sábado, 4 de setembro de 2010

O recolhimento de Nazaré

O RECOLHIMENTO DE NAZARÉ


Tais princípios de profundidade, como vimos na anunciação, só podiam se desenvolver no recolhimento, sob certo aspecto, mais admirável ainda de Nazaré, em que três criaturas perfeitíssimas, de importância universal se recolhem na profundeza da vida cotidiana.

Envolver-se alguém em um mistério, esconder-se no seio de uma Virgem ou no silêncio de uma oração, cobrir-se com a força do Altíssimo, parece sempre, aos olhos da imperfeição humana, alguma coisa de honroso, de sublime.

Mas ocultar-se alguém na simplicidade das coisas de cada dia, no prosaísmo do dever cotidiano, parece coisa de todos, até mesmo mais próprio das almas pequenas e sem idéias. Eis o heroísmo desconhecido do recolhimento de Nazaré!

Entremos, por instantes, naquele recolhimento fecundo em que vive a trindade da terra: Jesus, Maria e José. Como tudo é cheio de silêncio e de paz! Que bem faz à alma que se arrancou do bulício do mundo, ou, ao menos, da dissipação da sua vida, este mistério de escondimento, em que se reduz a nada a vaidade e a ostentação deste mundo e se dá todo valor às ações, por pequenas que sejam, que pesam para a eternidade.

Lá está José, ilustre descendente de Davi, na sua banca de carpinteiro a aplainar madeira, com a mesma dignidade e atenção, como se estivesse a realizar uma obra de arte. Não se preocupa com as vaidades do mundo, nem com os boatos das ruas, mas todo entregue ao seu trabalho humílimo, sabe que está cooperando para a reforma do mundo. De sua madeira, ele só tira os olhos para levantá-los ao céu, tão pertinho dele. Pois, não é céu, Maria? Não é céu, Jesus? E não eram eles todo o seu enlevo?

Eis o motivo de seu silêncio, de seu recolhimento. O trabalho e a oração eram toda a sua vida. Trabalho e oração, transformados em Amor, que beatificava a sua solidão.

Aqui se podia aplicar, maravilhosamente, a palavra de Ruysbroek: "O justo vive em um inviolável recolhimento". José, o justo, por excelência, apregoado pela Sagrada Escritura, vive, cresce, trabalha, se aperfeiçoa e se santifica, em um recolhimento que nem o mundo exterior, com todas as suas seduções e mentiras, nem o mundo interior com suas fantasias e más inclinações, conseguem violar. Varão feliz!

Que seu exemplo nos empolgue. Que a força de sua concentração nos vença e nos estabeleça naquele ambiente em que o trabalho, quer manual, quer intelectual, produz tudo o que pode produzir para a terra e para o céu.

E se já contemplamos, extasiados, o recolhimento singularíssimo da Virgem da Encarnação, olhemos para o Seu recolhimento humilde, na modesta habitação de Nazaré. Lá era o recolhimento do mistério, aqui, o recolhimento do lar: recolhimento de mãe, de esposa, de dona de casa.

A Santa Senhora se concentra naquele pedacinho do céu, Sua casa privilegiada; a esposa santa se concentra naquele varão justíssimo, envolvido todo de recolhimento; a mãe santa, e aí a concentração atinge o sublime, se concentra em Seu Filho, no Seu Jesus, que é Seu Deus e Seu tudo.

Aí, mas do que nunca. Maria guardava em Seu coração as palavras, guardava as ações, guardava os afetos e ensinamentos, que, ricamente, enchiam a pobreza daquele lar. E, sem desperdiçar um só de Seus olhares ou de Seus pensamentos, uma só parcela de Seu tempo, de Sua atenção e de Seu cuidado, era toda para a Sua casinha, cujo encanto a gente só imperfeitamente imagina; era toda para São José, era, principalmente, toda para Jesus.

Foi, sem dúvida, neste ambiente de Nazaré que Ela Se encheu daquela devoção, isto é, daquela prontidão e carinho para com as coisas de Deus, que, vinte séculos depois, nós, impressionados, santamente, ainda A invocamos: Receptáculo insigne de devoção, rogai  por nós!

E, chegando ao ápice, quando encontramos envolvidos neste recolhimento modestíssimo de Nazaré, não só José e Maria, mas até mesmo o Verbo humanado, Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Ó escondimento sublime! Um Deus que Se oculta na vida cotidiana, nos trabalhos caseiros e nos serviços ordinários de uma oficina pobre. Que exemplo de mestre para a ostentação humana!

Era ali que Ele crescia em idade, sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens, inteiramente submisso e obediente a José e a Maria.

Entretanto, o Verbo feito homem viera ao mundo para pregar uma doutrina nova, doutrina que seria confirmada por milagres estupendos. Viera para salvar os homens perdidos, indicando-lhes o caminho da verdadeira e única casa paterna, viera para sofrer um martírio de horrores. Pois, parece que, esquecido de tudo isso, a Luz Se esconde sob o alqueire, pouco cuidadoso dos cegos que viera iluminar.

Justamente aí está o ensinamento de que o mundo tanto e tanto precisa.

A força que vence não está fora, está dentro de nós. As ações humanas não se medem ou pesam, pela sua retumbância, e, sim, pela sinceridade e amor com que são feitas.

Uma mesa tosca, diante de Deus, pode valer tanto ou mais do que o mármore trabalhado por mão do artista; uma plaina de carpinteiro pode valer tanto como o pincel de afamado pintor ou a pena de um clássico; o cicio humilde de um padre-nosso bem rezado pode concorrer mais para a paz social do que furioso discurso contra as injustiças dos ricos. E, talvez, se compreenderá um dia como os pés chagados de São Francisco de Assis caminharam mais para a verdadeira cultura e civilização, do que a rapidez fantástica dos aviões modernos.

Tudo isso e muito mais nos ensinou o Verbo Humanado, o Mestre, o Tamaturgo, o Salvador, juntando aparas e acendendo o fogo, no recolhimento incompreendido de Nazaré.

E, sem dúvida, para Sua missão, muito mais significativa do que o grito triunfal "Hosana ao Filho de Davi", foi a palavra de desprezo: "Eis o filho do carpinteiro".

Ó recolhimento magistral de Nazaré, estendei-vos pelo mundo, subjugai as almas, as nossas almas, vazias, enfatuadas...

(Recolhimento, pelo D. Fr. Henrique Golland Trindade O. F. M, bispo de Bonfim, edição 1945)

PS: Grifos meus.
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