domingo, 19 de dezembro de 2010

O dom da força

O DOM DA FORÇA


Dominus refugiam nostrum et virtus (Sl. 45,2).
O Senhor é nosso  refúgio e nossa força.

Pelo dom de conselho, a alma está unida de algum modo à Inteligência e Deus, consulta-O a cada passo, e nada faz sem Seu conselho.

Pelo dom da piedade, está unida ao Seu coração de Pai, participa da bondade, do amor que espalha sobre toda criatura.

Pelo dom da força, está associada ao poder de Deus. Em nenhuma parte vê-se melhor como o homem, entregue unicamente à virtude de força, não é ainda senão fraqueza.

Antes da descida do Espírito Santo, os apóstolos, ainda que instruídos e educado durante três anos pelo próprio Jesus, fugiram terrificados à aproximação de seus inimigos.

Depois de Pentecostes, ao contrário, deixaram-se flagelar, lançar na prisão e matar.

É próprio do dom da força tornar a alma capaz de empreender e realizar com êxito as mais difíceis ações. É assim que simples mulheres, sem instrução, sem prestígio e sem meios humanos, têm, à voz de Jesus, executando obras consideráveis, fundando novas Ordens, operando reformas importantes, assistindo com seus conselhos os próprios soberanos pontífices e afrontando todas as oposições com uma coragem sobre-humana.

Ainda em nossos dias, surgem por toda parte boas obras concebidas e sustentadas quase sempre por almas desprovidas de talentos, de renome e de fortuna, porém ricas dos dons do Espírito Santo.

O dom da força dá ainda a necessária energia para afrontar todos os perigos, mesmo as doenças contagiosas e a morte, a fim de salvar almas.

É este espetáculo e coragem heróica que dão, todos os dias e em todos os países, os missionários católicos, os religiosos e religiosas que deixam pátria e família, sacrificam mocidade, saúde e futuro, e vão despertar sua existência em converter os pagãos, em tratar os leprosos, os cancerosos e os mais repugnantes doentes.

É ainda este dom que comunica a paciência de sofrer toda espécie de vexames e de perseguições. O Espírito Santo dotou de uma força surpreendente os cristãos perseguidos e martirizados durante os três primeiros séculos da era cristã e, mais tarde, em todas as épocas da história da Igreja, e, em nosso dias, no católicos México, onde velhos, mulheres e crianças deram ao mundo o espetáculo de uma paciência heróica nas torturas e na morte. Verdadeiramente o braço de Deus não está mais curto!

É o dom da força que faz as almas, que têm a nostalgia do céu, suportarem o tédio e o desgosto da vida presente sobre esta terra de iniquidades, onde o mal parece sempre triunfante, onde um punhado de ímpios conseguem conservar sob o jugo da opressão milhões de consciências, onde a virtude é ridicularizada e desprezada, onde o Salvador Jesus, o Rei dos reis, é vilipendiado por indignas criaturas.

É Ele que dá a coragem de carregar pacientemente as inumeráveis cruzes de nossa peregrinação terrestre.

Ao lado dos fracos cristãos que não compreendem nada da ação de Deus, que levam seu jugo murmurando ou revoltando-se, quantas boas almas, aceitando, com heroísmo e em segredo, as dores, as doenças, as contradições, as calúnias e os infortúnios, repetem como Job: Deus deu, Deus tomou, que Seu santo nome seja bendito: Dominus dedit, Dominus, abstulit... sit nomem Domini benedictum (Job. 1,21).

E donde pode vir ao homem, durante sua peregrinação terrestre, a coragem necessária para sustentar a luta contra as incessantes solicitações de sua natureza corrompida, as seduções do século e as perseguições do inferno, senão daquele que respondia a S.Paulo implorando a terminação desta luta: ufficit tibi gratia mea, nam virtus in infirmatate perficitur ( Cor. 12,9): Basta-te Minha graça, porque Minha força manifesta-se em tua fraqueza.

E donde vem esta constância em levar uma vida de renúncia conforme as máximas do Evangelho, num meio saturado de princípios mundanos que contradizem insolentemente, até nos claustros, os ensinamentos de Jesus Cristo? Para enfrentar esta oposição, muitas vezes aberta, contra a alma piedosa no meio do mundo, querendo dar-se a Deus e desprezar as sugestões do respeito humano, para seguir uma estrada larga, é necessário uma força e uma constância que só o divino Espírito pode comunicar à alma.

É, sobretudo, em face da morte e das circunstâncias que a podem acompanhar, que Deus reveste as almas, que lhe pertencem, de Sua força divina.

Nesse momento desaparece todo apoio humano interior e exterior. A alma encontra-se completamente em face da eternidade, do julgamento que a deve preceder, e do último momento da vida, o mais decisivo de todos.

Mas Deus é fiel. Se foi a força da alma humilde e confiante em todo o decurso da vida, é sobretudo no fim que faz sentir o poder de Seu braço.

Sustenta-a nas enfermidades e nas dores, defendendo-a contra as insidias e as tentações de Satanás, comunica-lhe uma confiança inabalável na Sua bondade, ensina-lhe a esquecer-se de si própria e de suas dores e seus temores para se unir a Jesus sobre o Calvário, para oferecer, por intermédio da divina Mãe, sua pobre vida humana ao Pai eterno em união com o sacrifício de Jesus na Cruz.

Mas para viver assim, guiada durante toda a existência e em todas as circunstâncias da vida e no momento da morte, pela força de Deus, é necessário que a alma seja bem pequena e bastante humilde, consciente de sua infinita indigência.

O Espírito Santo não guia aqueles que se crêem grandes e forte, a esses os deixa caminharem sós. Estão expostos a se extraviar, a cair e perder a coragem para se levantar.

Ó Virgem Maria, ajudai-nos a compreender vosso cântico inspirado.

Respexit humilitatem ancillae suae (Lc. 1,49). Ele olhou a humildade de sua serva.

Fecit mihi magna qui potens est (Lc. 1,19). Fez em mim grandes coisas o que é poderoso.

Dispersit superbos mente cordis sui. Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles (Lc. 1,51-52). Dispersou os soberbos de espírito. Depôs de seu trono os poderosos e exaltou os humildes.

Ó humilde Virgem, ó Maria bendita, tornai-nos semelhantes a Vós.

(Almas confiantes pelo Pe. José Schrijvers, C.SS.R.; trduzido do francês por Heris de Oliveira Lima, III Edição, editora Vozes, ano de 1955)

PS: Grifos meus.
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