sábado, 18 de dezembro de 2010

A beleza da vocação

A BELEZA DA VOCAÇÃO


Quem, senão Deus, terá comunicado a essas almas ardentes a sede insaciável de amor e ternura que as devora e nunca se vê farta neste mundo? Fugiram do mundo e asseveram que encontravam a paz e a alegria, no sacrifício; guardaram o coração para Aquele que não muda e não engana, aos que O servem; encontraram consolações tais, que valem bem o preço que deram por elas, alegrias que não vão isentas de nuvens, porque, então, não teriam merecimento, mas, cujo perfume, atravessa esta vida e dura até á sepultura.

Não penseis que nos esqueceram a nós, que as amamos tanto e somos por elas correspondidos. Oh, não! Conosco repartiram as angústias do sacrifício da separação; o desprendimento, porém, não é a insensibilidade e, uma religião que conseguisse secar o coração humano, não seria religião, seria uma tirania, uma impostura. O coração tornar-se-lhes mais afetuoso, sempre ocupado com aqueles que ama, à medida que mais se aproxima  do Coração de Jesus.

Será isto um sonho? uma página romântica? a história de um passado que não volta? Não; é de todos os dias.

Essa cena eu a contemplei um dia, com os olhos rasos de lágrimas pelas angústias paternas. Quantos, como eu, viram consternados a última aparição de uma filha ou de uma irmã querida!

Sim, cada dia, milhares de criaturas, ternamente amadas, saem dos castelos como das choupanas, dos palácios com das oficinas, para oferecerem a Deus sua vida... É a flor do gênero humano aljofrada ainda com as gotas do rocio que não refletiu senão os raios do sol nascente e que o pé da terra ainda não embaciou.

Em todas essas nobres donzelas desposadas com Deus, aparece alguma coisa de intrépido que está acima de seu sexo. É condão da vida religiosa, essas transformação da natureza humana que dá à alma o que lhe faltaria na vida ordinária; ela inspira à donzela um não sei que de viril que a subtrai a todas as fraquezas da natureza... que faz dela, no momento preciso, uma heroína... mas uma heroína terna, meiga e compassiva, surgindo do abismo da humildade, da obediência e da caridade, para atingir tudo quanto há de grande na coragem humana.

Em uma bela manhã, uma filha estremecida, levanta-se e vai dizer a seu pai e a sua mãe: Adeus, acabou tudo, vou morrer para vós, para todos... Não serei esposa nem mãe, já não pertenço a ninguém mais, senão a Deus...

Nada a detém; ei-la com um sorriso angélico, já adornada para o sacrifício; ufana de seu sorridente e último enxoval, marcha para o altar, ou melhor, corre para ele, como o soldado ao assalto, para inclinar a cabeça sob esse véu que será um jugo para o resto de sua vida e que deve ser também a coroa de sua eternidade...

Mas, quem é, pois, esse amante invisível, imolado há dezoito séculos em um madeiro, que assim atrai para Si a mocidade e a beleza... que se descobre às almas com um esplendor e atrativo a que elas não sabem resistir... Será por ventura um homem? Não; é um Deus. Eis aí o segredo, a chave desse sublime e doloroso mistério. Só um Deus pode alcançar tais triunfos e inspirar tais sacrifícios. Jesus, cuja divindade é todos os dias insultada, prova-a todos os dias (entre mil outras provas) por esses milagres de desinteresse e de coragem que se chamam vocações. Corações jovens e inocentes dão-se a Ele, para O recompensar do dom que Ele nos fez de Si mesmo..., e o sacrifício que as crucifica não é senão a resposta do amor humano ao amor de um Deus que Se fez crucificar por nós.

(Montalembert, citado por J.Nysten no livro: Quando eu for moça..., Centro da Boa Imprensa, Porto Alegre 1925, com imprimatur)

***

O ADEUS DA VIRGEM

Colhi nas silvas lá no Calvário
Os atavios do meu noivado
E meu esposo, no santuário,
Será o Mártir crucificado.

As minhas jóias, irmã querida,
Todas são vossas, ficai com elas,
E sede ao noivo consolo e vida,
Que eu tenho jóias muito mais belas.

O lar da infância não se reparta,
Tereis colméias, messe, pomar
E mãe e filhos, deixai que eu parta,
Deixai que o Mestre corra a buscar.

A primavera ri pelos prados,
Abrindo em flores plainos alpestres,
Vós dois, juntinhos, pelos cercados,
Ireis cheirando rosas silvestres.

O Esposo prados maravilhosos
Dai-me, esmaltados todos de flores,
São estes leitos, onde, aos leprosos
Curando as chagas, mitigo dores.

Vêm seus sorrisos abençoados
Dos orfãozinhos trazer o olhar,
Na voz de todos os desgraçados,
Cheios de prantos, sinto-o falar.

Nos dos mendigos, já moribundos,
Finais suspiros, queixas de dor,
Meu doce esposo dono dos mundos,
Por mim suspira, cheio de amor.

De outras venturas, Cristo, preserva
Quem só deseja Vos acompanhar,
Que o céu desvendes à Vossa serva,
Depois que O possa, feliz pagar.

Ó Rei das dores, para sofrer,
Aos dos humanos falsos caminhos,
Ó Rei das dores, para morrer,
Os Vossos prefiro, cheios de espinhos.

Irmãs queridas, mãe adorada,
Não sou ingrata, por vos deixar,
À vossa vida vivo ligada,
Porém vos deixo por vos amar.

Não por ingrata, porquanto, assim,
Se Deus vos guarda pena ou castigo,
A maior parte quero pra mim,
Quinhão mais amplo levo comigo.

Um bem só causa contentamento,
Quando aos ditames da dor sujeito,
Pois, conquistá-lo com sofrimento,
É conquistá-lo puro e perfeito.

Cá, em obscuros claustros, sofremos
Virgens, as lutas que combateis;
Para que outros vivam, morremos,
Para que puras vos conserveis.

(Vitor Laparte - Tradução livre de H. de Casais - citado por J.Nysten no livro: Quando eu for moça..., Centro da Boa Imprensa,
Porto Alegre 1925, com imprimatur)
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