quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Infância (Santa Bernadette)

Nota do blogue: Inicio hoje uma série de textos tratando sobre a vida de Santa Bernadette.

A Infância
(Santa Bernadette)
Primeira parte


É Bartrés (1) uma aldeazita situada ao norte de Lourdes a meia légua da cidade. 

Na cumeeira do morro bastante elevado, verdejante e arborizado, de aspecto vicejante como as pradarias bigorrenses, à beira da encosta de Leste, Bartrés está assentada no côncavo de uma dobra do chão, como no porão de comprido barco, entre duas ladeiras relvosas remontadas de carvalhais. 

A estrada de Lourdes passa por ela fazendo uma espiral inclinada. 

Não se pense num grande povoado, não. Só poucas casas de camponeses, esparsas à direita e à esquerda sem nenhum plano. Igreja boa, bem restaurada.

Caminhos que qualquer chuva torna medonhamente lamacentos, como todos os fundo de bacia. 

Trezentos moradores.

Nas beiras deste profundo valezinho, rebanhos atarefados com os focinhos no capim, vacas das charnecas, de chifres delgados, de pelo louro, vaquinhas bretãs malhadas de preto e branco; e, sobretudo carneiros lanzudos e gordos, imóveis quais pedras de alvenaria surgidas, na sua tarefa de pastar. Ao sul, e quão perto nos parece! surge diante de nós, a cada instante, a série de altos e baixos agigantados dos Pireneus: o Pico de Ger, a delgada agulha do Pico do Meio Dia bigorense, e, a seguir, os cumes de Arbizon e de Nouvielle. E aqueles montes de dois ou três mil metros, tão vizinhos que aparentam vegetação, com seu dédalo de vales escuros, com suas vertentes caindo abruptas, tornam mais meiga e sorridente a aldeola de Bartrés tão molemente semi-sepultada entre duas intumescências da terra que se alonga em linhas arredondadas. 

1857

E a saída do catecismo. As meninas com seu capuzinho num sussurro de tagarelices e de tamancos descem pela estrada abaixo ao voltarem da igreja situada num morrinho. Uma delas, comportada e séria, moreninha mal aparentando dez anos, de grandes olhos negros, imperscrutáveis, maçãs salientes, boca largamente rasgada, apressa-se sozinha em demanda daquele casario branco, lá no fim da segunda esquina, que assim fica fronteira ao presbitério. O jovem cura, Padre Ader, atalhou pelo cemitério, tomando-lhe a dianteira. Ei-lo em casa à janela da sala de jantar, quando a menina passa pela estrada. Chama a empregada (que provavelmente punha a mesa). 

- "Olhe para esta menina. Quando a Virgem SSma. se digna mostrar-Se na terra, deve escolher crianças que se pareçam com esta." 

Treze anos antes, tinha aparecido a Mãe de Jesus no monte sobranceiro de oitocentos metros à aldeia já muito alta de La Salette. Lá, num local, cercado formidavelmente por montanhas despidas de árvores, mal verdejantes de grama rala, paisagem lunar de serenidade inalterável com suas linhas harmônicas, onde não se enxerga ponta alguma de rochedo, a Virgem Maria escolhera, para a eles se manifestar, dois pastorinhos cujos carneiros tosavam o capim nos alcantis da serra. Chamavam-se Maximino e Melânia. Ela os abençoara. Falara-lhes dos pecadores. Chorara, com o rosto nas lindas mãos, ao pensar naquelas multidões que se não valem dos dons de Deus e pelo contrário ofendem seu Criador. Confiou-lhes um segredo e fizera brotar água de uma nascente que sempre secava no verão e desde então nunca deixou de correr. Viram-nA depois, trajada de vestido bizantino, com largas mangas, toucada de coifa do mesmo estilo a formar-Lhe um diadema, viram-nA subir voando para o céu de anil. 

O Padre Ader, sacerdote místico, que no findar aquele ano havia de ingressar num mosteiro, ficara muito comovido com aquela bela história de La Salette. Os prantos de Maria, a Sua tristeza, Seu amor aos pobres pecadores a transparecer nas frases relativas à Sua tarefa tão pesada de medianeira, todas essas recordações patéticas preocupavam-lhe certamente o espírito. 

Mas que havia, no rostinho da criança que passava, para se fazer, quase instantaneamente, no espírito do Padre Ader, aquele cortejo? Chamava-se a menina Maria Bernarda e, mais familiarmente, Bernadette Soubirous. Fazia de criadinha, no verão em casa de sua antiga ama, Maria Aravant, senhora Lagües, isto é, vinha durante os mais belos meses, sem salário, só pela comida, tomar conta do lindo rebanho de carneiros e cordeiros da granja Lagües, fronteira ao presbitério, na segunda volta do caminho. 

Bernadette não era de Bartrés. Seus pais, outrora moleiros em Lourdes tinham passado mal nos negócios e agora moravam na parte mais alta da cidade, na rua das Valetas (Petits Fossés). Ali viviam apertados com seus 4 filhos, num pardieiro [pardieiro = casa pobre e tosca, casa arruinada] de sala única, por uma só janela iluminada, no rés do chão da antiga cadeia denominada ainda hoje o Calabouço. O dono daquele imóvel, André Sajou, primo dos Soubirous, deixava-lhes por serem incapazes de pagar aluguel, o uso daquela miserável moradia. O pai e a mãe ganhavam o sustento trabalhando a jornal nos campos da cercania de Lourdes

(1) Bartrés. Mudou-se prepositadamente o acento francês para evitar qualquer dificuldade de pronúncia. (P.E.F.S.I.) 

(A Humilde Santa Bernadette, por Colette Yver, 1956)

PS.: Grifos meus.
Próximo post: A vida em Bartrés.
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