terça-feira, 8 de março de 2011

XII - O primeiro Pilatos: nada de questões

XII - O primeiro Pilatos: nada de questões


A personagem de Judas é repugnante, o papel de Caifás revoltante; o de Pedro é doloroso. Pilatos é triste. Nada mais complexo do que a cena do Pretório. A bem dizer, é o único episódio que apresenta um drama em resumo no grande drama do conjunto. Em qualquer outro caso, o assédio está feito: Judas sabe o que quer; Anás e Caifás ainda mais; quando Jesus comparece perante eles, já está condenado: todo o aparato que se ostenta é uma sinistra encenação. “A sentença já estava decretada, buscavam-se só pretextos”. (E. Renan, Vida de Jesus, XXI.) Pedro, este é surpreendido; em todo caso, esboça pouca resistência para defender seu Mestre.

À primeira palavra da porteira, começa a trair. Pilatos é o único, nesse conflito de paixões e interesses caldeados, que sinceramente procura salvar Jesus. Porquanto não há dúvida alguma sobre este ponto: ele queria arrancá-lo ao suplício que vêm requerer dele: Quaerebat Pilatus dimittere eum (Jo 12,2).

E é o que torna tristemente dramática a personagem de Pilatos. Ele não sabe querer; flutua, não quisera condenar o inocente, e manda-o ao suplício proclamando que Ele nada fez de mal. O medo, a fraqueza, o respeito humano podem, pois, num dado momento, sufocar os melhores sentimentos do homem. É isto que é triste. A fraqueza no ódio e no crime é ainda preferível: chega ao mesmo resultado, mas sabe e quer esse resultado.

Jesus perante Pilatos é o eterno conflito do dever perante o interesse próprio: nada é mais pungente na cena íntima do coração do homem.

Pilatos é o melhor representante desse interesse a braços com a consciência. Passa por todos os sentimentos que experimentamos quando há luta entre o dever e a paixão.

De começo, Pilatos enfada-se com aquele embaraço. É o primeiro instinto de todo homem de posição que aceitasse gostosamente as honras, desde que lhe não dessem nenhum cuidado. – Nada de questões. – A virtude administrativa de certos homens não vai, amiúde, além dessa destreza em evitar, em contornar as dificuldades, ou em fazê-las jeitosamente resvalar sobre outro. É o primeiro Pilatos.

Anunciam-lhe, desde a manhã, que lhe vão trazer Jesus. Ele não está sem ter ouvido falar de Jesus, todos falavam dEle. Sabia ainda muito bem – a polícia romana não contraviera a nenhuma lei essencial: então que queriam dele Pilatos?

Por outro lado, Pilatos sabia-se impopular entre os Judeus; não gostava, assim, de entrar em contato com eles.

A sua impopularidade datava de longe (Fouard, Vida de Jesus Cristo, t. 1, I. II, c. 1. – Josefo, Antiguidades judaicas, 1. XIII, c. IV). Desde a assunção do cargo, quisera ele, como todos os que estréiam arvorar-se em senhor absoluto: assim, prentedera instalar em Jerusalém uma guarnição com os seus estandartes. Favorecidas pela noite, as tropas haviam entrado. Grande alvoroto do dia seguinte: a cidade subleva-se, corre-se até Cesaréia, onde se achava o procurador, a pedir-lhe a retirada daquela soldadesca ofensiva. Recusa de Pilatos, teima dos Judeus, clamores excessivos durante cinco dias. Maçado, manda Pilatos carregar contra os recalcitrantes; deitam-se todos imediatamente no chão, declarando que lhes hão de passar por cima, mas eles não cederão uma polegada dos seus direitos. E Pilatos cede. Foi assim que ele estreara.

Desgostoso consigo mesmo e com os outros, daí a algum tempo ele ensaiava de novo a sua autoridade. Desta vez são escudos de ouro portadores do nome das divindades pagãs que ele suspende, em Jerusalém, aos muros do seu palácio vizinho do templo. Novas borrascas: o povo entra em fermentação, quer fazer tirar aquelas insígnias profanas. Há resistência; todo aquele barulho acaba por atravessar os mares, e logo, a uma ordem de Tibério, Pilatos é forçado a ceder ainda. Decididamente, faltava-lhe jeito, pois corria risco de não ser prestigiado junto aos altos poderes.

Como sucede aos espíritos fracos e, todavia bem intencionados, tenta ele então agradar.

Jerusalém carecia de água: quer-lha ele trazer por meio de um gigantesco aqueduto. Iam os trabalhos começar, quando um boato se propala entre o povo: - Vão empregar naquela construção os rendimentos do templo! Novamente os Judeus se amotinam, e lançam-se sobre os operários. Faz-se mister parar o trabalho, e Pilatos tem de ceder ainda.

Tudo isto faz-nos compreender a mentalidade e o caráter desse homem. Um primeiro movimento no sentido da autoridade ou da bondade; depois, ante o obstáculo, há primeiramente contumácia de parte a parte; a dificuldade cresce, a contumácia acarreta a violência, mas de repente a imagem de Tibério surge no horizonte qual espectro ameaçador. Se Tibério ainda tem de intervir, adeus do Procurador inábil que de longe dá esse cuidado de amo.

E Pilatos cederá.

Por isto mesmo, ele já tomou este partido. Desde aquelas três questões mal-afortunadas, como ele não quer mais conflitos com aquele povo fanático da sua lei e do seu Deus, retira-se pelo ano todo para Cesaréia, naquela bela planície de Saron, onde florescem as laranjeiras e onde se estendem as longas searas douradas. A residência era agradável; ela a tornava régia.

Quando muito, aparecia em Jerusalém pelas festas da Páscoa; mas conservava-se fechado na Antônia, onde era o seu Pretório, e cercava-se então de todo o aparato do poderio militar, como para mostrar estar pronto para a repressão. De fato, porém, a sua autoridade era suportada como a sua presença: não era aceita.

Ora, por uma secreta fatalidade, era justamente durante uma daquelas curtas permanências, na véspera daquela grande festa da Páscoa, que o embaraço tão cuidadosamente evitado e o conflito temido se lhe apresentavam sob a forma e a presença de Jesus. Compreende-se o mau humor do Procurador quando o vieram incomodar naquela manhã da véspera das Páscoas judias.

Esse mau humor cresce ainda de ponto quando lhe dizem que os Judeus não querem entrar: vedava-o a lei deles, pois se inquinariam com a presença de um pagão – fosse ele Procurador, - e não poderiam, portanto cumprir naquela mesma noite o seu rito pascal. (Fouard, Vida de Jesus Cristo, t. 1, p. 369). Esta exigência era, pelo menos, impertinente; forçosamente, deve ter duplicado o azedume de Pilatos. Mas ele cede ainda, cede sempre. De que servia a resistência? Ele se lembra daquele povo a se deitar por terra, lembra-se, sobretudo dos escudos retirados por ordem de Tibério... em suma, sai, adianta-se, e, quase em cólera:

- De que é que acusais este homem?

Os Judeus sentiram o azedume secreto; respondem insolentemente:

- Se não fosse um malfeitor, não o teríamos trazido.

- Custodiai-o então vós mesmos, retruca Pilatos: tendes uma lei... – e havia nesta palavra um amargor que lhe relembrava um passado inteiro, - tendes uma lei, julgai-o segundo a lei, julgai-o segundo a vossa lei. Isto equivalia a dizer: Deixai-me sossegado; nada de questões, sobejas já as tive convosco. Eis aí todo o primeiro Pilatos.

Ele existe ainda; temo-lo encontrado em nós e nos outros. Nós não queremos ser incomodados nem mesmo por Deus. Se Ele se torna um empeço para os nossos negócios, para a nossa carreira e para o nosso acesso, buscamos a evasiva e implicamos talvez no mal, conosco mesmo, aqueles que nos cercam ou que de nós dependem. É difícil amar a Deus acima de alguma coisa, mormente se essa alguma coisa tem ligação com o nosso coração ou com a honra mundana.

Sem embargo, cumpre a todo transe receber tal e qual aquele prisioneiro estorvante. Jesus lá está, no meio dos soldados, sentindo a humilhação. Pilatos manda-O entrar. Teve tempo de apanhar no ar três capítulos de acusação que Lhe bradam os sacerdotes. É um agitador, - recusa pagar o tributo a César, - diz-se Rei dos Judeus.

O Romano despreza as duas primeiras acusações. Bem sabe que não são fundadas. A província está calma, e todos os impostos lhe advêm. Retém então o terceiro agravo, e, bruscamente, meio zombeteiro, meio irritado pergunta:

- É verdade que és o Rei dos Judeus?

Havia tal contraste no objeto da pergunta, entre a realeza e o ente miserando que estava em pé diante do Romano onipotente, que facilmente se compreende a amarga ironia que devia apartar num sorriso de dó os lábios do Procurador.

Jesus quer saber se lhe fazem seriamente a pergunta, e interroga:

- Dizeis isto vós mesmo, ou vo-lo disseram outros de Mim?

- Então eu sou Judeu, eu, - (o mau humor reapodera-se de Pilatos) – para saber o que é verdadeiro ou falso sobre este ponto? Vejamos: entregaram-te nas minhas mãos, os teus patrícios; que foi que fizestes?

Jesus desdenha responder a esta pergunta, mas retoma o fio da primeira interrogação que Pilatos parece desprezar, e fala da Sua realeza, afirma-a; Ele também tem soldados, mas o Seu reino não é deste mundo. Acusava assim o Seu título, a realidade dos Seus direitos, e a realidade também de um outro mundo, onde estavam a Sua corte, o Seu exército, o Seu poder.

- Então és mesmo Rei? insiste Pilatos.

- Sim, responde Jesus. E justamente vim desse outro mundo à terra para fazer conhecer a verdade sobre todas as coisas, sobre as da Minha realeza como sobre as do Meu Reino.

- A verdade! Prossegue Pilatos, cético e cismador; que coisa é a verdade?...

E sai.

O interrogatório lhe basta: ele tem diante de si um utopista, um alucinado, um místico, tudo, menos um criminoso.

- Mas, diz ele aos sacerdotes que esperam amotinados à porta, mas não há matéria alguma para condenação neste homem.

Ele punha nesta simples frase um tom de sinceridade, e também uma secreta satisfação. Não se lhe dava, com efeito, depois das exigências dos Judeus que vinham incomodá-lo e lhe impunham aquelas marchas e contramarchas, não se lhe dava de lhes mostrar a inanidade das suas acusações.

No pensamento de Pilatos, o incidente está, pois, absolutamente encerrado: não há sequer matéria para processo, como iria ele então condenar? É uma improcedência pura e simples.

E Pilatos manda trazer Jesus para soltá-lO e recolher-se em seguida ele próprio, contente de se haver desvencilhado tão comodamente de uma aborrecida questão.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy. S. J, tradução de Luís Leal Ferreira, III edição, Editora Vozes, continua com o post: O segundo Pilatos – Os expedientes)

PS: Grifos meus.
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