domingo, 15 de agosto de 2010

Se não quisermos viver bem...

Se não quisermos viver bem...


Se não quisermos salvar-nos, quem nos salvará, mau grado nosso?

Os amigos?... O confessor ou o diretor?... Os Santos e a Virgem?... A inteligência?... A Graça...A  velhice?... O sacerdócio?... Os milagres? Não, de modo nenhum. E vamos prová-lo.

(Por método analítico, especificamos e separamos estas diferentes causas. Mas há algumas que se compenetram. Assim, é evidente que a Graça não é separável de Deus).

a) Os amigos

Podem prestar-nos muitos serviços, ser inteiramente dedicados, morrer por nós, mas não substituir-nos no negócio da salvação. O amigo mais terno é impotente para nos levar ao céu, se recusarmos, e terá de confessar: "Não posso nada sem ti".

b) Os confessores, os diretores espirituais

Mostram-nos o bom caminho. A nós incumbe trilhá-lo. Não basta que nos indiquem a direção: devemos segui-la.

Suponde que um marinheiro tem um bússola de uma precisão perfeita e os sinais de um farol. Se não fizer caso desta bússola e deste farol, perder-se-á apesar do instrumento de precisão, apesar das luzes de aviso.

Assim nós, no mar do mundo, temos estas bússolas, estes faróis que se chamam confessores, diretores, pregadores, autores ascéticos. Mas devemos, além disso, obedecer às suas sugestões.

c) A Santíssima Virgem, os Santos

São modelos; mas um artista não se pode contentar só com ter um modelo: deve imitá-lo. Na arena da virtude, os Santos assemelham-se a treinadores... Mas imaginemos que um homem apesar dos treinadores excelentes, fica imóvel; como ganharia estão um prêmio de corrida?

d) Deus

Incita-nos ao bem de mil modos... mas este mesmo Deus deu-nos o livre arbítrio e espera a nossa decisão generosa. "Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti". (Santo Agostinho)

e) As luzes da inteligência

Iluminam as provas racionais da religião. Sim, mas colocados diante do sol, podemos voltar-lhe as costas.

"A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas que a luz, porque as suas obras eram más. Com efeito todo aquele que faz o mal, odeia a luz". (Joan. III 19 e 20).

Todos nós conhecemos pessoas de inteligência perspicaz, que, todavia, vivem mal.

Estas pobres existências carecem de fundamento estável.

São uma perpétua contradição entre os princípios e o procedimento, entre o crer e o fazer. Conhecer a verdade e viver a verdade, são, infelizmente duas coisas diferentes: a sua distinção não é uma sutileza racional, mas uma verificação de fatos.

Esta falta de lógica nota-se não só nas pessoas das classes ordinárias, mas em homens distintos, nos aristocratas do pensamento e da arte, em sábios ilustres. "Ciência não é virtude", dizia Platão.

O nobre Péguy deixou-nos páginas magníficas sobre a Eucaristia. Apesar disso, não comungava. Durante a guerra, antes de um assalto singularmente perigoso, os oficiais receberam a comunhão. Pégut, o cantor da Eucaristia, absteve-se... Sem dúvida, não era nem indiferença, nem desprezo. Mas contraíra uma união que não pudera regularizar ainda. O poeta encontrava-se laqueado numa situação que lastimava, é verdade, mas que deploravelmente não suprimia...

f) Graça

Os teólogos ensinam-nos que algumas vezes ela é "necessitante". Mas acrescentam que, na imensa maioria dos casos, é simplesmente convidativa e que a nós pertence responder a este divino convite.

Lancemos mão de algumas comparações, para compreender que não basta ter uma ocasião preciosa, mas que importa aproveitá-la.

Suponhamos que o melhor médico do mundo apresenta o melhor remédio do mundo no mais belo prato do mundo. É preciso ainda que o doente se dê ao cuidado de estender a mão, para tomar esse remédio.

Eis que este mesmo doente passa diante de uma farmácia onde está exposto um medicamento que deu cem vezes boa conta de si. A cura será obtida só pelo fato deste homem descobrir uma droga por detrás de uma vitrina? Tem de comprar o produto e servir-se dele.

Outra hipótese: alguém vê uma fortuna. não será rico senão com a condição de pegar nesse dinheiro. Muitos empregados, nos bancos, são pobres, quando incessantemente manipulam avultadas letras... mas avultadas letras que não lhes pertencem.

Última suposição. Oferece-se uma iguaria a um esfomeado. O insensato despreza-a. De que serve então o alimento?

Resumamos: pode-se continuar doente junto do remédio; pode-se continuar pobre, junto de montes de ouro; pode-se continuar esfomeado, junto de uma mesa bem provida.

Eis, pois, sob a forma de uma tríplice imagem, toda a história dos que se recusam a cooperar com a graça. Essa graça, remédio, riqueza, alimento da alma, é-nos oferecida por Deus. Mas espera que façamos o gesto tão simples de a aceitar, de "colaborar". O dom vem d'Ele; a aceitação vem de nós. Falta-nos a boa vontade? Nesse caso, as graças não passam de proposições sem resposta.

Não poucos, infelizmente, maltratam estas diligentes antecipações divinas. Loucura!

Que pensaríamos de um homem que se deixasse morrer de sede, junto de uma água cristalina, fresca, abundante? Pois bem; muitos homens, postos junto de uma fonte viva de graças, recusam dessedentar-se.

Será necessário descer a algumas aplicações?

Lisieux é uma das fontes espirituais de que falamos. Ora, Chéron, antigo Ministro, veio a ser presidente do conselho municipal de Lisieux. Conhecera Teresa Martin, a futura Santa tamanhinha, e afirma-se que, para a entreter, tocava harmônica no compartimento por detrás da loja. Os anos passam. Teresa é canonizada; Chéron é nomeado para chefiar a administração desta cidade onde incessantemente cai uma chuva de rosas, onde afluem milhares de peregrinos.

E ele, que viu tudo isso, abraçou a religião? Reconheçamos lealmente que não exerceu nenhum sectarismo contra o Carmelo. Sei até de uma excelente testemunha, que vive em Lisieux, que o presidente do município se descobria quando passava diante da capela de Santa Teresa e que por fim consentiu que rezassem à Santa por ele. É já alguma coisa, e a amável Santa e Cristo misericordioso não podiam esquecer isso. Ignoramos o juízo divino. Apesar disso, temos o direito de notar que o Senhor não nos pede só que tiremos o chapéu, mas que demos o coração. Não basta consentir que os outros rezem, temos nós próprios de rezar.

De esperar é que o extinto fizesse mais que descobrir-se e autorizar orações. Verificamos somente que as provas faltam, e que, exteriormente ao menos, não houve, da sua parte, um esforço decisivo do ponto de vista sobrenatural...

g) Velhice

Converte necessariamente, dir-se-á. Quando o homem experimentou a decepção dos prazeres, quando já só tem paixões amortecidas, quando se sente próximo do ataúde e do grande Tribunal, como poderia não refletir e não se voltar para Deus?

Ah! sim, as coisas deviam passar-se deste modo.
Mas esta ordem normal tem muitas exceções. (Trata-se agora de conversões. Mas poderíamos fazer a mesma observação se falássemos do progresso na virtude e da perfeição. "De que serve viver muito tempo, já que nos corrigimos tão pouco? Ah! uma longa vida nem sempre corrige; muitas vezes aumenta ainda as nossas faltas. Há alguns que contam os anos da sua conversão; mas muitas vezes, quão pouco se mudaram e quão estéreis foram esses anos! Se é terrível morrer, talvez seja mais perigoso viver longo tempo." - Imitação, L. I, cap. XXIII: Meditação da morte).

Tenhamos a coragem de reconhecer a realidade, porque, segundo a expressão inglesa, "um fato é mais respeitável que um Lord Maior".

Ora, a história mostra-nos muitos desses fatos mais respeitáveis que os Lordes Maiores.

Mons. Baunard começa assim o capítulo XXV do Vieillard: "É muito cedo - e podemos calá-lo? - que ao lado e abaixo das belas e santas velhices... há um grande número de velhices profanadas, desonradas: as velhices sem Deus." E este capítulo XXV acumula os exemplos.

É lamentável! Nos jovens, o vício tem um dourado de poesia artificial. Mas no velho! Nem sequer é já um prazer, mas um tique vergonhoso. "Senilis amor foetet".

Que dó, essas obsessões senis de memórias libidinosas! E todavia, isso existe...


Que o pecado seja a impureza, ou o orgulho, ou a revolta ou a indiferença, o certo é que a obstinação não se cura sempre com a idade. Anatole France expirou, sem ter deposto, aos oitenta anos, o seu asqueroso cepticismo. Voltaire chegou aos oitenta e quatro anos. No fim da vida, escrevia muitas vezes ao fundo das cartas, antes da assinatura, esta fórmula: "A sombra de Voltaire". Era, pois velho e dizia-o; percebia que já não era um homem, mas a sombra de um homem; e assinava esta confissão. Apesar de tudo, retratou a sua obra de escândalo? Doellinger morreu no seu nonagésimo primeiro ano! Até ao último momento não teve a humildade de se submeter ao Papa e regressar à Igreja.

Há alguns meses, no intervalo de dois retiros sacerdotais de Saint-Brieuc, tive ocasião de ver a estátua de Renan, colocada junto da catedral de Tréguier, como um reto ímpio. Renan nascera na católica Bretanha; esteve algum tempo em Saint-Sulpice; atingiu avançada velhice. E, diante desta estátua, a mim próprio perguntava se não se realizava talvez para ele e para alguns outros, que por aí têm os seus bronzes, a terrível reflexão de Santo Agostinho:

"São louvados onde já não estão; são castigados onde estão"
 Laudantur ubi non sunt; cruciantur ubi sunt"...

h) Sacerdócio

Para o sacerdote, como para os leigos, vale a grande lei de que é preciso corresponder aos favores divinos. Ora, até nas fileiras do sacerdócio, pode haver falta de correspondência à graça. O infeliz Turmel, "excomunicatus vitandus, degradandus", posto no Index por catorze livros disfarçados sob falsos nomes, obstina-se em multiplicar publicações anti-religiosas. Ei-lo no entardecer da vida. Nasceu em 1854. Faça-se a conta!... [NB: a edição deste livro é de 1949]

Loisy (substituído por um outro desertor) retirou-se do combate. Experimentou a necessidade de escrever as suas Memórias. Pungentes! Ousa pretender que muitos dos seus confrades no sacerdócio pensam como ele, simplesmente lhes falta a franqueza.

É lançar indignamente a suspeita sobre todo o corpo sacerdotal. Demais (e isto faz arrepiar) pede que nos seus últimos momentos não chamem um padre e retrata antecipadamente toda a retratação, porque, diz, um gesto de penitência não se explicaria senão pelo delírio da agonia ou pelo enfraquecimento das faculdades mentais.

É horrendo o caso deste sacerdote que toma antecipadamente precauções para que um outro sacerdote o não venha absolver no último momento!

Pode-se, pois, encontrar a infidelidade à vocação em toda a parte, até no sacerdócio.

i) Milagres

Tal adversário exclama: "Veja eu um milagre e converte-me-ei".

Primeiro que tudo, notemos que é insolência pedir um milagre, e presunção contar com ele. Com efeito define-se: uma exceção a todas as leis da natureza. Pode-se racionalmente exigir de Deus um meio tão extraordinário?

Mas suponhamos que Deus faz um milagre. Haverá quem creia que a impressão de um tal acontecimento se tornará uma prova fulgurante diante da qual necessariamente a gente se inclinará? Julga-se que a testemunha do milagre se converterá infalivelmente?

Mas o Antigo e o Novo Testamento ensinam-nos o contrário.

Antigo Testamento. Faraó vira, não um milagre, mas dez e todavia, depois de cada um, endureceu o seu coração.Quantos homens se assemelham ao Faraó!

Diante das provas acumuladas, insensibilizam os corações! O salmo 94, recitado todos os dias como Invitatório, acautela-nos contra esta obstinação: "Não endureçais o vosso coração!"

Novo Testamento. Os que viveram perto de Nosso Senhor conheciam muito bem os Seus milagres. Se não eram testemunhas oculares, eram pelo menos testemunhas auriculares, porque a narração de atais prodígios devera espalhar-se pelo país, pouco extenso, onde se tinham passado. Mas aqueles homens rendiam-se sempre à evidência?

Procuravam às vezes subterfúgios miseráveis, atribuindo os fatos à intervenção de Belzebu, ou objetando que o repouso do sábado fora violado!

São João tem um texto significativo: "Embora tivesse feito tantos milagres na presença deles, não acreditavam n'Ele". (XII, 37).

São Mateus conta que Jesus curou o homem cuja mão estava seca. Os Fariseus estavam aí. Queremos saber o efeito neles produzido? É mais que inesperado: "Os Fariseus, depois de sair, deliberam contra ele, sobre os meios de o perder."! (XII, 14)

Oh! quão felizes somos por ter, a orientar-nos a vida, as luzes da fé!...

(Excertos do livro: Em face do dever - Volume I, pelo Pe. G.Hoornaert, S.J, traduzido por Pe. Elísio Vieira dos Santos, o original que serviu para esta tradução é o da 1ª Edição francesa que tem por título: "Face au Devoir")

PS: Grifos meus.

Ver também:

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