sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

III- A CHAVE DOS CORAÇÕES

A BELEZA DE MARIA
III PARTE


III- A CHAVE DOS CORAÇÕES

A verdadeira beleza - já o dissemos no início deste quarto motivo - é a beleza da alma, é a virtude. Ora, a virtude é o verdadeiro e o bom; portanto, fora dela, tudo é mentira ou erro.

É verdade que a beleza da alma, do coração e do espírito é uma qualidade abstrata, que não cai diretamente sob os nossos sentidos; por conseguinte, ela nos impressiona menos que uma qualidade exterior ou mais tangível.

Nada há comparável com o homem interior, o contemplativo até à alma, e se deixa encantar e cativar pelo íntimo. O comum dos homens ignora demais o gozo destas belezas e permanece demais na superfície, não se deixando impressionar senão pelo que podem perceber, donde se segue que a beleza exterior se torna "a chave dos corações".

E Deus, que quis fazer de Maria uma "arrebatadora dos corações", como diz S.Bernardo, devia dar-lhe ainda este encanto, este atrativo, a fim de que todos os corações se abrissem à Sua presença e se sentissem cativos desta pura e inefável beleza.

Se, entre nós, toda alma verdadeiramente grande aparece, por assim dizer, sobre o rosto e lhe transfigura os traços; se à medida que nos tornamos mais perfeitos, se reflete sobre a nossa fronte uma beleza sobrenatural que comove, que não deveria ser desta fisionomia em que apareceu a alma mais nobre que houve depois que Jesus Cristo; o que não deveria ter sido este olhar em que brilhavam a majestade na humildade e a doçura na força; o que não deveriam ter sido estes lábios em que se ostentavam a bondade e a mais condescendente benevolência?...

Inteligência profunda, coração incomparável, espírito superior e tudo o que encerra a beleza moral, aliado ao que a beleza física tem de mais expressivo e mais atraente, não era este o apanágio e auréola sagrada da pura e imaculada Mãe de Jesus?...

Sim, havia harmonia perfeita entre as luminosas perfeições interiores e Sua expressão visível no exterior. E teria faltado qualquer coisa à excessiva nobreza de nossa Rainha, se os Seus membros não tivessem possuído o encanto exterior pelo qual os homens se deixam vencer facilmente, e se não tivesse tido, para chegar aos corações, esta chave mágica que lhe dá tão facilmente acesso?...

Como é bela a alma imaculada de Maria, passando através do corpo, irradiando-se nos traços de Seu rosto, como um raio de sol través da folhagem das árvores, pois Deus, na Sua industriosa sabedoria, quis que a nossa carne, por vil e grosseira que seja, tivesse, entretanto, esta glória de se deixar penetrar pelo espírito. Ela não é o invólucro opaco de uma luz absolutamente oculta, mas, trabalhada por Deus, ela se espiritualiza e se esvazia e se torna diáfana.

Nela Deus prepara aberturas secretas pelas quais a alma vem à luz. Com que alegria nós saudamos sobre um rosto amado esta aparição da alma! Da alma, digo, que se revela tão terna e luminosa no olhar, tão casta e pensativa nos contornos da face, tão compassiva e carinhosa num não sei quê de Seus lábios, tão graciosa no sorriso, tão indefinidamente misteriosa neste conjunto que chamamos "a expressão".

A expressão: isto é, a alma, o coração e o espírito vistos através de um véu e se desembaraçando deste véu incômodo para irradiá-la até ao âmago dos corações, para aí levar o seu reflexo e gravar a sua imagem.

Oh! sim, esta beleza era a Vossa, ó encantadora  Mãe. Tudo o que havia em Vosso coração de amor puríssimo, de bondade, de generosidade, de heroísmo, de resignação, de piedade e de caridade para com os homens, se devia reunir em um único facho de viva luz; e qual não devia ser o brilho desta luz inefável, manifestando-se no Seu olhar e aflorando aos Seus lábios?...

Quem tentará dizê-lo? Já é muito imaginá-lo.

Sem o querer e quase a meu pesar vem o espírito um pensamento e, se não houvesse dissonância entre o nome do autor e o assunto de que tratamos, quereria colocá-lo: é de Platão.

Há uma simpatia íntima, diz este filósofo, entre a pureza, a verdade e a beleza; o que é mais puro é essencialmente o mais verdadeiro e o mais belo.

Não é isso um resumo da beleza de Maria?

Que pureza encontramos nós na Virgem e, portanto, que beleza!
Sua beleza era mais divina que humana.

Os sentimentos que Ela inspirava às almas deviam ser celestes.
Ela tinha a virtude da beleza.

O grande S. Dionísio Areopagita, tendo estado à presença da Santíssima Virgem, ficou de tal modo deslumbrado pelo esplendor da beleza e da majestade que resplandeciam de Seu rosto, que caiu por terra. Tendo, em seguida, voltado a si, alegrou que, se São Paulo não lhe tivesse ensinado um outro Deus e que se a fé não o tivesse feito já adorar, ele teria crido firmemente que a divindade não podia ter escolhido outra sede na terra do que a fisionomia dEsta santa soberana.

A respeito desta consideração, exclama Santo Anselmo: "Ó Virgem santa, Vossa beleza é tão rara que se diria não terdes sido criada, senão para deslumbrar os corações daqueles que contempláveis. Ó Virgem admirável e admiravelmente única!" (Liber. Orationum)

"À exceção de Deus, já antes dele, dizia Santo Epifánio, Ela sobrepuja todo o resto em beleza. Ela está acima dos querubins e dos serafins e foi ornada da mais perfeita beleza".

São Bernardo vai ainda além e diz que "a beleza da Santíssima Virgem, tanto da alma como do corpo, é tão grande, que chegou a cativar a afeição do Rei da glória". (Serm. de S.Delp.)

Santo Agostinho, enfim, exclama com admiração: "Ó Maria, depois do celeste Esposo, sois toda beleza e toda agradável, toda glória, sem mácula, ornada de toda beleza e enriquecida de toda santidade". (Serm. de Incarnat. Christi)

Que poderíamos acrescentar a tais encômios?...

"Pode-se, pois, sem medo de errar, como diz o Pe. Bethier, reconhecer-Lhe todos os dons da natureza, que Deus concedeu a todas as criaturas, pois não se pode crer nem é piedoso pensar que o Senhor, que é tão liberal em Seus dons para com os mais ínfimos seres, se tenha mostrado avaro para com a Sua divina Mãe". (A Virgem Maria)

Portanto, Ela era bela, possuindo todos os encantos da natureza e da graça. Tudo o proclama!

Aliás, todas aquelas criaturas que A figuraram na Bíblia eram amáveis e fortes. Ela própria devia ser o símbolo de todos os encantos e de todos os esplendores da virgindade, da humildade e da força.

Necessário foi, pois, que houvesse razões bastante poderosas, para que a beleza de Sua alma não fosse de modo algum visível em Seus traços e que um organismo estiolado servisse de suporte a estas energias sobrenaturais.

"Não há dúvida alguma, dis Santo Alberto Magno, que, assim como o Seu divino Filho era o mais belo dos filhos dos homens, Maria tenha sido a mais bela das filhas de Eva. Ela era dotada de toda a beleza de que é suscetível um corpo mortal".

Os santos padres e doutores são como inesgotáveis, ao falarem de Maria. Aliás, o Espírito Santo resumiu-os todos, ou, antes, eles todos não são mais que o eco longínquo da palavra do Espírito Santo: "Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te. Sois toda bela, ó minha muito amada, e em vós não há mácula alguma".

A beleza, já o  dissemos, é a chave dos corações.

Oh! possa a celestial beleza da Virgem Maria fazer impressão sobre o nosso coração, abri-lo todo à dedicação e à inteira veemência de amor que deve suscitar a Sua beleza e a Sua graça: "Specie tua, et pulchritudine tua, intende, prospere procede, et regna!"

"Pelo aspecto de Vossa beleza, ó Virgem Santíssima, vinde e reinai sobre nós!"

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.
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