segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A ORDEM

A FORMAÇÃO DA VONTADE - PARTE IX


A ORDEM

Que se deve entender pela ordem, cujo hábito convém fazer contrair à crianças?
Damos a esta palavra uma ampla acepção; eis porque, além da ordem propriamente dita, nos referimos à regularidade sob todas as suas formas.

A ordem propriamente dita

Quais são as vantagens da ordem propriamente dita?
- A ordem economiza o tempo.

"Tendes necessidade duma coisa? Não perdereis nunca um momento a procurá-la... Encontrá-la-eis logo à mão."
(Fénelon, Da educação das filhas, cap. XI)

- A ordem encanta a vista.
"Esta bela ordem faz parte integrante do asseio; o que mais desperta a atenção é ver este arranjo tão cuidadoso."
(Fénelon, ob. cit., cap. XI)

"A ordem valoriza os objetos mais ordinários, o vestuário mais simples, os móveis mais vulgares."
(Abade Knell)

- A ordem conserva as coisas.

"O lugar que se dá a cada coisa, desde que seja aquela que mais vantajosamente lhe convém, não só para regalo da vista, mas também para conservação do próprio objeto, faz que este se deteriore menos; e, de ordinário, não se estrague por efeito de desastre."
(Fénelon, ob. cit)

- A ordem atrai a estima.

"É uma carta de recomendação que toda a gente pode ler".
(Abade Knell)

As donzelas, sobretudo, devem considerá-la como necessária à acomodação da sua vida no caminho da felicidade e da prosperidade.

- A ordem favorece a virtude.

Torna aos "criados o serviço rápido e fácil", remove "por si mesma a tentação de se impacientarem muitas vezes pelos atrasos que resultam da desorganização em que se acham as coisas que levam tempo a encontrar".
(Fénelon, ob. cit., cap. XI)

- A ordem assemelha-nos a Deus.

São Paulo na sua epístola aos Romanos, dá-nos a entender que a ordem é o sinal de Deus nas Suas obras. (São Paulo, Rom. XIII)

Como se podem obrigar as crianças a contraírem o hábito da ordem?
- Submeter-se-ão, desde o nascimento, a uma regularidade pontual, em todas as operações referentes à vida vegetativa: alimentação, sono, etc.

- À medida que forem crescendo, habitua-se-ão a arrumar os brinquedos e os objetos de que se servem.

- Nunca se lhes permitirá que deixem pelo chão os livros, as roupas, o calçado, etc.

- Ir-se-ão aperfeiçoando, confiando-se à sua responsabilidade material qualquer objeto.

- Não se lhes tolerará negligência no trajar: nem o chapéu à banda, nem a gravata mal posta, nem as botas desapertadas, nem os atacadores a arrastar, nem rasgões descosidos, nem a falta dum botão, etc.

- Felicitar-se-ão por todos os esforços que empregarem e por todas as ações que realizarem, desde que a uns e a outras presida a boa vontade.

- Dar-se-lhe-á sempre o exemplo do hábito que se pretende que elas adquiram.

A regularidade

"A primeira condição de toda a boa educação é a regularidade, porque a inteligência das crianças, como o seu caráter, como o seu coração, têm, antes de tudo, necessidade de ordem, com a qual se granjeia tanto a saúde moral como a física".
(E. Legouvé, As nossas filhas, p. 206)

Que é regularidade?
- A regularidade é essa forma superior da ordem que determina o emprego do tempo e o uso das faculdades.

Ela é necessária a toda a educação séria.
Ela exige um regulamento.
É a regularidade pessoal.

- A regularidade é essa forma delicada da polidez que produz a exatidão nas diversas relações da vida de família e de sociedade. É a regularidade familiar e social.

Por que é necessária a regularidade pessoal, a toda a educação séria?
Porque a educação exige uma ação racional, refletida, contínua e enérgica; só a regularidade é capaz de proporcionar estas vantagens.

Há muitas famílias onde a regularidade seja respeitada?
Há!

Por diversas razões, que nem sempre devem ser atribuídas à vontade, a regularidade quase se não respeita em nenhumas famílias. Na maior parte delas, a não ser nas coisas de mais alto alcance, vive-se sem regra, à mercê dos caprichos e das circunstâncias.

Que sucede às crianças em semelhante meio?
As crianças, se lhes é ministrada a educação em casa ou nalgum externato, não têm outra vigilância que não seja a dos seus professores... E Deus sabe como esta vigilância é geralmente insuficiente.

O capricho e a fantasia invadem uma grande parte da sua vida, tornam ineficazes as leves tentativas da regulamentação feitas pelo professor ou impostas pelos estudos.

Não resta o recurso do internato para suprir o que falta no seio da família?
Para fazer calar a voz da consciência, que reprova a insuficiência duma tal educação, procura-se no expediente do colégio a eficácia mais maravilhosa, dizendo:

- Bem sabemos que a vida, como se passa entre nós, não é de molde a educar bem as crianças, mas eles aprenderão a regularidade no colégio.

Pois bem: não é verdade!

Se a família só vive a seu bel-prazer, as crianças nunca aprenderão a regularidade no colégio; sofrerão o seu jugo, mas não se entranhará na sua vida. Pelo menos, enquanto os pais forem os destruidores, talvez inconscientes, mas reais, do bem que a regularidade da vida do colégio possa ter introduzido nos hábitos dos seus filhos.

Mgr. Dupanloup estigmatiza com palavras vibrantes o processo empregado:

"Quando os pais não exortam os filhos a conformarem-se com esta dura regra e com este penoso trabalho, senão com palavras como estas: 'Não tens mais que um ano para estar aqui... Só faltam três meses para as férias... quinze dias para a próxima saída'. E isto com o acompanhamento obrigado das consolações mais compassivas... Quando os pais procedem desta maneira, o que não é raro, que mais é preciso, pergunto eu. para a traição de todos os mais sérios deveres, para o aniquilamento de toda a educação?"
(Da educação, t. II, p. 263)

Que se deve pensar da irregularidade na vida da família e da sociedade?
Não nos deixemos iludir, vendo nisto um capricho da juventude que desaparece com o ardor dos primeiros anos.

Na verdade, a irregularidade tem causado múltiplos estragos: tem perturbado mais que uma vida; tem inutilizado as melhores qualidades; e, quando ela se acha inveterada, resiste muitas vezes aos esforços reunidos da ternura e da vontade.

Como pode a irregularidade perturbar a vida?
- Tornando impossível as doces reuniões da família em volta da mesa comum.

"As minhas obrigações faziam-me sair a uma hora fixa e exigiam uma regularidade absoluta nas horas das refeições. O almoço devia ser servido às onze horas em ponto. Às onze horas entrava na sala de jantar... Ninguém! Algumas vezes nem mesmo estava nada sobre a mesa! A senhora tinha dado as ordens muito tarde ou se o almoço estava pronto, era a senhora que não estava. Esperava dez minutos, um quarto de hora e, aborrecido, começava sozinho uma refeição que me fazia mal, porque comia só, porque comia muito depressa, porque comia de mau humor. Tentava, por vezes, algumas observações, ligeiras ao princípio, depois mais vivas. Minha mulher recebia umas e outras com o mesmo ar amável, o mesmo desejo de se corrigir; mas, dezesseis anos de maus hábitos tinham tão profundamente enraizado nela o seu defeito nativo, que ele triunfou das melhoras resoluções. Depois de alguns dias de regularidade, as demoras recomeçaram, e eu tive de renunciar a esta agradável reunião da manhã à mesa comum; almoçava só no meu gabinete, e não via minha mulher senão à tarde."

(E. Legouvé, As nossas filhas e os nossos filhos, p. 205-208)

Submetendo a uma prova demasiado dura a paciência e a boa harmonia...

Como é que a irregularidade estraga as melhores qualidades?
- Tornando-se inúteis, por haver deixado perder as ocasiões que as fariam valer.

"O marechal Gouvion-Saint-Cyr, refere, nas suas Memórias, que um general cheio de fogo e de gênio militar, mas habitualmente falto de pontualidade por preguiça, perdeu a honra duma vitória certa por ter chegado ao campo da batalha meia hora mais tarde da marcada".

(E. Legouvé, As nossas filhas e os nossos filhos, p. 209-221)

- Empanando essas qualidades com certos defeitos muito odiosos, filhos da irregularidade: a mentira, por exemplo.

"Todo o homem falto de pontualidade é forçosamente um mentiroso. Quer queira, quer não, mentiu, mente ou há-de mentir".
(E. Legouvé, As nossas filhas e os nossos filhos, 209-221_

Como chegaremos a fazer praticar às crianças a regularidade familiar e social?
- Dando-lhes sempre o exemplo;
- Reprimindo toda a irregularidade sem motivo;
- Resguardando-as contra a influência do mau exemplo;
- Ensinando-lhes a aproveitar o tempo que a irregularidade lhes deixa à disposição.

Qual é a importância do bom exemplo dado pelos pais na prática da regularidade?
É capital.

Sem exemplo, os melhores conselhos tornam-se ineficazes.

É necessário reprimir toda a irregularidade sem motivos?
Sim, porque um defeito não combatido desenvolve-se e toma rapidamente proporções desastrosas.

Por que é preciso resguardas as crianças contra os maus exemplos?
Porque a irregularidade é muito frequente.

E, como ela se combina bem com a preguiça que se oculta no fundo de cada um de nós,  tem probabilidades de provocar, naqueles que se não defendem. esta forma particular da sensualidade que se chama a sem-cerimônia e o deixa-correr.

Qual será então o melhor meio de se defender?
Será os indivíduos metódicos e, portanto pontuais, aproveitarem o tempo que passam à espera dos que o não são...

(Excertos do livro: Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: A probidade)

PS: Grifos meus.
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