sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Educação sobrenatural - XIII - Os frutos da vida sobrenatural

A EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
XIII- OS FRUTOS DA VIDA SOBRENATURAL


"Aquele que permanece em mim e em quem eu permanecer,
produzirá muito fruto."
(Joan., XV, 5)

Quais são os principais frutos da vida sobrenatural?
São: a fé (art. I); a esperança (art. II); o amor de Deus (art. III); o amor a Igreja (art. IV).

Artigo I -A fé

"A nossa fé é um candelabro espiritual que ilumina e aquece a alma."
(São Tomás de Aquino)

Donde vem a fé para a criança?
A criança recebeu, no batismo, a fé infusa, uma virtude secreta, uma disposição íntima que a inclina a crer, um gérmen abençoado que só espera desenvolver-se e engrandecer. As criancinhas batizadas têm afinidades sobrenaturais com as verdades cristãs, que ainda não conhecem. Esta fé virtual, esta crença implícita é quanto lhes basta por agora; crêem pelo coração da Igreja e pelo coração de sua mãe.

Que se deve fazer quando a criança atinge a idade da razão?
Quando a criança atinge a idade da razão, é obrigada a fazer um ato de fé explícito e formal.

A mãe deve vigiar o primeiro despertar da sua inteligência para a colocar, imediatamente, em relação com as verdades reveladas, com a ordem sobrenatural.

Mas não se deve assustar; a criança não as admira de nada, está preparada para tudo. Ser-lhe-á impossível, durante muito tempo ainda, sem dúvida, dizer por que é preciso crer; mas crê sem hesitar. A sua adesão é franca, inteira; nenhuma dúvida a assalta; e isto não é somente o resultado da credulidade, natural da sua idade, é também o fruto do Espírito Santo que a ilumina e lhe faz dizer: "Eu creio". Pode-se afirmar que, depois do batismo, a criança é naturalmente cristã.

Como se deve então apresentar à criança os ensinamentos da fé?
É preciso apresentar-lhe os ensinamentos da fé com uma clareza proporcionada à sua inteligência; pô-los ao seu alcance; servir-se de exemplos, de comparações, de lembranças; é preciso descrever-lhe a religião. A verdade há-de penetrar tal qual é na sua alma, infiltrar-se-á nela, porque, quando a verdade não é contrariada por paixões ou preconceitos, basta mostrar-se para triunfar.

"Nada é tão tocante como a fé simples e ingênua duma verdadeira mãe, nas relações com seus filhos, sobretudo quanto está razoavelmente esclarecida; dir-se-iam pequenos anjos que escutam as predicas dum arcanjo ou dum querubim."
(Mgr. Pichenot)

Deve contentar-se como  ensinamento pela palavra?
É preciso ajuntar-lhe o exemplo.

"O coração e as mãos devem estar de acordo com os lábios."
 (Mgr. Pichenot)

Uma mãe deve viver da fé, como o justo da Escritura, e isto a fim de criar em volta de seu filho uma atmosfera impregnada de espírito cristão, para lhe infundir a religião no sangue, alimentar com ela a sua alma para a vida.

Artigo II - A esperança

Que é o objetivo da esperança?
É tríplice, no dizer de São Bernardo, a saber:

- A esperança do perdão: spes veniae;
- a esperança da graça: spes gratiae;
3º- a esperança da glória: spes gloriae.

É importante criar nas crianças a esperança do perdão?
Sim, porque:

1º- As crianças pecam e por vezes mortalmente.

"Sacramentei e enterrei uma pobre criança que morrera vítima de pecados; não tinha mais de onze anos."
 (Mgr. Pichenot)

2º- As crianças são culpadas, pelo menos de pecados veniais. E o pecado venial, é já um grande mal; arrefece o amor de Deus; impede o aumento interior da vida sobrenatural; expõe às chamas do purgatório.

Qual é o melhor meio de fortalecer nas crianças esta esperança do perdão?
É habituá-las a repararem prontamente os pecados que cometem.

É preciso dizer-lhes que Deus é bom como um pai, terno como uma mãe, e mais que uma mãe, segundo a linguagem da Sagrada Escrituras.

É preciso  ensinar-lhes que nem sempre têm necessidade de confissão para obter o perdão dos pecados veniais: um Pater bem dito, um sinal da cruz bem feito, um bocado de pão bento comido com fé, a bênção dum bispo ou dum padre, e com mais forte razão a do Santíssimo Sacramento, com o ato de contrição ou de caridade, o Confiteor dito do fundo do coração, e podem ficar purificadas.

Não há a temer alguma presunção no desenvolvimento desta esperança?
Pode ser.

Mesmo assim é preciso ensiná-la: a confiança na misericórdia honra Deus e fortalece o coração.

"Mais vale que as crianças caiam um dia no purgatório por um pouco de presunção do que possam cair por desesperança no inferno. Porque foi maldito Caim? Porque matou seu irmão? Não. Por que se perdeu Judas? Por causa da sua traição? Não. Por causa da sua primeira Comunhão sacrílega? Não; foi porque não tiveram confiança. A desesperação é um pecado contra o Espírito Santo, um pecado que não pode ser perdoado."
(Mgr. Pichenot)
Por que é preciso formar nas crianças a esperança da graça?

- Porque a presunção é o fundo do seu caráter; de nada duvidam e imaginam não ter necessidade de ninguém. É preciso, portanto, ensinar-lhes que, sem a graça, não podemos nada, nem evitar o mal, nem fazer o bem, nem salvar-nos: isto é um caso de fé.

- Porque as crianças, jovens presunçosas, não tardam a experimentar a sua fraqueza, e são tanto mais tentadas a desanimar quanto maior era a confiança que tinham em si próprias. É preciso dize-lhes então que se pode tudo com a graça de Deus, humildemente solicitada, generosamente seguida.

Como se pode excitar nas crianças a esperança da glória?
- Dizendo-lhes que a recompensa do céu é segura, abundante, eterna;

- amparando-as no cumprimento dos seus deveres, pela perspectiva, sobrenaturalmente aberta a seus olhos, da eternidade bem-aventurada;

- recordando-lhes alguns traços da vida dos santos mais especialmente instrutivos na matéria.

A mãe de São Sinforiano dizia-lhe, no momento em que o conduziam ao suplício:

- Meu filho, meu filho: lembra-te da vida eterna; olha os céus; não tenhas pena desta vida, pois vais trocá-la por uma melhor.

Santa Felicidade de Roma, a mãe dos Macabeus, sustinha a fé e a coragem dos seus sete filhos com o pensamento da Ressureição gloriosa, quando eles estavam nas mãos do carrasco.

Artigo III - O amor de Deus

"Ah! quem não ama a Deus é louco".
(Vida do bem-aventurado Crispim, p.109)

Qual é a importância do amor de Deus?
É imensa.

"A maior desgraça neste mundo, a origem de todos os erros e de todos os vícios, é não se amar a Deus."
(Mgr. Pichenot)


Como se deve fazer para excitar, no coração da criança, um verdadeiro amor a Deus?
É preciso persuadi-la de que ela mesma é objeto dum grande amor da parte de Deus.

Se não se ama Deus, ordinariamente pelo menos, é porque não se crê que se é amado por Ele. Se se tivesse a convicção, a persuação íntima desta verdade: que Deus nos ama desde toda a eternidade, que nos ama apesar das nossas faltas e fraquezas, que nos quer amar sempre, ser-nos-ia impossível não nos ligarmos a Ele, porque o amor chama o amor, como o fogo chama o fogo: é uma lei da natureza, é uma lei do coração.

Quais são as verdades que convencerão mais facilmente a criança do amor de Deus pra com ela?
1º- É primeiramente a criação com as múltiplos benefícios de Deus espalhados na ordem da natureza; a primavera e o perfume das suas flores, dessas flores que nasceram, dizem os poetas, do sorriso de Deus, que arrebatavam os santos em êxtases de reconhecimento; o estío e as suas messes douradas, com as quais Deus nutre o corpo e a alma de cada um de nós; o outono e os seus frutos variados e saborosos, que fizeram dizer a Bernardim de Saint-Pierre que as plantas trazem consigo a sua teologia; o inverno, enfim, e a bênção do seu fogo, das suas águas e das suas longas noites reparadoras.

- O benefício da sua própria existência, que lhe vem de Deus.
A mãe dos Macabeus dizia aos seus sete filhos no dia do seu martírio:

- Não sei como aparecestes no meu seio; porque não fui eu que vos dei o espírito, a alma e a vida nem mesmo fui eu que organizei os vossos corpos e reuni os vossos membros, mas foi o Criador do mundo que fez tudo.

A criança recebeu esta existência de preferência a uma infinidade de outras que teriam sido melhores do que ela. Deus, em seu lugar, poderia ter feito um anjo ou uma estrela. Porque a criou a ela? Amor, amor. E essa existência nunca lhe será arrebatada: é indestrutível. Esta existência traz consigo uma multidão doutros benéficos, que a criança compreenderá quando seu pai ou sua mãe compararem o seu estado com o estado daqueles que sofrem: ou enfermos, os deserdados da vida.

- Os mistérios da Encarnação, da Redenção, da Eucaristia, da eternidade bem-aventurada.

Artigo IV - O amor da Igreja

"Não há melhor mãe neste mundo"
(Provérbio cristão da idade média)

Por que se deve inspirar às crianças o amor da Igreja?
Porque a Igreja é nossa mãe.

"Deus deu-no-la para dirigir os nossos passos para o céu, para curar os nossos males, pensar as nossas chagas, ressuscitar-nos, se tivermos a desgraça de perder a vida da alma, levar-nos nos Seus braços do berço à tumba, até à vida que não acabará jamais."

Não é preciso inspirar-lhes também o amor pelo Sumo Pontífice?

Sim.

O Sumo Pontífice foi eleito por Jesus Cristo como Seu vigário sobre a Terra e chefe supremo de toda a Igreja. É preciso convencer as crianças a tirarem do seu pequeno mealheiro a parte do Papa, generosamente lançada no Dinheiro de São Pedro.
 
"Outrora, diz o Pe. Charruau, criancinha caíram doentes com a dor causada pela notícia de que o pequeno exército de Pio XI tinha sido derrotado pelos Piemonteses."
(Charruau, Os nossos filhos, p. 135)
 
Este amor parece que tende a diminuir: é preciso reanimá-lo por todos os meios. Não zombemos do generoso ardor desse homenzinho de sete anos que queria ser zuavo e que fazia todos os dias exercícios, a fim de se preparar para expulsar de Roma o rei da Itália e tirar aos alemães a Alsácia Lorena.
 
"Num homem de sete anos há muito do que ele será aos trinta."
(P.Charruau, Às mães)
 
É suficiente inspirar crianças o amor da Igreja e do Sumo Pontífice?
É preciso ainda fazer-lhes compreender, amar e sustentar as obras católicas: o Dinheiro do clero; a propagação da Fé, a Santa Infância, a Obra de São Francisco de Sales, as escolas católicas de todos os graus e mais especialmente os seminários, as obras post-escolares, as obras sociais católicas, as obras de propaganda, etc.
 
Alguns pensam assim:
 
- No colégio. - "Dantes, nos bons tempos de antanho, contava o P.Charruau (Os nossos filhos, p. 146), quando um missionário nos visitava no colégio e nos falava dos milhares de almas que tinha a converter, e da fraqueza dos seus recursos, abríamos com entusiasmo as nossas bolsinhas e quase sempre dávamos tudo sem contar. Não nos ralhavam por esta falta de economia. Pelo contrário, quando chegava a noite e contávamos o que se passara durante o dia, as nossas mães apertavam-nos nos braços e, beijando-nos na fronte, diziam-nos:
 
- Meu filho, fizestes bem.
 
E deixavam-nos muito dias sem dinheiro para não diminuirmos o nosso mérito.
 
Hoje encontrareis poucas crianças capazes desta generosidade. É esta falta de coragem provém, sobretudo, ficai certos disto, da moleza com que, atualmente, se educam as meninas e os rapazes."
 
- Na vida. - As crianças poucas vezes ficam tão boas como os pais e as mães; e, quando desaparece algum nobre velho que era a providência dum bairro, duma cidade, duma diocese, algumas vezes dum país inteiro, não é geralmente substituído. Nós mesmos temos observado, e julgamos poder emitir uma opinião fundamentada, que em certos meios a generosidade dos pais, comparada com a dos filhos, está na proporção de dez para um.
 
De que provém?
1º- Da moleza da educação;
 
2º- do luxo que faz estabelecer o lar que começa no mesmo pé de igualdade que aquele em que os pais acabaram após uma vida de trabalho;
 
3º- desse erro deformante que leva os pais a tomarem para si, até ao fim da sua vida, todas as obrigações de seus filhos. Necessariamente, diminuem assim a ação pessoal, e habituam os seus descendentes a nada fazerem.
 
(Catecismo da educação, pelo abade René de Betléem, continua com o post: A extensão da vida sobrenatural)
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