quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Deus desprezado

O Deus desprezado

"Por ti prisioneiro de amor
Eu me ofereço aqui noite e dia
Chorando diante de Deus meu Pai
E pedindo por tua miséria"

Não se pode ser verdadeiramente católico ignorando ou desprezando o Santíssimo Sacramento; deixando-se de lhe prestar, não as reverências incidentais, inconscientes, banais, que se lhe dispensa, quando por outros motivos é-se atraído à Igreja, mas o culto de adoração, distinto, definido, principal que todo católico lhe deve como ao Deus da Igreja.

Todo o dogma cristão, como nos ensina a teologia, se resume no mistério da Encarnação; e Eucaristia não é senão a renovação perpétua, a aplicação pessoal a cada um de nós do delicioso mistério de amor que nos resgatou. Pela Encarnação Deus uniu-Se à nossa espécie; pela Eucaristia une-Se a cada indivíduo. Pela Encarnação contraiu um verdadeiro parentesco com a nossa natureza; pela Eucaristia um verdadeiro parentesco com cada um de nós.

Como a Providência não é senão a ação do Deus Criador estendida, aplicada, particularizada a cada cristão que pela comunhão eucarística apropria-se da natureza, da carne, do sangue, das satisfações e dos próprios méritos do seu Redentor.

Mas que significação pode ter na Igreja a própria comunhão eucarística, o mais sublime ato de amor que um homem possa praticar, se o culto do Santíssimo Sacramento é ignorado ou desprezado?!

É no Santíssimo Sacramento que Jesus Cristo perpetua a Sua existência na terra por um modo de vida tão real, tão substancial como o primeiro. O Santíssimo Sacramento não é só um dom de Jesus Cristo é Jesus Cristo mesmo operando tudo na Igreja, e onde, portanto nada tem valor se Ele não é ouvido, respeitado, obedecido e amado.

Igreja e Eucaristia são inseparáveis: catolicismo e Santíssimo Sacramento são uma só verdade.

Todos benefícios que nos dá a Igreja emanam do seu máximo privilégio: a pose real de Jesus Cristo.

O católico não é filho de Deus e irmão de Jesus Cristo senão porque pode verdadeiramente dizer com um grande místico: "Jesus é meu; Jesus me pertence. Ele está à minha disposição, e me dá tudo que da Sua pessoa posso receber. Os Seus méritos são tão meus como dEle; as Suas satisfações são tesouros mais meus que Seus; os sacrifícios são outros tantos meios que Ele engendrou para comunicar-Se à minha alma; o Santíssimo Sacramento é o mistério que Ele inventou para viver comigo. O Seu amor fez tudo por mim; mas Ele quer que eu concentre em Si todas as minhas afeições."

Tudo isto é belo, sublime, digno de um Deus; mas como tudo isto pode ser real sem culto ao Santíssimo Sacramento?!

O culto do Santíssimo Sacramento é a devoção total, completa, com desprezo da qual todas as outras não são mais que satélites privados da luz que lhes empresta o respectivo planeta.

Sim; a Eucaristia é o astro central em torno do qual gravitam todas as devoções da Igreja, das quais nenhuma tem beleza verdadeira nem proveito real se não tira do Santíssimo Sacramento um reflexo, ao menos, que lhe dê o calor da piedade. Em coisa alguma, diz o autor do "Precioso Sangue", a beleza da Igreja se nos mostra mais sedutora. nem as suas revelações mais profundamente divinas do que na variedade de suas devoções, que ela funda, desenvolve, ostenta progressivamente com a liberdade de uma árvore que estende os seus ramos. Mas, por mais livre que pareça a Igreja, uma unidade profunda, uma lei superior oculta-se sob todas essas diversidades do Culto; a lei teológica que em todas as devoções da Igreja manifesta-lhe a vida interior.

A vida interior da Igreja reside em Jesus Cristo real, presente sob os véus eucarísticos. A Igreja é uma criação de Jesus Cristo dentro da Sua própria criação. O mundo é a Sua criação como Criador, a Igreja Sua criação como Redentor.

A Igreja não é somente uma cópia das coisas divinas, é a vida divina mesma de Jesus, que dela fez a Sua residência, encobriu os esplendores da Sua glória e ocultou-Se no mistério do Santíssimo Sacramento. É em Jesus que se encerram, é Jesus  que combina todas as devoções.

O culto de Jesus Cristo, é, portanto, a grande, a primeira, substancial devoção. A adoração do Santíssimo Sacramento - eis o dever de todo católico, que não o cumpre, diz o ilustre padre Faber, só com o ato de ouvir missa, ou mesmo com o ato de comungar; porque o que se estende por devoção ao Santíssimo Sacramento não é a assistência ao santo Sacrifício da missa, nem a comunhão eucarística, mas a visita, a adoração de Jesus Cristo na Sua vida sacramental no Tabernáculo.

Que privilégio o do católico: ter Deus sempre corporalmente na terra, em habitação facilmente acessível, a cujas portas não encontra, como nos palácios dos grandes, lacaios aos quais a etiqueta só permite que nos dêem entrada após longas esperas! Poder visitar ao Rei dos céus e da terra mais facilmente do que aos fidalgos do mundo! Não lhe mandar Ele nunca dizer que não pode recebê-lo; que está doente ou ocupado! Poder, sempre que lhe apraz, estar com Deus - objeto de seu culto, companheiro de seu exílio, confidente das suas mágoas, conselheiro dos seus negócios, depositário dos seus desejos! ... Ser católico e não conhecer ou desprezar este privilégio, oh! que desventura!...

(Excertos do livro O Deus desprezado por Padre Julio Maria dos Redentoristas)

PS.: Grifos meus.
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