sexta-feira, 25 de março de 2011

O segundo Pilatos – Os expedientes

O segundo Pilatos – Os expedientes



A palavra de Pilatos, caindo no silêncio contido daqueles sacerdotes impacientes de sangue e de morte, foi seguida de um clamor imenso que surpreendeu e conturbou o procurador.

A vista de Jesus que chegava nas pegadas do Romano aumentou os brados e as exclamações: estes partiam da multidão; da multidão, já espessa e marulhosa, que ocupava o fundo da praça, sombria orla de onde se desprendiam murmúrios e surdos rumores denunciadores de profundezas de ódio insuspeitadas.

Pilatos poderia crer-se voltado aos maus dias de Cesaréia. Pensava só ter que ver com uma camarilha: os sacerdotes; e achava-se em face da multidão.

Até ele subia com concerto de furores e de acusações, e, inclinado sobre todas aquelas bocas ululantes, a custo podia o procurador precisar a forma e os matizes daqueles selvagens depoimentos. Cansado de lutar, voltou-se para Jesus e perguntou-Lhe, já um tanto ansioso:

- Estás ouvindo?

E, como Jesus Se calasse:

- Não ouves então de quantos crimes eles te acusam?

E Jesus nada respondeu. É provável que, destrinçando no meio dos gritos os principais agravos, Pilatos os fosse reproduzindo a Jesus; porque mais tarde ele dirá ao povo: - Bem vistes que eu o interroguei na vossa presença.

Jesus obstinava-Se em calar-Se, e isto muito admirava o juiz; pressentia este algo de anormal, de grande, quiçá de sobre-humano, naquele homem singular. Surge então o segundo Pilatos, que a todo custo quer livrar-se daquela pesada questão, mais ainda do que livrar Jesus. Porque aquela questão subitamente se ampliou e, mercê do concurso da multidão, quase assume as proporções de um tumulto popular. É forçoso sair dela: Pilatos procura a porta de saída.

Lançar aquele homem, que ele diz inocente, em pasto ao povo em furor, ele ainda tem algum escrúpulo disso. Vira e revira o problema; de repente uma palavra sobe até ele: falaram da Galiléia. Será que Jesus é galileu? E, como lhe respondem afirmativamente, logo Pilatos aproveita a ocasião e declina competência. Sendo galileu, é de Herodes que o acusado depende. Ora, Herodes estava justamente em Jerusalém, e pouco se entendia com os Romanos. Ao mesmo passo que se descartava do embaraço, Pilatos demonstrava certa deferência a Herodes: tudo seria, pois, pelo melhor. Assim, não tendo surtido efeito a improcedência, este expediente agora será mais feliz: Herodes que decida!

No fundo, Pilatos cedia ainda. Era, além do mais, uma primeira covardia; porque, afinal, se ele sentia o dever de ordenar a improcedência, com que direito encaminhava Jesus a Herodes?


Ou Jesus era culpado ou não era. Ora, Pilatos acabava de dizer que Ele não era culpado. Logo, não tinha senão que manter a sua primeira decisão. Mas não ousa, procura safar-se da dificuldade; é bem o superior fazendo resvalar habilidosamente à responsabilidade sobre outro.

Entrementes ele torna a entrar, mais uma vez safou-se; a multidão também se vai, corre com os sacerdotes e com os anciãos para o paço de Herodes: a praça fica limpa, tudo vai realmente pelo melhor.

Reis, governai afoitamente”, diz Bossuet. Nada é mais prejudicial a um povo, a uma família, a um agrupamento qualquer, do que governá-los por expedientes. Não se contenta a ninguém, nem a si nem aos outros: essa destreza tresanda a prestidigitação.  A probidade repele os processos oblíquos, e a franqueza é sempre um pouco de altivez, porque é aceitar as conseqüências da própria palavra e dos próprios atos. Isto pressupõe força e honra; ora, não é a altivez feita destas duas coisas? Elas faltavam totalmente a Pilatos.

Não tardou que novos clamores viessem tirá-lo da sua covarde quietude. Herodes recambiava-lhe Jesus; divertira-se à custa dEle, mas nada julgara.

Cruelmente volvido às suas perplexidades, Pilatos quis, ainda assim, tirar proveito de Herodes. Este era Judeu, ele se lhe valeria do nome; além de que a sua diligência não devia ter desagradado ao povo... Quem sabe? Tudo ia talvez poder terminar razoavelmente. Desta vez, ele manda vir à sua presença os príncipes dos sacerdotes, os sinhedritas, e, para lisonjear a todos, à própria ralé, faz-se acessível, simula condescender, entrar-lhes nas vistas: é quase bonancheirice.

- Trouxeste-me este homem, diz-lhes ele, e apresentastes-mo como um agitador pernicioso do povo. Interroguei-o na vossa presença, e vós mesmos pudestes ver que, de tantos capítulos de acusação, nenhum sério pude reter contra ele, Ademais, não me circunscrevi ao meu próprio juízo: encaminhei esse Jesus a Herodes, e vós com ele, a fim de que pudésseis repetir todas as vossas acusações. Herodes ouviu tudo, e ele mesmo nada achou nada que merecesse a morte. Todavia, se alguma coisa houver que tenha melindrado as vossas leis, vou mandar castigá-lo, estará dito tudo, e mandá-lo-ei embora.

Pilatos cedia, e era uma nova covardia. Por que esse castigo? Se se tratava da flagelação, não tinham os Judeus necessidade da sua permissão para esse suplício, que lhes não transcrevia o direito. Mas eles só lhe haviam trazido Jesus para a morte: claríssimamente fora isto declarado, e desde o começo. – Não podemos matar ninguém, haviam dito desassombradamente os sacerdotes, e então vimos pedir-vos que o façais por nós. – A flagelação era, portanto, um rigor inútil, incapaz de engodar os sacerdotes e de saciar o povo.

Fizeram-no sentir ao Procurador. Como o seu faro cruel, a turba dos sacerdotes e a plebe amotinada viram bem depressa o afrouxamento de Pilatos. O impulso estava dado, restava somente carregar brutalmente sobre aquele pobre coração vacilante e sobre aquele espírito em apuros, para acabar de fazê-los soçobrar.

Por sua parte, Pilatos parecia, entretanto enrijar-se no pensamento de livrar Jesus; parece mesmo que a sua compaixão despertada e não sei que temor reverencioso o induziam a esse partido. Em todo caso, ele já avançara demais para recuar. Publicamente e por duas vezes declarara que não achava nenhuma causa de morte naquele homem: não queria, contudo, engolir todas as vontades daqueles Judeus opiniáticos e invejosos, porque no fundo lhes farejou a baixa inveja.

Metade por amor-próprio, metade por comiseração natural, vai, pois compreender ainda o salvamento da vítima.

Na sua política cavilosa, acredita ter achado a melhor saída. Distingue maravilhosamente, naquela massa encrespada que lhe bate os degraus do tribunal, as cabeças e os cúmplices, os sacerdotes e a multidão. Que golpe mestre se conseguisse dividir aquelas duas categorias, a fazer salvar Jesus, contra os sacerdotes, pela multidão! O expediente pareceu-lhe uma idéia genial.

Era costume conceder ao povo o perdão de um condenado à morte por ocasião das festas da Páscoa. Ora, havia, que aguardava o suplício, um celerado famoso, por nome de Barrabás, o terror do povo, homicida e sedicioso por todos temido...

Certamente que, pondo ao lado dele Jesus, aquele Jesus que só bem fizera e que, diziam, havia estranhadamente curado cegos, leprosos, e até ressuscitado mortos, Jesus benfeitor público ao lado de Barrabás malfeitor consumado, e o povo encarregado de escolher, o povo só, pois é o sufrágio deste que se vai pedir, o voto não podia ser duvidoso.

Pilatos parece então abandonar o seu projeto de flagelação; senta-se no seu tribunal, e, com todas as mostras do poder que se faz indulgente, lança àquela turba fremente o seu hábil e inesperado dilema.

- Ou Jesus ou Barrabás? Escolhei.

E espera. Sem se dar conta, Pilatos cedia: era uma terceira e sinistra covardia. Cada vez mais se afastava do seu primeiro movimento, de bom, que dissera: Não há nada que repreender neste homem. Pôr Jesus ao lado de Barrabás era, pelo contrário, dizer: Ele é culpado. Era dizer mais: Ele já está condenado à morte, pois só se libertavam os condenados ao último suplício. Sem dúvida ele queria despertar no povo uma preferência por Jesus; mas afinal o põe no mesmo pé de igualdade porquanto toda eleição a fazer pressupõe uma certa igualdade nos indivíduos a eleger.

E Pilatos aguarda, fia do seu expediente; assim, quando, naquele momento, sua mulher lhe manda pedir que não se envolva em nada no caso daquele justo, ele a tranqüiliza: Jesus será salvo, é questão de tempo.

Sim, e justamente os sacerdotes empregam esse tempo; os sacerdotes, que vêem a tática do Procurador, espalham-se imediatamente pela multidão. Como um fermento secreto, qual veneno sutil, circulam, trabalham, fazem ferver os espíritos já escaldados; e, quando Pilatos se levanta e se inclina sobre o povo para ter a resposta, ouve só um grito: Non hunc! Este não! Jesus devia, pois, estar presente, pois parece que esse termo O designa e O indigita. Este não, dá-nos Barrabás. Non hunc, sed Barabbam.

(A Subida do Calvário, pelo Padre Luís Perroy, S. J; Editora Vozes, 1957, continua com o post: O terceiro Pilatos – O medo)
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