sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Passio Domini Nostri Jesu Christi

Passio Domini Nostri Jesu Christi



É fácil imaginar a raiva com que viu Pilatos a populaça reclamando de novo a sua interferência. Não podendo decidir-se, nem pela condenação, nem pela absolvição, o Procônsul tem uma idéia genial, verdadeiramente estupenda, se não fora uma infâmia revoltante. Declara, ainda uma vez, que Jesus é inocente, e o manda flagelar, na tola persuasão de aplacar as iras de uma multidão sedenta de sangue! ... 

Ora, a sentença de morte era a conseqüência lógica da flagelação, que a costumava preceder. Assim, pois, rasgadas as carnes do acusado, no mais desumano dos suplícios, julgaram-se os soldados romanos autorizados aos maiores excessos e vilanias.

Rolando para o átrio um troço de coluna, que se perpétua sob o nome de coluna dos impropérios obrigam o Divino Mestre a sentar-Se nessa pedra fria - fria como um coração empedernido. Lançam-Lhe sobre os ombros nus um trapo de púrpura e, formando uma coroa de junco entretecida de agudos espinhos - tão agudos e penetrantes que, segundo velhos autores, podiam perfurar uma sola de sapato, - ornam-Lhe a cabeça com esse diadema de escárnio, ajeitado à forma de capacete, para que a tortura Lhe fosse mais intensa e mais ridículo o Seu aspecto. 

Se considerarmos que o cérebro é precisamente a sede de todo o sistema nervoso, teremos uma idéia da repercussão do sofrimento em todo o corpo da vítima, manifestada em espasmos dolorosos e horríveis contorções. Então se realizaram as palavras do profeta: - Tornou-se um sábio na dor e no sofrimento. Virum dolorum et scientem infirmitatem. Não tinha mais figura de homem: era um punhado de carne dilacerada, era uma coisa inominável. Vidimus eum et non erat aspectus...

Por último, colocam-Lhe nas mãos, amarradas em cruz, uma cana verde por cetro, completando assim a irrisória entronização. Os soldados aplaudem, chasqueiam do rei burlesco e impotente, organizam, por entre apupos e gargalhadas, uma solene desfilada e, dobrando os joelhos ante o Bom Jesus que os suporta sem um único lamento, proclamam a sua realeza - Viva o Rei dos Judeus! Ave Rex Judaeorum

E Ele é Rei - Rei ungido em Seu próprio sangue, Rei universal dos vivos e dos mortos, Rei das nossas almas, Rei do nosso amor e da nossa fé. Saudemo-lO. Ave Rex Judaeorum! E porque Ele é Rei, vejamos de passagem o valor e o sentido das Suas insígnias reais. 

Primeiramente os espinhos. Depois da falta original, disse Deus a Adão que a terra, maldita por sua causa, só produziria cardos e espinhos. Ora, essa maldição caiu em cheio sobre o coração humano que, desde então, estéril para a virtude, - só produziu espinhos de pecado. A cabeça do Cristo, segundo Theofilacto, é a Sua divindade, e Jesus recebe sobre a cabeça uma coroa dos pecados, para embotar a esses espinhos a ponta acerada que nos punge. 

O trapo de púrpura que Lhe cobre os ombros é o símbolo da escandalosa vermelhidão do pecado. Vendo-O coberto de uma veste de opróbrio, pergunta o profeta Isaias: - Senhor, por que estão assim vermelhas as tuas vestes? Quare rubrum est indumentum tuum? E o Senhor lhe responde: - Aspergiram sobre Mim o sangue dos homens. Eis porque estão manchadas as Minhas vestes. Arpersus est sanguis eorum super vestimenta mea.

Ora, no seio do eterno Pai, nos esplendores dos santos, o Verbo eterno tinha por vestimenta a claridade da Sua glória divina: - Amictus lumine sicut vestimento. No alto do Tabor, Jesus suspende, por instantes, o véu que ocultava a Sua divindade, e se deixa ver, resplandecente como o sol, com vestes de alvura deslumbrante como a neve: - Vestimenta ejus facta sunt alba sicut nix.

Agora que tem sobre os ombros os pecados dos homens, consente que O despojem da túnica branca que, por irrisão, Lhe dera Herodes, para vestir-Se desse trapo de púrpura - símbolo do rubor e da vergonha que Lhe causa o pecado. Aspersus est sanguis eorum super vestimenta mea.

Oh! minhas senhoras, dizem que é necessário seguir as exigências da moda, - da moda que é uma conspiração anticristã para aviltar o vosso caráter e conspurcar o vosso pudor - e Jesus se cobre de um manto irrisório para alcançar-vos a graça da simplicidade e da modéstia, a fim de que possais revestir, um dia, esse mesmo corpo de claridades e de esplendores, que é a gloria do Filho Unigênito no seio do eterno Pai. Reformabit corpus humilitatis nostrae configuratum corpori claritatis suae

O Rei imortal dos séculos tem por cetro uma cana verde, símbolo da nossa fragilidade e inconstância, como figuram os espinhos a nossa esterilidade para o bem. “Nada mais de molde - comenta Orígenes - do que esse caniço oco, frágil, flexível e leviano, para simbolizar a nossa grandeza imaginária, a nossa vaidade ridícula, a nossa ciência vã e sem consistência, agitada pelo vento de doutrinas contraditórias. Sobre a ciência puramente humana, parto do delírio mais que da razão dos filósofos, apoiaram-se os homens, - frágil caniço que, incapaz de os sustentar, se lhes quebrou entre as mãos, deixando-os cair na lama de todos os vícios, no abismo de todos os erros. Calamus ille mysterium fuit sceptri vani et fragilis, super quem incumbebamas antequam crederemus.”

De um caniço verde se utilizaram os soldados para mais fundo fazer penetrar na cabeça de Jesus os espinhos que a torturavam. Assim tem servido a ciência dos homens para atormentar a cabeça do Divino Mestre, negando a Sua divindade, repelindo a Sua palavra, contestando a autoridade da Sua Igreja

Inconstantes na prática da virtude, flexíveis e quebradiços ao menor sopro da tentação, ocos, vazios de virtudes e merecimentos, - nós somos bem um caniço verde agitado pelo vento. Arundinem vento agitatam. Mas, se Jesus nos toma entre as mãos, mãos amarradas para não punirem - afirma S. Ambrósio - para logo se nos comunica a Sua fortaleza, o vigor da fé, a força da graça, a coragem da virtude. Arundo comprehenditur in manu ejus, ut humana fragilitas non moveatur a vento, sed operibus Christi corroborata firmetur.

Ó meu Bom Jesus! Em Vossas mãos está o meu destino, a minha perseverança, a minha salvação eterna. In manibus tuis sortes meae. Felizes aqueles que, fracos e quebradiços como a cana verde, todavia se conservam entre as Vossas mãos divinas, porque não serão atingidos pela malícia do pecado. - Justorum animae in manu Dei sunt. Felizes, sim, porque, quando parecem morrer para o mundo, então começa para eles o descansar da eternidade. Visi sunt oculis insipientium mori: illi autem sunt in pace

(No Calvário por Dom Duarte Leopoldo E Silva, 1937)

PS.: Grifos meus.
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