segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A PROBIDADE

A FORMAÇÃO DA VONTADE
PARTE X


A PROBIDADE

"O temor de Deus é o princípio da sabedoria, e, por conseguinte, da probidade".

Em que consiste a probidade?
Consiste na observância rigorosa e delicada de todas as leis da justiça.

Quais são os perigos que corre a probidade das crianças?
- Uns são pessoais, e nascem das paixões.
- Outros são exteriores, e resultam das ocasiões e do escândalo.

Quais são as paixões que expõem a desfalecimentos a probidade das crianças?
- É a gulodice.

Um rouba bombons, chocolate, frutas, guloseimas; outro rouba dinheiro, para poder comprar o que lhe lisonjeia o gosto e o paladar.

- É a vaidade.

Certas crianças roubam para fazer alarde do que roubaram: dinheiro ou doces. Outras roubam para poder comprar bugigangas que mostram aos seus companheiros.

- É a cólera ou o capricho.

A criança parte uma vidraça, suja uma parede, risca um móvel, rasga um livro, corta um objeto com uma faca, faz um estrago mais ou menos importante; umas vezes, procede assim, porque não está satisfeita e precisa de descarregar os nervos; outras vezes, porque nada tem o que fazer e sente necessidade de fazer alguma coisa; e, ainda outras, pelo simples prazer de irritar, de contrariar, de ver o que acontecerá...

Como é que as ocasiões são um perigo para a probidade das crianças?
A ocasião faz o ladrão, diz um provérbio, que em tudo é verdadeiro, e mais verdadeiro ainda quando se trata de crianças.

Quantas, que se tornaram ladrões, não continuariam a trilhar o caminho da probidade, se, na idade em que ensaiaram os primeiros passos na estrada da virtude, não houvessem encontrado a ocasião, quer dizer, a facilidade de praticar o mal! Por isso, são culpados os pais que expõem os filhos a frequentes tentações.

Qual é o grandes escândalo que mais pode abalar a probidade da criança?
É o espetáculo da injustiça triunfante; e, talvez ainda mais, o ilogismo de certas pessoas reputadas muito honestas, mas que não são probas.

"Certos homens, por exemplo, que vos não enganariam num centavo em uma conta, vender-vos-iam sem escrúpulo, como excelente, um cavalo em que reconhecessem um defeito irremediável, mas não redibitório; a probidade destas pessoas fica à porta da estrebaria. Outros, que se envergonhariam de vos roubar dinheiro, não vos dão aquele que vos pediram emprestado. Outros dão-vos o vosso dinheiro, e não vos restituem os vossos livros. Alguns colecionadores apaixonados de gravuras, de autógrafos, de objetos de arte, encontram na sua paixão uma circunstância de tal modo atenuante que nem sequer lhes passa pela idéia a aguilhoada do remorso da sua improbidade... Um homem considerar-se-ia desonrado, se o supusessem capaz de jogar com certas marcadas; mas, se o acaso ou mesmo a astúcia  o faz senhor dum segredo, cuja divulgação influirá certamente sobre os fundos públicos, correrá a jogar na Bolsa, seguro e firme, como quem arma um laço".
(E. Legouvé, A nossas filhas... p. 227-228)

Que meio se devem empregar para precaver a probidade das crianças contra o escândalo exterior?
Recordar-se-lhes-á o sétimo mandamento do Decálogo; dir-se-lhe-á que da vontade de Deus não há apelo; procurar-se-á convencê-las de que o procedimento dos homens em nada muda o rigor do preceito; e que, por fim, é Deus que nos há-de julgar, e que não é sensato, nem prudente, nem lógico, infringir as Suas leis.

Devemos contentar-nos com estes meios defensivos?
Não.

- Os pais empregarão sempre uma linguagem em harmonia com a equidade, a justiça e o bom direito;

- Procederão em harmonia com as suas palavras;

- Jamais permitirão a seus filhos dizerem ou fazerem seja o que for que prejudique os direitos ou a prosperidade de outrem; não os deixarão colher uma flor, nem apanhar um fruto sem licença;

- Fá-los-ão imaginarem-se no lugar daqueles aos quais estão tentados a causar qualquer prejuízo;

- E, sobretudo, acostumá-los-ão a considerarem-se sempre na presença de Deus, que declara que os roubadores jamais entrarão no reino dos céus.

Millet conta que, depois de uma tempestade tão forte que tinha arrebatado o colmo das casas e partido as asas dos pássaros, mesmo nas gaivotas, descera à praia. "Então, dizia ele, apanhei do chão uma pequena escultura em madeira, proveniente talvez dalgum navio perdido nas nossas costas. Quando minha mãe me viu com ela, ralhou-se com energia, benzeu-se e obrigou-me a ir pô-la onde havia encontrado e a pedir perdão ao bom Deus do meu latrocínio, o que eu fiz sem demora, envergonhado da minha ação".
(Rene Banzin, A doce França, p. 86)

E, se, no entanto, se sabe que a criança faltou à probidade que atitude se deve tomar?
Deve-se procurar impressioná-la, mostrando horror por semelhante ação, e manifestar tristeza, como quem está de luto.

É preciso, não obstante, conservar o fato em segredo e não humilhar o delinquente senão na medida julgada útil à sua emenda. Depois, quando se tiver ocasião oportunas, reprova-se a indignidade, mas sem alusão, faz-se ressaltar a desonra que recai sobre a família dos pequenos ladrões, mostra-se que ninguém tem confiança em quem não é duma rigorosa probidade, etc.

(Excertos do livro: Catecismo da educação, do abade Rene de Bethléem, o próximo post será sobre o espírito de sacrifício)

PS: Grifos meus.
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