quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O esforço pessoal de redenção

O esforço pessoal de redenção


Para este mundo dilacerado por tantas calamidades e cenário comum de paixões contrárias, o cristão traz seu ideal e luta por realizá-lo. Traz seu ideal, mas o mundo não parece disposto a acolhê-lo. Como Maria e José ao chegarem em Belém o cristão tem a impressão de que tampouco há lugar para ele. E às vezes é assaltado pela tentação de evadir-se e deixar os outros homens nas suas lutas inglórias, para retirar-se e viver na contemplação das verdades eternas.

E apesar disso, Deus o colocou neste mundo para que ele "o cultive e o conserve".

Esse trabalho se oferece ao cristão durante toda a vida: na vida privada, familiar, profissional, cívica, enfim, em todos os instantes de sua existência. A cada passo deve agir, ou reagir como cristão num mundo que não o é.

Deve redimir-se e redimir-se o mundo. Depois do pecado original somente o esforço doloroso sobre si mesmo permite ao homem livrar-se do mal e marchar para Cristo. Em todas as épocas da história da Igreja, ou da humanidade, foi, como é, necessário o mesmo esforço de cada um dos homens. E o esforço redentor; sem a redenção não há cristianismo. Se Cristo redimiu a humanidade com o Seu sangue, resta a cada homem aceitar que lhe seja aplicado o resgate do Calvário; e seu assentimento torna-se efetivo pelo sacrifício pessoal que é uma extensão do sacrifício de Cristo.

Fala-se muito em nossos dias de estabelecer uma ordem social cristã, para que os homens se rejam por instituições inspiradas nos preceitos do evangelho. Realmente, isto é o que todos nós desejamos.

Nada mais justo que considerar esta ordem social cristã como a meta para a qual tendemos. Porém seria uma ilusão pensar que virá o dia em que a vida cristã decorrerá inevitavelmente das instituições estabelecidas.

Jamais se viu uma sociedade tal que nela florescesse naturalmente a vida cristã pelo simples jogo das leis e dos costumes, ou pelo respeito que lhes é tributado. E aquele que confiou demasiadamente em uma religião tradicional (de práticas convencionais e quiçá rotineiras) jamais pode resistir a abalos muito rudes. Nunca foi bastante aplicar a um dado dado uma fórmula prevista, para que o resultado obtido fosse perfeito.

"Meu reino não é deste mundo". Não devemos esperar que o reino terreno chegue um dia a ser a réplica do Reino dos céus, que a fraqueza atraia as honras ou que a humanidade ganhe riquezas.

Nos primeiros séculos, alguns cristãos imaginaram um reino temporal em que Jesus Cristo, durante um milênio, governaria o universo habitado. Desde muito, porém, ninguém pensa já em ver realizado semelhante sonho. Mas quiçá acariciemos a esperança e ver um dia surgir uma era de cristandade, em que os valores religiosos serão reconhecidos autênticamente e praticados com facilidade.

Querer que se estabeleça uma ordem mais cristã é, sem dúvida alguma, uma excelente empresa, mas com a condição de que não pensemos que chegará um dia em que o cristão - decidido a realizar o evangelho - não terá mais que observar sem grande trabalho as normas estabelecidas.

Quero dizer com isto que o cristão sempre deve estar em guarda contra a tendência que aflige a todo o homem e à sociedade, de cair pelo próprio peso na mediocridade. Enquanto que, para fazer o mal, basta que nos deixemos levar, o bem exige sempre um esforço. Não podemos dormir sobre nossos triunfos, declarando como os judeus: "nosso pai é Abraão". (João 8, 39)

Além disso, as condições de vida são sempre novas para cada homem e para cada geração. Elas nos obrigam a aplicar os princípios eternos do cristianismo em terrenos ainda não explorados. Os cristãos do século XVII não conheceram nem as sociedades anônimas, nem o sistema atual de empréstimos bancários, nem a democracia, nem o facísmo, nem o comunismo. Portanto não podemos contentar-nos em imitar suas atitudes; não podemos fugir ao esforço pessoal.

Ainda imaginando uma ordem mais favorável ao florescimento das virtudes cristãs, o reino de Jesus Cristo, mesmo assim, nunca será deste mundo, "e aqueles que o queiram conquistar deverão no futuro como no passado, fazer violência".

Ao tempo de São João Batista, os judeus, possuidores do reino, eram "o povo escolhido". João Batista, e mais tarde Jesus, desenganaram-nos. Cristo não reconhece como Seus discípulos aos que se contentam em pertencer oficialmente a uma sociedade escolhida, e em repetir: "Senhor, Senhor". Pelo contrário, "os que fazem a vontade do Pai", "os que fazem violência", os que colaboram na redenção, só esses alcançarão o Reino eterno.

O ensinamento de Cristo é sempre atual e sempre verdadeiro: "Quem quer ser Meu discípulo, renuncie-se a si mesmo". Não serão excluídos, na lista das bem-aventuranças, aqueles que forem perseguidos por amor à justiça, e sempre se verificará a palavra de São Paulo: "Quem quer viver santamente em Cristo sofrerá perseguições".

(Cristãos no mundo, pelo padre E.Roche S.J, tradução de Jovany de Sampaio, editora mensageiro da fé, ano de 1948)

PS: Grifos meus.
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