segunda-feira, 11 de julho de 2011

Santa caridade e amor imperfeito

De um certo resto de amor que muitas vezes
fica na alma que perdeu a santa caridade



Certamente a vida de um homem que, todo desfalecido, vai morrendo pouco a pouco num leito, quase já não merece lhe chamemos vida: dado que, ainda que ela seja vida, está, todavia tão misturada com a morte, que não se saberia dizer se é uma morte ainda viva, ou uma vida moribunda. Ai! como é esse um lastimável espetáculo, Teótimo! muito mais lastimável é, porém, o estado de uma alma que, ingrata ao seu Salvador, vai de momento em momento para trás, retirando-se do amor divino por certos graus de indevoção e de deslealdade, até que, havendo-O deixado totalmente, fica na horrível escuridão de perdição; e esse amor que está no seu declínio e que vai perecendo e desfalecendo, é chamado amor imperfeito; porquanto, ainda que esteja inteiro na alma, aí não está, ao que parece, inteiramente, isto é, quase não está mais aderente à alma, e está a ponto de abandoná-la. Ora, sendo a caridade separada da alma pelo pecado, múltiplas vezes fica nesta uma certa semelhança de caridade, que nos pode iludir e divertir em vão; e dir-vos-ei o que é.

Enquanto está em nós, a caridade produz muitas ações e amor para com Deus, por cujo freqüente exercício nossa alma adquire um certo hábito e costume de amar a Deus, que não é a caridade, mas apenas um vinco e inclinação que a multidão das ações deu ao nosso coração. 

Depois de adquirir um longo hábito de pregar ou de dizer missa por eleição, múltiplas vezes nos acontece em sonho falar e dizer as mesmas coisas que diríamos pregando ou celebrando, de tal sorte que o costume ou hábito adquirido por eleição e virtude é de alguma sorte praticado depois sem eleição e sem virtude, visto como, geralmente falando, as ações feitas dormindo só têm da virtude uma aparente imagem, e são meros simulacros e representações dela. Assim a caridade, pela multidão dos atos que produz, imprime em nós uma certa facilidade de amar, que ela nos deixa mesmo depois que somos privados da sua presença.


Quando jovem escolar, vi que numa aldeia próxima de Paris, em certo poço havia um eco (1) que repetia várias vezes palavras que pronunciávamos lá ao pé. E, se algum idiota sem experiência tivesse ouvido aquelas repetições de palavras, teria crido que havia no fundo do poço algum homem que as fazia. Mas, pela filosofia, nós já sabíamos não haver ninguém no poço que repetisse as nossas palavras, mas ali haver apenas algumas concavidades, sendo numa das quais as nossas vozes colhidas, e, não podemos passar além, para não perecer de todo e empregarem as forças que lhes restavam produziam segundas vozes, e essas segundas vozes colhidas noutra concavidade produziam terceiras, e essas terceiras de igual maneira quartas, e assim consecutivamente até onze: de tal sorte que aquelas vozes feitas no poço já não eram mais as nossas vozes, porém simples semelhanças e imagens delas. 

(1) o que o autor diz de uma aldeia dos arredores de Paris existia em Paris mesmo; consoante os antiquários, seria essa a origem da rua do Puits-qui-parle, bairro do Panthléon.

E, de fato, muito havia que dizer entre as nossas vozes e aquelas; porque, quando nós dizíamos uma grande série de palavras, elas só repetiam algumas, encurtavam a pronúncia das sílabas que elas passavam muito depressa, e com tons e acentos completamente diferentes dos nossos, e assim só começavam a formar essas palavras depois de havê-las acabado de pronunciar. Em suma, não eram palavras de um homem vivo, mas, por assim dizer, palavras de um rochedo, de um rochedo oco e vazio, as quais, todavia representavam tão bem a voz humana de que se haviam originado, que com elas se teria um ignorante divertido e equivocado. 

Ora, quero agora dizer assim. Quando o santo amor de caridade encontra uma alma manejável, e faz nela alguma longa estada, produz nela um segundo amor que não é um amor de caridade, posto que provenha da caridade; mas é um amor humano, o qual, não obstante, se assemelha tanto à caridade, que, embora depois esta pereça na alma, parece nela estar sempre, visto haver deixado nela após si essa sua imagem e semelhança que a representa; de sorte que um ignorante se enganaria nisso, tal como os pássaros fizeram na pintura das uvas de Zêuxis, as quais eles cuidaram ser verdadeiras uvas, com tanta propriedade havia a arte imitado a natureza. E, todavia há muita diferença entre a caridade e o amor humano que ela produz em nós; porquanto a voz da caridade pronuncia, intima e opera todos os mandamentos de Deus dentro dos nossos corações; o amor humano que fica após ela di-los realmente e os intima às vezes todos, mas nunca os opera todos, e sim alguns apenas: a caridade pronuncia e reúne todas as sílabas, isto é, todas as circunstâncias dos mandamentos de Deus; esse amor humano deixa sempre para trás alguma delas, e, sobretudo a da reta e pura intenção. E, quanto ao tom, a caridade o tem muito uniforme, doce e gracioso; mas esse amor humano vai sempre ou alto demais nas coisas terrenas ou baixo demais nas celestes, e nunca começa a sua tarefa senão depois que a caridade cessou de fazer a sua. 

Porque, enquanto a caridade está na alma, serve-se desse amor humano, que é a sua criatura, e emprega-o para facilitar as suas operações; de tal sorte que, durante esse tempo, as obras desse amor, como de um servo, pertencem à caridade, que lhes é a dona. Estando, porém, a caridade afastada, então as ações desse amor são totalmente dele, e não têm mais a estima e valor da caridade; pois, assim como o bastão de Eliseu, na ausência deste, embora na mão do servo Giezi, que o recebera da mão de Eliseu, não fazia nenhum milagre, assim também as ações feitas na ausência da caridade, pelo simples hábito do amor humano, não são de nenhum mérito nem de valor algum para a vida eterna, posto que da caridade tenha esse amor humano aprendido a fazê-las e seja apenas o servo dela. E isso assim se faz porque, na ausência da caridade, esse amor humano não tem mais nenhuma força sobrenatural para levar a alma à excelente ação do amor de Deus sobre todas as coisas. 

Quanto é perigoso esse amor imperfeito

Ai! meu Teótimo, vede, peço-vos, o pobre Judas, depois que traiu seu Mestre, como vai levar de novo o dinheiro aos Judeus, como reconhece seu pecado, como fala honrosamente do sangue daquele Cordeiro imaculado. Eram efeitos do amor imperfeito, que a precedente caridade passada lhe deixara no coração. 

Desce-se à impiedade por certos graus, e quase ninguém chega ao extremo da malícia num instante. 

Os perfumistas, conquanto já não estejam nas suas lojas, trazem longo tempo o odor dos perfumes que manejaram. Assim os que estiveram nos laboratórios dos ungüentos celestes, quer dizer, na santíssima caridade, guardam-lhe ainda o cheiro por algum tempo depois. Quando o veado passou a noite em algum lugar, mesmo pela manhã o cheiro e a exalação dele ainda ali está fresco: à tarde ele já é mais difícil de sentir, mas à medida que suas pegadas vão ficando velhas e duras, os cães vão também perdendo conhecimento.


Quando a caridade reinou algum tempo numa alma, achamos nesta as suas passadas, a sua pista, as suas pisadas, o seu cheiro por algum tempo depois que ela a deixou; mas pouco a pouco enfim tudo isso se dissipa, e perde-se toda sorte de conhecimento de que alguma vez a caridade nela tenha estado. 

Temos visto jovens bem criados no amor de Deus os quais, desencaminhando-se, ficaram por algum tempo no meio da sua infeliz decadência sem que se deixassem de ver neles grandes sinais da sua virtude passada; e, repugnando ao vício presente o hábito adquirido no tempo da caridade, durante alguns meses a gente custava a discernir se eles estavam fora da caridade ou não, e se eram virtuosos ou viciosos, até que o progresso fazia claramente conhecer que aqueles exercícios virtuosos não tiravam sua origem da caridade presente, mas da caridade passada; não do amor perfeito, mas do amor imperfeito que a caridade deixara após si, como sinal da habitação que fizera naquelas almas. 

Ora, esse amor imperfeito é bom em si mesmo, Teótimo, porque, sendo criatura da santa caridade, e como que do seu séquito, não pode deixar de ser bom e apto a servir fielmente a caridade enquanto ela permanece dentro da alma, e está sempre pronto a servi-la se ela voltar à alma; e, se ele não pode fazer as ações do amor perfeito, nem por isso, entretanto, é para desprezar, porque tal é a condição da sua natureza. Assim as estrelas, que em comparação com o sol são muito imperfeitas, são, todavia extremamente belas, olhadas em particular; e, não tendo lugar na presença do sol, têm no na sua ausência. 

Todavia, embora esse amor imperfeito seja bom em si, contudo nos é perigoso, por isto que muitas vezes nos contentamos com ter a ele só; pois, tendo vários traços exteriores e interiores da caridade, pensando ser a ela mesma que temos, nós nos divertimos, e pensamos ser santos; ao passo que nessa vã persuasão os pecados que no privaram da caridade crescem, aumentam e se multiplicam tanto, que afinal se tornam senhores do nosso coração. 

Se Jacob não tivesse abandonado a sua perfeita Raquel e se houvesse sempre conservado junto a ela no dia de suas núpcias, não teria sido enganado como foi; mas, pela haver deixado ir sem ele ao quarto, no dia seguinte ficou admiradíssimo de achar que em lugar dela tinha apenas a imperfeita Lia, que não obstante ele acreditava ser sua cara Raquel; assim, porém, o enganara Labão. Ora, do mesmo modo nos ilude o amor-próprio. Por pouco que deixemos a caridade ele introduz na nossa estima esse hábito imperfeito; e nos achamos nosso contentamento nele como se ele fosse a verdadeira caridade, até que alguma clara luz nos faça ver estarmos iludidos. 

Ó Deus! não é uma grande pena ver uma alma que se lisonjeia nessa imaginação de ser santa, ficando em repouso como se tivesse a caridade, verificar, todavia finalmente que a sua santidade é fingida, e que o seu repouso não passa de letargia, e a sua alegria de mania? 

Meio de reconhecer esse amor imperfeito

Mas, dir-me-eis, que meio para discernir se é Raquel, ou Lia, a caridade ou o amor imperfeito, que me dá os sentimentos de devoção de que sou tocado? Se, examinando em particular os objetos dos desejos, dos afetos e dos desígnios que tendes presentemente algum achásseis pelo qual quisésseis contravir à vontade e ao beneplácito de Deus, pecando mortalmente, é fora de qualquer dúvida que todo o sentimento toda a facilidade e presteza que tendes em servir a Deus não tem outra fonte senão o amor humano e imperfeito; porque, se o amor perfeito reinasse em vós, ó Senhor Deus! Romperia todo afeto, todo desejo, todo desígnio cujo objeto fosse tão pernicioso, e não poderia sofrer que o olhasse o vosso coração. 

Mas notai que eu disse dever esse exame ser feito dos afetos que tendes presentemente; porquanto não há necessidade de imaginardes os que poderiam nascer depois, visto bastar que sejamos fiéis nas ocorrências presentes, segundo a diversidade dos tempos, e ter cada estação bastante com seu trabalho e sua pena.
           
E se, todavia quisésseis exercitar o vosso coração na valentia espiritual, pela representação de diversos recontros e de diversos assaltos, poderíeis utilmente fazê-la, contanto que, após os atos dessa valentia imaginária que o vosso coração tivesse feito, não vos julgásseis mais valente. Porquanto os filhos de Efraim, que faziam maravilhas em bem desferir seus arcos nos ensaios de guerra que entre si faziam, quando chegou a ocasião de mostrá-lo, no dia da batalha, deram as costas (SI 77 9), e não tiveram sequer ânimo de disparar suas flechas, nem de olhar a ponta das de seus inimigos. 

Quando, pois, se faz a prática dessa valentia para as ocorrências futuras ou meramente possíveis, se se tem um sentimento bom e fiel, agradece-se por ele a Deus; pois esse sentimento é sempre bom; mas, no entanto deve a gente ficar com humildade entre a confiança e a desconfiança, esperando que, mediante a assistência divina faríamos na ocasião o que imaginamos, e receando, todavia que, segundo a nossa miséria ordinária, talvez não fizéssemos nada e perdêssemos ânimo; mas, se a desconfiança se tornasse tão desmedida que nos parecesse não termos nem força, nem coragem, e que, portanto nos adviesse desespero sobre o objeto das tentações imaginadas, como se não estivéssemos na caridade e graça de Deus, então, apesar do nosso sentimento e desânimo devemos tomar resolução de sermos realmente fiéis em tudo o que nos suceder até a tentação que nos aflige, e esperar que, quando ela chegar, Deus multiplicará Sua graça, redobrará Seu socorro, e prestar-nos-á toda a assistência necessária; e que, não nos dando a força para uma guerra imaginária, e não necessária, dar-no-Ia-á quando isso se tornar necessário. Porque, assim como muitos perderam a coragem no assalto, muitos também nele perderam o temor, e tomaram coragem e resolução na presença do perigo e da necessidade, coragem e resolução que nunca teriam sabido tomar na ausência dele.


E assim muitos servos de Deus, representando-se as tentações ausentes espantaram-se com elas quase ao ponto de perderem ânimo, os quais, todavia, em as vendo presentes, se comportaram mui corajosamente. 

Enfim, nesses espantos sentidos pela representação dos assaltos futuros, quando nos parece que o ânimo nos falta, basta desejarmos coragem e confiarmos em Deus, e Ele no-la dará quando for tempo. Por certo, nem sempre Sansão tinha a sua coragem: antes, está assinalado na Escritura que, vindo a ele furiosamente e rugindo o leão das vinhas de Tamnata, o espírito de Deus possuiu-o (Juiz 14, 5-6); quer dizer, Deus deu-lhe o movimento de uma nova força e de uma nova coragem, e ele estraçalhou o leão como o teria feito a um cabrito (Juiz 15), e do mesmo modo quando desbaratou os mil Filisteus que queriam derrotá-lo na campina de Lechi. 

Assim, meu caro Teótimo, não é necessário que tenhamos sempre o sentimento e movimento da coragem requerida para vencer o leão rugidor que anda para cá e para lá rondando para nos devorar (1 Ped 5, 8); isso poderia dar-nos vaidade a presunção. Basta, sim, que tenhamos bom desejo de combater valentemente, e uma perfeita confiança de que o Espírito divino nos assistirá com seu socorro quando se apresentar a ocasião de empregá-lo. 

(Tratado do amor de Deus, São Francisco de Sales, livro quarto, capítulos IX, X e XI)

PS: Grifos meus.
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