quinta-feira, 7 de julho de 2011

Que as ocupações legítimas não nos impedem de praticar o divino amor

Que as ocupações legítimas 
não nos impedem de praticar o divino amor 
(São Francisco de Sales)


A curiosidade, a ambição, a inquietação, com a inadvertência e inconsideração do fim para o qual estamos neste mundo, são causa de termos mil vezes mais impedimentos do que afazeres, mais bulício do que obra, mais ocupação do que trabalho. E são esses embaraços, Teótimo, isto é, as fúteis, vãs e supérfluas ocupações de que nos encarregamos, que nos distraem do amor de Deus, e não verdadeiros e legítimos exercícios de nossas vocações. David, e após ele São Luís, entre tantos perigos, trabalhos e afazeres que tiveram, quer na paz, quer na guerra, não deixavam de cantar em verdade: Que quer meu coração senão a Deus, daquilo que no céu se admira? Que é, senão Deus, que neste baixo lugar meu coração despira? (SI 72, 25-29). 

São Bernardo não perdia nada do progresso que desejava fazer nesse santo amor, embora estivesse nas excursões e exércitos dos grandes príncipes onde se empregava em reduzir os negócios de estado ao serviço da glória de Deus: mudava de lugar, mas não mudava de coração, nem seu coração de amor, nem seu amor de objetos; e, para falar a sua própria linguagem, essas mutações faziam-se nele, mas não dele; visto como, se bem que suas ocupações fossem mui diferentes, ele era indiferente a todas as ocupações, e diferente de todas as ocupações, não recebendo a cor dos negócios e das conversas, como o camaleão recebe a dos lugares onde se acha, mas assim ficando sempre unido a Deus, sempre alvo em pureza, sempre vermelho de caridade e sempre cheio de humildade. 

Eu bem sei, Teótimo, o aviso dos sábios: Foge da corte e deixa o palácio aquele que quer viver devoto: raramente nos exércitos se vêem as almas animadas de piedade. A fé, a santidade são filhas da paz. 

E os Israelitas tinham razão de escusar-se aos Babilônios que instavam com eles a cantarem os sagrados cânticos de Sião: Ai! mas em que música, neste triste banimento, poderíamos cantar santamente o sagrado cântico do Senhor? (SI 136).

Mas não vedes também que aquela pobre gente estava não somente entre os Babilônios, mas ainda cativa dos Babilônios? Quem quer que seja escravo dos favores da corte, do êxito do palácio, da honra da guerra, ó Deus, acabou-se! não sabe cantar o cântico do amor divino. Mas quem não está na corte, na guerra, no palácio senão por dever, a esse Deus assiste, e a doçura celeste lhe serve de epítema (Epítema, medicamento) sobre o coração para preservá-lo da peste que reina nesses lugares

Quando a peste afligiu os Milaneses, São Carlos nunca fez dificuldade em freqüentar as casas e tocar as pessoas empestadas: mas também, Teótimo, freqüentava-as e tocava-as só e justamente tanto quanto a necessidade do serviço de Deus o requeria, e por coisa alguma teria ido ao perigo sem a verdadeira necessidade, com medo de cometer o pecado de tentar a Deus. Assim não foi acometido de nenhum mal, conservando a divina providência aquele que tinha nela uma confiança tão pura, não misturada nem de timidez nem de temeridade. Do mesmo modo Deus tem cuidado dos que não vão à corte, ao palácio, à guerra senão pela necessidade do seu dever: e nisso não se deve ser nem tão receoso que se abandonem os bons e justos afazeres para não ir ali, nem tão jactancioso e presunçoso que ali se vá ou ali se fique sem a expressa necessidade do dever e dos afazeres

(Tratado do amor de Deus, Livro décimo segundo, capítulo IV)

PS: Grifos meus.
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