sábado, 23 de outubro de 2010

Benevolência para com o próximo

Benevolência para com o próximo


Deus quando formou o coração do homem, plasmou-o na bondade”, estas palavras do genial Bossuet se aplicam a todos nós, principalmente à mulher, a quem Deus enriqueceu com tesouros de bondade e delicadezas tais, que a torna apta para suavizar as horas amargas da vida.

Á vista da desgraça alheia, não se comove o coração da mulher muito mais depressa que o do homem? Não chora a moça e a mulher de vezes antes, sobre o infortúnio alheio? Não estendem com mais prazer sua mão benfazeja para suavizar a necessidade alheia? Em regra não resolvem dez moças consagrar-se, como irmãs de caridade, às obras de misericórdia cristã, antes que só rapaz queira prestar-se a tal sacrifício?

Este traço de bondade e benevolência, com que Deus marcou coração feminino, deves, jovem cristã, procurar conservá-lo e avivá-lo sempre mais. Não te é apenas um adorno: também se lhe anexa um grande poder, muito salutar e benfazejo a outrem.

O conhecido escritor inglês Faber, assim se exprime sobre o poder da benevolência:

Vejo uma multidão de pequenos entes, com as faces veladas, quem em união com a graça e com os anjos executam as suas obras. Esvoaçam por toda a parte. Consolam os tristes, tranqüilizam os aflitos, acalmam os enfermos, acendem nos olhos dos moribundos um raio de esperança, mitigam as dores dos corações aflitos e desviam os homens do pecado. Parecem dotados de força surpreendente: conseguem o que os anjos não podem; insinuam-se nos corações, a cujas portas se lhes abrem, voam de novo estes pequenos mensageiros do Pai do Céu, para levar a graça. Estes pequenos, mas poderosos entes, são os atos de bondade, que da manhã à noite se acham ao serviço do bom Deus”.

Servindo-se de uma comparação tirada da vida dos animais, certo escritor francês procura expor o benefício influxo da benevolência, fazendo-nos ver como os próprios animais não são insensíveis ao toque da bondade.

É a história de um pobre cãozinho, que corre apressado ao longo do muro e se esconde quanto pode. As crianças perseguem-no. Os trausentes o repelem a ponta-pés. É um cão do campo, cujo dono o expulsou. Magro, faminto, imundo, passa as noites ao relento nos portões, de orelha em pé, receoso de ser enxotado impiedosamente. Ninguém lhe dá um olhar carinhoso, e até os outros cães o assaltam com desprezo, por não serem tão magros quanto ele. Passa um homem; o pobre animal adivinha nele um salvador e se lhe arroja aos pés, implorando alguma coisa com um olhar de amargura e tristeza.

O homem acaricia o cãozinho, toma-o consigo e o restaura novamente. Pouco tempo depois o animal adquire uma aparência tão bela, e altiva, que todos o apreciam e já ninguém o maltrata. Se tivesse permanecido faminto e desgraçado, a raiva, a loucura, se teriam apoderado dele. Como foi objeto de amor e assistência, mostrou-se tão fiel e agradecido, e recuperou aquela aparência bonita que os mesmos cães que antes o mordiam com desprezo, agora o olham com inveja. Assim acontece também entre os homens: a bondade torna-os felizes e a felicidade comunica-lhes beleza e dignidade.

1º- Sê, portanto jovem cristã, benévola e caridosa nos pensamentos, com relação ao teu próximo.

A caridade não suspeita mal”, diz o apóstolo dos gentios. Não concede nenhum pensamento injusto, nenhuma desconfiança infundada, nenhuma prevenção. Dificilmente acredita no mal que vê; desculpa de bom grado a intenção quando não pode desculpar a ação.

Se possuíres caridade, muito mais facilmente e com maior prazer, dirigirás os teus pensamentos e a tua atenção interna, antes para as qualidades do teu próximo do que para as suas faltas. De fato, toda pessoa a par das imperfeições e defeitos, possui também boas qualidades. É o que te será fácil reconhecer e levar em consideração, sem julgar com muita severidade as faltas alheias nem demasiado te ocupar com elas.

Sê como a abelha delicada que pousa sobre as flores e delas suga o doce néctar, evitando feri-se nos espinhos. Disse um grande educador: “quem nutrir amiúde pensamentos benévolos a respeito do próximo, instigado por motivos sobrenaturais, não estará muito longe de se tornar santo”.

Numerosos cristãos, mesmo assíduos à prece, á recepção dos Sacramentos nem por isto se tornam santos, por não resistirem com bastante energia a pensamentos menos caritativos que se lhes revolvem no interior, e proferirem acerca das demais sentenças duras e inclementes.

E quantas penas severas não atrairemos sobre nós, o Purgatório, por causa desta insensibilidade! Com todas estas asperezas ser-nos-á impossível entrar no céu, e fruir da visão de Deus, que é o próprio Amor. Nem a morte as removerá do nosso coração; só restará que sejam aniquiladas em nossas almas, pelas chamas do Purgatório. E, se estas asperezas e insensibilidades forem muito graves, deveremos, então, temer que o seu peso nos arraste ainda mais a baixo, àquela tremenda profundeza, onde não reina mais nenhum amor, e da qual ninguém se poderá evadir.

2º- Sê ainda benévola e caridosa no falar.

Primeiro, no trato com teu próximo. Tem sério cuidado em falar , sempre com tranqüilidade e mansidão com as pessoas das tuas relações, que, destarte ganharás domínio sobre elas. É belo o provérbio alemão, que assim reza: “uma boa palavra encontra um bom eco”. – ein gutes Wort findet einem guten Ort.

Muitas amizades nobres e devotadas, que nada poderá desligar, tiveram o seu começo em palavras amáveis, saídas de um bom coração. Quantas desconfianças e preconceitos, nutridos por longo tempo contra uma pessoa, não cessam de todo, porque num encontro aparentemente fortuito com ela, se ouve de seus lábios palavras afáveis e cordiais! É como bálsamo sobre o coração; tudo se torna claro e pacífico, toda prevenção desaparece e renasce o entusiasmo. E, no entanto, foram apenas umas poucas palavras, que momentos depois o vento dissipou: mas a doçura e suavidade com que foram pronunciadas, tiveram a virtude de afastar do coração a camada de gelo e convertê-lo completamente.

Antes de tudo, guarda-te daquela nervosa irritabilidade tão comum, em nossos tempos, que se procura desculpar, com tamanha facilidade, e que ocasiona tantas amarguras, dá aso a palavras ásperas e severas observações.
 
Aprende a dominar-te, até mesmo quando pensas que possuis nervos delicados e fracos, e permite somente palavras que alegrem e edifiquem.

Deves também ser benévola quando te revelam faltas do teu próximo. É muito importante chamar atenção sobre este ponto. Que de males não causa quem discorre, com tanto prazer, sobre as faltas e defeitos dos outros! Quantos ódios e desavenças, rixas e altercações e ciúmes produz! Quanta confusão e desordem cria! Com muita razão, diz a Sagrada Escritura; “Aguçam as línguas viperinas; têm veneno de áspides debaixo de seus lábios” (Sl. 139,4).

Com muito rigor e severidade, fala São Bernardo a esse respeito, não obstante, o seu cognome de melífluo:

Não é porventura a língua a cobra mais cruel? Sem dúvida, com seu hálito ela envenena mortalmente. Não é a língua uma lança pontiaguda? Sem dúvida, a mais pontiaguda de todas, porque de um só golpe fere três homens, ao mesmo tempo; aquele a quem desonra, aquele que ouve, e aquele que fala”.

Eis porque não deves falar sobre as faltas do teu próximo, a não ser que o exija um motivo importante, e mesmo, neste caso, sem excitação apaixonada e só o necessário. Se outras pessoas em tua presença conduzem a conversa para tais assuntos, sem necessidade, esforça-te por dar à palestra outra direção, ou defende a honra do próximo com palavras pacíficas e brandas, chama a atenção dos que assim falam para a injustiça e crueldade de tais maledicências.

Deste modo desempenharás o pacífico dos anjos, suavizarás a hora da tua morte e merecerás sentença benigna no tribunal divino.

Jovem cristã, sê benévola para com os outros em todo o teu proceder, fecunda em obras de misericórdia, sobretudo se puderes dispor de tempo e folgas e dissipações, em prazeres e divertimentos. Tudo isto tornar-te-á fútil e superficial; roubar-te-á a energia da vontade, de que necessitas, a fim de poderes dominar as tuas más inclinações, criará em ti um sentimento mundano, que a seu tempo dissipará o espírito cristão e fará com que tenhas por estranhos Deus e Sua santíssima vontade.

Não percorras o caminho da vida fria, insensível e inconsideradamente. Reflete, muitas vezes, na bondade de Deus para contigo, e confronta a tua situação com a daqueles que têm de suportar um destino duro e cruel.

Teus pais desdobraram-se para proporcionar-te educação esmerada e não pouparam esforços para dar-te instrução suficiente, a fim de que enfrentes o porvir com ânimo sereno.

Outros há que, muito cedo, perderam os pais, pobres órfãos, não encontraram ninguém que se interessasse pela sua educação e subsistência.

Não poderias economizar alguma coisa nos teus vestidos e recreações, a fim de contribuir, com um óbolo para a educação de tais órfãos desamparados? Trajas roupas finas com apuro e bom gosto, alimentas-te diariamente em mesa farta, dormes em leito macio, habitas uma casa que no inverno é agradavelmente aquecida, e onde nada falta para a tua comodidade.

Muitos há que não conhecem tais coisas por experiência; tantas casas onde o pai, cuidadoso sustentáculo do lar, demasiado cedo desapareceu da vida ou jaz enfermo desde há muito, pelo que a pobre mãe se vê obrigada a dedicar-se a duro trabalho para sustentar os queridos filhos; e todavia, a despeito das suas canseiras, apenas lhe é possível saciar-lhes a fome com mesquinha alimentação e provê-los de roupa suficiente.

Não poderias, nas horas disponíveis, confeccionar para essas crianças enregeladas um agasalho quente?

O Divino Salvador, sem dúvida, haveria de recompensar-te largamente, como fez outrora a São Martinho, o qual, sendo soldado, numa noite de inverno cedeu a um mendigo que tiritava de frio a metade do seu manto.

Gozas, talvez, de saúde exuberante e sentes como o sangue circula rápido e vivo em tuas veias; no entanto, quantos doentes jazem longo tempo em seu pobre leito de dores, sem dinheiro para chamar um médico, e sem alimento que lhes possa fortalecer e restituir as energias consumidas pela doença.

Dize-me, não poderias passar pelo tugúrio destes pobres, a fim de fazeres algo por eles e alegrá-los com algum caridoso auxílio? Oh! tem certeza de que entrarias no quarto, ou melhor, no coração destes doentes, como o sol brilhante e benéfico; sentirias com isto maior alegria interna e delícias mais intensas das que gozas num baile aparatoso ou num passeio divertido.

Sim, a benevolência fazem-nos semelhantes a Deus, granjeiam-nos seus favores e destilam em nosso coração descanso e paz.

Luís XVI e sua esposa Maria Antonieta passeavam certa vez ás sombras da floresta pitoresca de Versalhes. Encontraram-se com uma jovem que trazia um prato com uma só colher de estanho.

- "Que trazes tu, aí?" interrogou a Princesa.
-"Alteza, a sopa para meu pai e para minha mãe, que trabalham lá em baixo, no campo".
- "Com que foi preparada?"
- "Com água e raízes".
- "Sem carne?"
- "Ah! senhora, nós nos sentimos felizes e contentes, quando temos apenas pão".
-  "Leva, então, esta moeda de ouro a teu pai, para que vos provenha de alimentos mais substanciosos".

Cheia de alegria retirou-se a jovem, e Maria Antonieta seguiu-a com os olhos.

Viu, pouco depois, que a pobre gente se punha de joelhos no meio do campo.

- "Vês? meu querido, - exclamou a Princesa - estão rezando por nós. Oh! Deus, quanto é doce fazer o bem!"

Nunca te esqueças pois destas palavras da Sagrada Escritura:

"Não se afastem de ti a misericórdia e a verdade; põe-nas ao redor do teu pescoço, e grave-as sobre as tábuas do teu coração, que assim encontrarás graça e boa opinião perante Deus e perante os homens". (Prov., 3,3-4).

Reflete amiúdo também sobre as palavras de São João Crisóstomo:

"Diante de Deus, mais vale ser misericordioso do que ressuscitar mortos, pois é obra melhor alimentar a Cristo faminto, do que em Seu nome ressuscitar mortos".

(Donzela cristã, Pe. Matias de Bremscheid)

PS: Grifos meus.
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