pai e da mãe. Não ignora que lhes deve ser reconhecida por todos os benefícios com que a cumulam e inclina-se diante de seu saber e sua experiência. Nenhuma dessas considerações elevadas e legítimas lhe é estranha. 

Na vontade e nas ordens dos pais, vê, acima de tudo, a autoridade de Deus e é principalmente por Deus e por amor a Ele que cumpre seus deveres de filha

Se percebe imperfeições ou defeitos no pai ou na mãe, e se até vícios se ostentam diante dela, desvia o olhar, como os dois filhos de Noé, e atira o manto da majestade divina sobre a falta, a miséria ou a vergonha, para conservar sempre e apesar de tudo inviolável e sagrado o respeito àqueles que lhe deram a vida. 

As mães desejam, com razão, que as filhas nelas tenham confiança, pois a confiança se baseia na estima, no carinho, no abandono, na expansão dos sentimentos. É a síntese de todas as qualidades que deve ter uma filha para com a mãe.

Ora, se as jovens forem simples, de certo serão confiantes; a menos que - e oxalá que tal não aconteça - a mãe se torne absolutamente indigna dessa confiança.

A simplicidade dá à jovem todo o seu encanto e a plenitude das graças que Deus lhe destinou: ao contrário, a falta de simplicidade a derruba de seu pedestal e faz com que perca a auréola e os atrativos.

Observai esta jovem! Está triste e sombria, sorri pouco e com amargura. Magoa-se por nada, é excessivamente suscetível. Exaspera-se à mais leve admoestação. Desconfia de todos, julga-se incompreendida, e não percebe que é incompreensível. Absorve-se em termináveis devaneios. É egoísta, frívola, personalista e vaidosa; não conhece o respeito, a submissão ou o devotamento; é desagradável a todos: o mau humor é seu estado normal.

A quê atribuir esse conjunto de defeitos, que lhe tiram a espontaneidade, a alegria e a graça próprias de sua idade, e a transforma em uma carga e uma cruz para aqueles com quem vive? Qual a razão do mal? A falta de simplicidade.

Em vez de olhar a Deus e nEle buscar sua inspiração, vê apenas a si mesma.

Habitualmente, baseia os sentimentos, o coração, e a vida em contínua e mesquinha preocupação de si mesma, que lhe torna o caráter tão insuportável quanto sua pessoa.

Contemplai agora a jovem simples. Que contraste! 

Esquece-se por completo de si para só ver a Deus, o próximo e o dever. Ignora o mal, que nem sequer lhe tocou a alma inocente e pura.

A continua preocupação em tornar-se útil aos outros ou em evitar-lhes a menor contrariedade; a amabilidade risonha, a dedicação tão solícita quão discreta, a serenidade da alma expansiva, a limpidez do olhar e a pureza de atitudes que nos faz lembrar os anjos: a nobreza dos sentimentos, a elevação do pensamento que arrebata e transfigura: eis os graciosos adornos de que se reveste a jovem simples. Em sua alma de cristal reflete-se a imagem de Deus, como o sol nas águas puras e tranqüilas de um lindo lago. Ilumina, aquece e encoraja todos, os que dela se aproximam. Dá-lhes como que a presciência do céu, porque traz o céu no coração. Que doçura, que tranqüilidade para os pais! Que modelo, que auxílio para os irmãos! que tesouro para a família! Que espetáculo para os Anjos! 

Ó mães, a maior graça que deveis pedir para vossas filhas, e que para elas será a fonte de todas as virtudes, é a simplicidade

A esposa que é simples vê Deus em seu marido. Os sentimentos que naturalmente lhe dedica são ainda fortalecidos e realçados pelo pensamento de que, a seu lado, o marido representa o próprio Deus e exerce sua autoridade. Por conseguinte, é mais profundo o seu respeito, maior a sua confiança, mais intenso o seu carinho, mais perseverante o seu amor, mais solícita a sua dedicação, mais inviolável a sua fidelidade. 

Como aconselha o Evangelho, sua simplicidade da pomba alia-se de modo admirável à prudência da serpente. 

Confia plenamente em seu marido, apesar de sabê-lo fraco; protege-o e defende-o contra as seduções do mundo, em vez de expô-lo sem necessidade, afastando-o com delicadeza e vigilância do perigo das familiaridades excessivas, e nunca deixando de acompanhá-lo aos lugares onde haja tentações.

Não ignora que a ela pertence a responsabilidade espiritual e moral de auxiliá-lo a melhor conhecer, amar e servir a Deus. Esta idéia anima-a em seus sentimentos e deveres e impede sua afeição de enfraquecer ou desviar-se.

Permanece afeiçoada ao marido, e os anos só podem aumentar-lhe o indefectível amor. Ama-o, entretanto, sem fraqueza; ama-o para torná-lo melhor; deseja-lhe o verdadeiro bem, o bem da alma, que coloca acima e antes de tudo, não hesitando, se preciso, em preferi-lo à própria felicidade neste mundo. É a companheira virtuosa, a amiga santa, a mulher "forte" por excelência, mulier bona. Como diz a Escritura, é um "tesouro" e "nela confia o coração de seu marido."

A mãe que é simples é a verdadeira educadora. Não consistirá a finalidade da educação em tornar as crianças simples, isto é, em habituá-las a agir para Deus?

Como é falsa e como acarreta resultados deploráveis a educação em que se dá contínua relevância ao amor próprio, ao prazer, à recompensa imediata, ao interesse e a tantos outros objetivos puramente humanos, que podem levar a criança a um esforço passageiro, mas que nunca lhe darão sólidos e profundos hábitos de virtude!

Que acontecerá às almas que não forem vigorosamente formadas no temor e no amor de Deus, quando despertarem as paixões, quando aparecerem às ocasiões perigosas, quando se apresentarem os exemplos e as atrações do mundo, as pérfidas seduções ou os deveres difíceis? Serão vítimas fáceis do vício e do pecado. Só as almas educadas sob o olhar de Deus, as consciências fixas em Deus, os caracteres formados na grande escola evangélica da simplicidade poderão enfrentar as tempestades da vida neste mundo, e, no meio de tantos escolhos, alcançar, sem se despedaçar, a bem-aventurada eternidade

A simplicidade é a alavanca da educação. Sem ela nenhuma séria formação moral poderia existir. Eis o que é por demais esquecido; eis por que, tantas vezes, a educação só conduz à ruína; eis por que tantos rapazes e moças fazem chorar as mães; eis por que vemos tantas quedas, escândalos, lares destruídos e almas torturadas! 

Se, ao despertar do entendimento, a mãe soubesse imprimir Deus no espírito e no coração do filho; se lhe falasse de Deus, como seria seu dever; se lhe fizesse compreender, desde a mais tenra idade, a única coisa necessária; se conseguisse que, para ele, o maior castigo fosse ouvir estas palavras: meu filho, ofendeste a Deus! bastante cedo, a criança se tornaria homem, tendo a consciência viril, ou melhor, divinizada. Quando chegasse à idade das grandes tentações e dos terríveis combates, o cristão de há muito formado não trairia o seu Deus, ou, se acaso se deixasse um momento dominar por alguma fraqueza, se inesperadamente cedesse a um assalto mais temível, a uma sedução mais poderosa, como Pedro, após o olhar de Jesus voltaria logo a Deus e, com profunda dor, resgataria a sua falta com generosidade ilimitada. 

Ó mães, se quereis que vossos filhos sejam um dia vossa alegria e a alegria de Deus, sede simples e fazei-os simples! A simplicidade é a armadura com que Deus presenteia as almas que deseja tornar invencíveis. Mas, às mães compete revestir-se a si e aos filhos com esta armadura!

PS.: Grifos meus.
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