segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ESPECIAL: Santa Catarina de Sena

Nota: Recebido por e-mail, mantenho os grifos. Agradeço a generosidade e caridade de quem me enviou. Deus lhe pague!

Nota do blogue (dia 29/04/2011)

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Principiamos agora também a publicação na internet da obra "Catarina de Sena", da escritora norueguesa Sigrid Undset. Agredecemos à srta. Aline, de Volta Redonda - RJ, por estar digitando para nós este material. Grifos em negrito nossos. Bom proveito para a vida espiritual de quantos se dispuserem a conhecer melhor esta gigante da santidade que foi Santa Catarina de Sena!

CATARINA DE SENA


SIGRID UNDSET

(1882- 1940; Terceira Dominicana; Premio Nobel de Literatura de 1928)
Tradução de Basílio Lopes Editorial Aster – Lisboa

ÍNDICE

I. Família e infância de Catarina
III. “Mantelata”
IV. O noivado místico
V. “O que fizerdes ao mais pequenino...”
VI. Corpos e almas
VII. A República de Sena
VIII. Um coração novo
IX. Instrumento de paz
X. Roma deserta
XI. Luta em várias frentes
XII. O Duque de Milão
XIII. Raimundo de Cápua
XIV. Gregório XI
XV. Medianeira
XVI. Em Avinhão
XVII. O Papa consulta Catarina
XVIII. O fim do “Cativeiro da Babilônia”
XIX. Um louco apaixonado
XX. O Conclave
XXI. O grande cisma do Ocidente
XXII. O “Diálogo”
XXIII. A Rainha Joana de Nápoles
XXIV. Catarina e Raimundo
XXV. A “Compania di San Giorgio”
XXVI. A última carta ao Papa
XXVII. “Pai, nas Vossas Mãos...”
XXVIII. Os estigmas da Paixão
XXIX. “Os “Caterinati

Capítulo I - FAMÍLIA E INFÂNCIA DE CATARINA

Nas cidades-estados da Toscana, os cidadãos – Popolani – homens de negócios , os mestres artífices e as classes profissionais, já na Idade Média, tinham exigido, e conseguido, o direito de participar no governo da república ao lado dos nobres – os Gentilhuomini. Em Sena, detinham um terço dos lugares da Câmara Alta desde o século XII. E apesar de os diferentes partidos e os grupos rivais dentro desses partidos estarem em desacordo constante e por vezes violento, e apesar das freqüentes guerras em Florença, o mais poderoso competidor entre os vizinhos de Sena, a prosperidade reinava dentro da cidade.

Os seus habitantes eram ricos e tinham orgulho de sua terra, que encheram de belas igrejas e de edifícios públicos. Os pedreiros, escultores, pintores e ferreiros que faziam as delicadas lanternas e gradeados, raramente estavam inativos. A vida era como um tecido de cores brilhantes, onde a violência e a vaidade, a avidez e o desejo incontrolável de prazeres sensuais, a ânsia de poder e a ambição, se entrelaçavam numa variedade infinita de modelos. Mas através desse tecido notavam-se fios prateados de caridade cristã, de profunda ingenuidade, nos mosteiros, entre os bons sacerdotes, e entre os irmãos e irmãs que se tinham consagrado à tarefa de ajudar o próximo. Gente abastada e o povo, em geral, proviam o melhor possível às necessidades dos doentes, dos pobres e dos desamparados, com generosidade ilimitada; e em todas as classes da comunidade havia pessoas com uma vida familiar calma, modesta e cheia de pureza e fé.

A família de Jacopo Benincasa era uma delas. Profissionalmente, Jacopo era um tintureiro de lãs, ofício que desempenhava na companhia dos filhos mais velhos e dos aprendizes, enquanto sua mulher, Lapa di Puccio di Piagente, dirigia com firmeza e segurança o governo da grande casa, apesar de sua vida ser um ciclo quase constante de gravidez e partos (cerca da metade de seus filhos tinham morrido ainda muito novos). Não se sabe quantos deles se criaram, o certo é que se encontraram treze nomes, dos que sobreviveram, numa velha árvore genealógica dos Benincasa. Tendo em conta a alta percentagem de mortalidade infantil desse tempo, devemos considerar Jacopo e Lapa como pessoas cheias de sorte por terem conseguido criar mais da metade dos filhos que haviam vindo ao mundo.

Jacopo Benincasa era um homem de largas posses quando em 1346 alugou uma casa na Vila dei Tintori, perto de Fontebranda, uma das belas fontes cobertas que asseguravam à cidade água fresca em abundância. O velho lar dos Benincasa, que se encontra ainda quase como nesse tempo, é para nossa maneira de ver uma casa pequena para tão grande família. Mas, na Idade Média, as pessoas não se preocupavam muito com o problema do alojamento, e menos ainda nas cidades fortificadas, onde todos se amontoavam o melhor que podiam sob a proteção das muralhas. O terreno para construção era caro; por outro lado, a cidade necessitava dos mercados ao ar livre, das igrejas e edifícios públicos, que, em todo o caso, teoricamente pertenciam a toda a população. As casas empilhavam-se nas ruas estreitas e cheias de curvas; assim, para esse tempo, o novo lar dos Benincasa era um edifício grande e majestoso.

Lapa já tinha vinte e dois filhos quando deu à luz, no dia da Anunciação, 25 de março de 1347, duas gêmeas que foram batizadas com os nomes de Catarina e Giovana. A mãe só podia amamentar uma das gêmeas; assim enquanto Catarina era alimentada por Lapa, Giovanna foi entregue a uma ama. Nunca antes Lapa tinha sentido a alegria de amamentar os seus próprios filhos – e uma nova gravidez quase a obrigou a entregar a criança a outra mulher. Mas Catarina conseguiu viver com o leite da mãe até ter idade para ser desmamada. Era portanto muito natural que Lapa, já bastante idosa, amasse esta filha com um amor materno exigente mas bem intencionado, que mais tarde, quando a criança cresceu, transformou as relações entre a simples e afável Lapa e a jovem filha numa longa série de desentendimentos angustiosos. Lapa amava-a sem medida, mas não compreendia.

Catarina ficou a ser o membro mais novo e mais querido da família, porque a pequena Giovanna morreu na infância, e uma nova Giovanna, nascida alguns anos mais tarde, seguiu em breve o caminho da irmã do mesmo nome. Os pais consolavam-se com a idéia de que essas pequenas inocentes crianças tinham partido diretamente dos seus berços para o Paraíso, enquanto Catarina, conforme escreve Raimundo de Cápua, usando um trocadilho ligeiramente forçado com seu nome e a palavra latina catena (cadeia) era obrigada a trabalhar pesadamente na Terra antes de poder levar consigo para o céu toda uma cadeia de almas que ela salvou.

Quando Raimundo de Cápua coligia material para a biografia de Santa Catarina conseguiu que a Madonna Lapa lhe contasse a infância da Santa – há muito, muito tempo, pois Lapa era nessa altura uma viúva de oitenta anos. Pelo que nos diz Raimundo ficamos com a impressão de que Lapa sentiu prazer em contar tudo o que lhe veio à memória a um ouvinte tão compreensivo e sensível. Falou-lhe dos tempos em que ela era uma pessoa muito atarefada em volta do rebanho dos filhos, sobrinhos e sobrinhas, netos e vizinhos, e Catarina era a menina querida de um casal já idoso.

Quanto ao marido, descreveu-o como um homem piedoso, justo e de bondade sem igual. Raimundo escreve que a própria Lapa não apresentava “qualquer sinal dos defeitos comuns às pessoas do nosso tempo”; era uma alma simples e inocente, absolutamente incapaz de inventar histórias que não correspondessem à verdade. Mas como tinha a seu cargo o bem-estar de tanta gente, não podia ser silenciosa e paciente como o marido; ou talvez porque Jacopo fosse realmente bom demais para este mundo, a esposa tinha de ser mais prática do que já era, e nas ocasiões devidas julgasse ter o direito de dizer uma ou duas palavras cheias de bom senso para proteger os interesses da família.

Com efeito, nunca Jacopo pronunciou uma palavra áspera e inoportuna, por mais indisposto que estivesse ou por piores coisas que lhe fizessem, e se outras pessoas da casa dessem largas aos seus maus humores ou empregassem palavras indelicadas e desagradáveis, ele procurava sempre apaziguá-las: “Por amor de Deus tenham calma e não digam palavras impróprias”. Certa vez, um indivíduo de Sena tentou obrigá-lo a pagar uma elevada quantia, que Jacopo não devia, e o honesto tintureiro foi perseguido até ficar quase arruinado por causa das calúnias levantadas por esse homem e pelos seus poderosos amigos. Mas, apesar de tudo, Jacopo não admitia que ninguém dissesse mal do homem. Aconteceu isso com Lapa, um dia, e o marido disse-lhe: “Deixa-o em paz, que Deus lhe mostrará o seu erro e nos protegerá”. E algum tempo depois, isso aconteceu realmente, segundo disse Lapa.

As palavras grosseiras e obscenas eram desconhecidas em casa do tintureiro. Sua filha Bonaventura, casada com um jovem de Sena, chamado Niccolo, ficava tão desgostosa quando o marido e os filhos usavam uma linguagem descuidada ao contarem anedotas ambíguas que ficou fisicamente doente e começou a definhar. Niccolo, que devia ser uma pessoa bem intencionada, ficou muito preocupado quando a viu tão magra e pálida, e quis saber o que tinha. Bonaventura respondeu com gravidade: “Em casa de meu pai não estava habituada a ouvir as palavras que aqui ouço todos os dias. Podes ter certeza de que, se tais conversas indecentes continuarem, ver-me-ás definhar até morrer”. O marido imediatamente providenciou para que esses maus hábitos, que tanto feriam os sentimentos de sua esposa, deixassem de se repetir, e manifestou abertamente a sua admiração pelas maneiras castas e modestas de Bonaventura e pela religiosidade dos sogros.

Assim se vivia em casa da pequena Catarina. Toda a gente a mimava e adorava, e quando ela era ainda muito novinha, toda a família admirava a sua “sagacidade” ao ouvir a sua tagarelice inocente. E como era também muito bonita, Lapa poucas vezes a conseguia ter junto de si porque todos os vizinhos a chamavam para as suas casas. Os escritores medievais raramente se preocuparam em descrever crianças ou tentar compreendê-las.

Mas Lapa consegue, em umas poucas páginas do livro de Raimundo, dar-nos a imagem de uma donzela italiana, séria mas ao mesmo tempo alegre, atraente e encantadora – e que começava já a mostrar aquela vitalidade e energia espiritual irresistíveis, que fariam com que, muitos anos mais tarde, Raimundo e outros “filhos” seus se rendessem à sua influência, com a sensação de que as suas palavras e a sua presença afastavam o desânimo e a timidez, e lhes inundavam as almas com a paz e o amor de Deus.

Logo que abandonou o círculo familiar, a pequena Catarina tornou-se chefe de todas as outras crianças da rua, ensinando-lhes jogos que ela própria tinha inventado – isto é, numerosos pequenos atos de devoção. Quando tinha cinco anos aprendeu sozinha o Ângelus, que gostava de repetir incessantemente; ao subir e descer as escadas de sua casa, costumava ajoelhar-se em cada degrau para rezar uma Ave-Maria. Para a piedosa filha de uma família tão religiosa, onde todos falavam com amabilidade e delicadeza com as outras pessoas, devia ter sido natural, ao ouvir falar de Deus, que ela começasse a dirigir-se-Lhe e aos Santos da mesma maneira. Nessa altura, isso era ainda uma espécie de brincadeira para Catarina; mas as crianças põem toda a alma e imaginação nas suas brincadeiras.

Os vizinhos chamavam-lhe Eufrosina, que é o nome de uma das Graças. Mas, Raimundo de Cápua tem certas dúvidas: teria a gente do bairro de Fontebranda um tal conhecimento da mitologia clássica para saberem o que tal nome significava? Inclina-se mais para a ideia de que Catarina, antes de saber falar com correção, se chamasse a si própria qualquer coisa que os vizinhos entenderam por Eufrosina, porque também há uma santa com esse nome. No entanto os habitantes de Sena estavam habituados a ver procissões e a ouvir cantigas e poesias, de maneira que bem podiam ter aprendido parte do vocabulário dos poetas, ao contrário do que Raimundo imaginava.

Assim, por exemplo, o pai de Lapa, Puccio di Piangente, escrevia versos nos momentos de ócio; profissionalmente era um artesão, fabricante de colchões. Além disso, era um homem muito piedoso e generoso para com o mosteiros, os monges e freiras: podia, pois, ter ouvido falar da Eufrosina cristã e da pagã. A própria Catarina esteve depois muito interessada na lenda de Sanata Eufrosiona, que parece ter-se vestido de rapaz para fugir de casa e entrar em um convento. E ela divertia-se com a idéia de vir a fazer a mesma coisa...

Uma noite, com cerca de seis anos, ia Catarina para casa depois de ter visitado sua irmã Bonaventura, já casada. Era acompanhada por dois jovens rapazes, um dos quais seu irmão Stefano – um ou dois anos mais velho e que era provavelmente muitas vezes encarregado pela mãe de cuidar da irmãzinha. Tinham chegado a um lugar onde a rua apresentava uma descida muito íngreme por entre muros de jardins e frontarias de casas viradas para o vale, onde a bela cobertura de pedra de Fontebranda encobre a fonte em que as mulheres do sítio faziam as lavagens ou donde tiravam a límpida água fresca para as vasilhas de cobre, que levavam para as suas casas à cabeça. Do outro lado do vale, erguiam-se as altas paredes de pedra da Igreja de S. Domingos, maciça e austera, que tinha como único ornamento uma série de janelas ogivais nas empenas do coro.

A jovem contemplou o vale que se chama Valle Piatta. Olhou depois para cima, para o alto da igreja, e viu uma coisa tão maravilhosa como nunca sonhara ver: o Salvador do Mundo sentado em um trono real, vestido como um bispo e com a tripla coroa do Papa na cabeça. A seu lado, encontravam-se os apóstolos S. Pedro, S. Paulo e S. João Evangelista. A criança ficou pregada no chão, contemplando com êxtase a visão “com todos os olhos do corpo e da alma”. Nosso Senhor sorriu-lhe amavelmente, levantou a mão e abençoou-a com o sinal da cruz, como fazem os bispos...

Catarina permanecia imóvel, enquanto o amor de Deus lhe inundava a alma, enchendo todo o seu ser e transformando-a para sempre. Prosseguia o movimento noturno das pessoas, descendo e subindo a rua, passavam carroças e cavaleiros, e lá no cimo continuava a jovenzinha, geralmente tão tímida, com o rosto e os olhos virados para o alto, tão estática como se fosse de pedra.

Os rapazes já iam a meio da descida quando Stefano se voltou à procura da irmã e a viu de pé no alto da rua. Chamou-a várias vezes, mas Catarina não se moveu. Dirigiu-se a ela, chamando-a sempre – talvez já um pouco impaciente; mas a irmã não se apercebeu da sua chegada, até que ele a pegou no braço e lhe perguntou o que estava a fazer. Então Catarina fitou-o como se tivesse acordado de um longo sono; olhou para baixo e respondeu: “Oh, se tu tivesses visto o que eu vi, tenho a certeza de que nunca me interromperias nem afastarias tão deliciosa visão dos meus olhos”. Quando levantou o olhar de novo, a visão tinha desaparecido; então começou a chorar angustiosamente, desejando nunca ter perdido aquela visão celestial.

Quando Raimundo de Cápua se tornou confessor de seu pai, Catarina contou-lhe que, a partir desse dia, começou a saber como é que os santos tinham vivido, especialmente S. Domingos e os Padres do Deserto, embora ninguém tivesse ensinado isto a ela, senão o Espírito Santo. Mas uma criança de seis anos é capaz de absorver uma certa quantidade de conhecimentos sem saber donde lhe vieram. O mosteiro dominicano com a sua igreja fortificada, erguia-se no alto da colina acima de sua casa, e os frades pregadores com as túnicas pretas e brancas da ordem, devem ter andado muitas vezes pelas ruas que os filhos dos Benincasa percorriam quando iam visitar os vizinhos e as irmãs casadas. Por outro lado, em sua casa viveu um rapaz que entrou depois para a ordem dos Dominicanos – Tommaso della Fonte – que era irmão de Palmiero della Fonte, casado com Niccoluccia Benincasa, e que tinha perdido os pais durante a peste de 1349, quando tinha dez anos, sendo recebido em casa dos sogros de seu irmão. O fato de Catarina ter um irmão de leite que queria ser dominicano e que vivia na mesma casa pode-a ter afetado mais do que ela pensava na altura, ou do que se podia recordar mais tarde.

O momento, porém, em que Catarina tinha tido a visão do Céu e recebido a benção do Salvador mudou-a para sempre. Era ainda uma criança, mas toda a gente em casa reparou que se tornara subitamente tão desenvolvida e tão extraordinariamente sensível que parecia uma pessoa crescida. Tinha sido iniciada. A alegre e pequena Eufrosina tinha vislumbrado a irresistível verdade que procurava em suas brincadeiras piedosas – tinha entrado nos mundos ilimitados do amor de Deus e do amor a Deus. Talvez compreendesse vagamente que as suas orações e meditações serviriam para se preparar para receber um chamamento – não sabia ainda bem o que seria – que viesse um dia d'Aquele que ela vira na visão e que a tinha abençoado com a mão estendida.

Qualquer que fosse a origem do seu conhecimento das vidas e obras dos santos, o que é certo é que Catarina tentava agora imitá-los o melhor que podia na vigilância e no ascetismo. Ao contrário da maioria das crianças, à medida que crescia tornava-se mais sossegada e comia cada vez menos. Durante o dia, seu pai e os outros homens da casa trabalhavam nos serviços da tinturaria na cave, enquanto a mãe e as restantes mulheres andavam ocupadas na grande cozinha, que era também a sala de estar da família – uma grande dependência no cimo da casa, com um terraço em frente, circundado por pequenos arbustos e vasos de plantas, onde a roupa lavada flutuava ao vento. Entretanto, os quartos do andar intermédio permaneciam vazios quase todo o dia. Catarina procurava então a solidão de um destes quartos e às escondidas batia nos seus magros ombros com um pequeno chicote.

Naturalmente que as outras jovenzinhas da vizinhança em breve descobriram isto, pois as crianças nunca respeitam a necessidade que uma pessoa possa ter de estar sozinha; queriam então fazer o mesmo que Catarina, porque se tinham habituado a imitá-la em tudo. Reuniam-se, pois, num outro canto afastado da casa, e batiam-se a si próprias, enquanto Catarina rezava o pai-nosso e a ave-maria tantas vezes quantas achasse necessárias. Era tudo feito em segredo delicioso, e o grupinho de pequenas irmãs de penitência devia-se sentir altamente edificado e feliz. Era também, como observava Raimundo, um prólogo para o futuro.

Mas algumas vezes Catarina ansiava por libertar-se dos companheiros, especialmente dos rapazes. Então, conforme sua mãe contou depois a Raimundo, ela costumava subir as escadas tão depressa, que Lapa tinha a certeza de que não pisava os degraus – era como se flutuasse. Isto aterrorizava a mãe, porque tinha medo que ela caísse e se machucasse. A ânsia da solidão e as lendas dos Padres do Deserto, em que ela tanto tinha pensado, faziam com que Catarina sonhasse com uma caverna num sítio ermo, onde pudesse esconder-se e conversar apenas com Deus.

Uma bela manhã de verão, Catarina guardou um bocado de pão e saiu sozinha em direção da casa de sua irmã casada, perto da Porta di San Ansano. Mas desta vez ultrapassou a casa da irmã, saiu da cidade e, pela primeira vez na sua vida, a pequena menina contemplou o tranqüilo Valle Piatta e os campos verdejantes. Estava tão acostumada ao seu mundo, com as casas umas em cima das outras na encosta, as ruas estreitas, a multidão a pé ou a cavalo, os burros, os carros de bois e as parelhas de machos, os cães e – membros infalíveis de todas as famílias italianas – os gatos, que deve ter pensado, com certeza, que este outro mundo, verdejante e calmo, era o deserto. Por isso continuou a andar, à procura de uma caverna. Nas colinas calcárias que ladeavam o vale havia muitas grutas, e logo que Catarina encontrou uma que lhe pareceu mais apropriada, entrou e ajoelhou-se.

Começou então a rezar com a maior devoção possível; e no instante a seguir foi percorrida por uma sensação extraordinária – era como se a erguessem do solo da caverna e a fizessem pairar sobre o teto. Teve receio de que isto fosse talvez uma tentação do Demônio, procurando amedrontá-la para não rezar mais. Continuou, pois, a orar com mais devoção e com mais firmeza. Quando despertou deste transe e se viu ajoelhada no solo da caverna, eram horas das Noas – três da tarde, a hora em que o filho de Deus morreu na cruz.

Veio-lhe então como uma inspiração do alto – que Deus não queria que ela fosse uma ermitã; Ele não queria que ela castigasse seu frágil corpo de forma a receber privações maiores do que eram apropriadas a sua idade, também não devia querer que ela abandonasse a casa de seus pais desta maneira. Foi um penoso regresso; estava cansada e receava ter assustado terrivelmente os seus pais – talvez eles pensassem que ela os tinha deixado para sempre. De novo orou com afinco, desta vez para poder chegar a casa a salvo; e de novo teve a estranha sensação de flutuar. Quando isto lhe passou, encontrava-se diante do portão da cidade. Correu então para casa o mais depressa que podia. Mas ninguém prestara grande atenção ao fato de ela não estar lá; julgavam que se encontrava em segurança, em casa da irmã. E ninguém soube da sua tentativa de se tornar ermitã, até Catarina o ter dito ao seu confessor, muitos anos mais tarde.

A sonhadora criança via como os adultos e as outras crianças a sua volta preocupavam-se com uma série de coisas que a Bíblia chamava “o mundo”. O seu mundo – um mundo em que ela ansiava penetrar mais profundamente – parecia estender-se para lá do que ela apercebia com os seus sentidos físicos. Era um mundo celestial, que ela tinha sido autorizada a contemplar só por um instante, quando viu Nosso Senhor regiamente sentado entre as nuvens, por cima dos telhados de S. Domingos. E a oração era a chave para entrar nesse mundo; mas a criança já tinha descoberto que também podia entrar nele por um caminho espiritual, sem se ver ou ouvir qualquer coisa com os sentidos exteriores.

A mãe e o pai, as irmãs e os irmãos, eram todos bons cristãos. Mas ficavam satisfeitos ao beberem dessa mesma fonte que fazia com que Catarina estivesse sempre com sede, por mais que bebesse. Rezavam, iam à missa, eram prestáveis e generosos para com os pobres e para os servos do Senhor, mas por vezes dedicavam-se resolutamente àquelas coisas que Catarina iria considerar cada vez mais como obstáculos que a impediam de realizar o desejo do seu coração. E por mais cuidado que houvessse em preservar os filhos dos Benincasa das más influências, eles não podiam deixar de vir a conhecer alguma coisa do orgulho dos cidadãos ricos, das rixas e das lutas entre homens grosseiros e sequiosos de sangue, e da vaidade das mulheres mundanas.

O coração de Catarina ardia em desejos de salvar todas aquelas pobres almas que se tinham afastado do amor de Deus, amor esse que ela já tinha experimentado de forma a ter antegozo da glória do Céu. Desejava poder tornar-se uma das pessoas que trabalham para salvar as almas dos homens – por exemplo, os dominicanos, porque ela sabia que essa ordem tinha sido fundada exatamente com tal objetivo. Muitas vezes, quando via os dominicanos passarem por sua casa, reparava por onde iam, e depois de passarem, saía de casa e ia muito respeitosamente beijar o sítio em que os pés deles tinham pisado.

Mas se ela tivesse qualquer dia a possibilidade de participar do trabalho destes frades e de toda a boa gente dos mosteiros e conventos, e conseguisse que as preocupações e prazeres que ocupavam tanto o tempo e os pensamentos de sua mãe e das irmãs casadas, não a expulsassem da sua vida secreta, então ela teria de permanecer sempre virgem. Isto compreendia ela bem: com sete anos apenas, já havia suplicado à Virgem Maria que intercedesse por ela, pois desejava ardentemente entregar-se ao Seu Filho Jesus Cristo, e ser Sua Noiva. “Amo-O com toda a minha alma, e prometo-Lhe, e a Vós também, que nunca arranjarei outro Noivo”. E ela rezava ao seu Noivo do Céu e a sua Mãe, para que a ajudassem, para que se conservasse sempre pura e sem mácula no corpo e na alma.

Uma menina italiana de sete anos, nos nossos dias, é mais desenvolvida que uma criança da mesma idade nos países nórdicos ou anglo-saxões, e na Idade Média as crianças de toda a Europa desenvolviam-se muito mais rapidamente do que hoje; na própria Noruega, consideravam os rapazes e as donzelas de quinze anos já preparados para o casamento. No Romeu e Julieta, Lady Capuleto recorda à filha, que ainda não tem catorze anos, que:

... mais novas do que tu.
Aqui em Verona, senhoras respeitáveis
já são mães ...

Apesar de tudo, quando Catarina fez o voto de castidade, ainda não devia saber muito sobre os instintos do corpo e da alma, a que ela jurara nunca obedecer. As tentações da carne, nessa altura, significavam apenas duas coisas para ela: o apetite – o apetite salutar da comida que toda a criança saudável sente na idade do crescimento (e Catarina, embora já secretamente tivesse começado a praticar o espírito de sacrifício, era uma menina saudável) – e, em segundo lugar, o receio do sofrimento físico. Este último já ela tinha começado a combater, disciplinando-se com a penitência do chicote mais vezes do que antes. A fim de dominar o seu apetite, limitava-se a comer pão e vegetais; as grandes pratadas de carne, que lhe serviam às refeições, passava-as às escondidas para Stefano, que se sentava ao lado dela, ou para os gatos que miavam debaixo da mesa. Claro que quer o rapaz, quer os gatos, aceitavam com prazer estas rações extras. E a grande família sentada ao redor da mesa bem fornecida de Mamma Lapa, nunca pareceu reparar no que acontecia lá para o fundo, onde ficavam os membros mais novos.

Mas não podiam deixar de reparar que Catarina se ia tornando cada vez mais paciente e mais calma. Muitos anos mais tarde, chegou a chamar paciência à essência da piedade, e dado o fato de a graça divina não alterar a nossa natureza, antes de a aperfeiçoar, somos levados a acreditar que esta jovem, que mais tarde, com uma energia e uma coragem que inspiravam respeito, iria fazer tudo o que as suas visões lhe diziam ser vontade de Deus, devia ter realmente nascido com uma reserva desusada de obstinação natural. Mas foi sempre obediente aos pais e recebia com paciência as censuras da mãe – porque Lapa tinha sempre tanto que fazer em sua casa, tantas pessoas a tratar, que facilmente se encolerizava e dava rédeas soltas à língua quando estava aborrecida. Mas nessa altura a família de Catarina ainda estava muito satisfeita com o seu comportamento exemplar, e admiravam-na porque a julgavam mais sensível do que era de esperar na sua idade, e muito piedosa, e delicada.

Foi talvez por já saber a alegria que sua filha favorita sentia, quando mandava fazer tais recados, que Lapa pediu uma manhã a Catarina que fosse à igreja paroquial oferecer uma certa quantidade de velas e dinheiro para o culto, e pedir ao padre para celebrar uma missa em honra de Santo Antônio. Este santo mostrara sempre durante toda a sua vida, tanta compreensão e simpatia pelas preocupações e tristezas das mulheres do povo, que todas as mães e donas de casa o consideravam como um amigo especial que tinham no Céu. Catarina foi e fez tudo o que a mãe lhe dissera; mas queria tanto participar dessa missa, que ficou na igreja até ela acabar e voltou para casa muito mais tarde do que a mãe esperava – Lapa tinha-lhe dito que viesse embora logo depois de falar com o padre. Recebeu, pois, a filha com um provérbio que se usava em Sena quando alguém chegava demasiado tarde e sem justificação :”Malditas sejam as más línguas que me disseram que tu nunca mais voltavas.”

A menina não disse nada ao princípio; depois puxou a mãe para o lado e disse-lhe, com um ar sério e humilde: “Querida mãe, se eu fizer qualquer coisa de mal, ou de menos bem do que queria que eu fizesse, bata-me para lembrar e portar melhor na próxima vez; é justo que o faça. Mas peço-lhe que não amaldiçoe ninguém, seja boa ou má pessoa, por minha causa. Não é próprio da sua idade, e rasga-me o coração”. Isto causou profunda impressão em Lapa, porque sabia que a filha tinha razão. Mas tentou mostrar-se insensível e quis saber porque demorara tanto. Catarina explicou-lhe então que tinha ficado na igreja para assistir à missa. Quando Jacopo chegou a casa, Lapa contou-lhe tudo o que a filha tinha feito e lhe tinha dito; Jacopo ouviu, silencioso e pensativo, e intimamente deu graças ao Senhor.

Desta forma Catarina cresceu até se tornar uma adolescente e descobrir que estava diferente, e que o mundo a sua volta também estava diferente.

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