terça-feira, 3 de agosto de 2010

Meditação da terça-feira (Sobre a Paixão de Nosso Senhor)

MEDITAÇÃO DA TERÇA-FEIRA
A PRISÃO DE JESUS


1- Considera como, chegado Judas ao Horto, e tendo dado em seu divino Mestre, o pérfido ósculo, sinal da sua traição, aquela soldadesca insolente que fora prender a Jesus, se lançou sobre Ele, atacando-O como um malfeitor! Um Deus preso! E por amor de Suas próprias criaturas!

Ó Anjos dos Céu e homens da terra, que dizeis vós a semelhante espetáculo?! E por que é que Vos deixais prender, ó meu Jesus?

"Ó Rei dos Reis, exclama, banhado em pranto, São Bernardo, que relação têm conVosco estas cordas, próprias só para criminosos? E, se os homens ousam atar-Vos com elas, Vós que sois todo poderoso, por que não desatais os seus laços? Por que Vos não livrais dos cruéis tormentos que Vos preparam os malvados? Não; não, são esses bárbaros quem Vos subjuga, mas o amor que nos tendes: ele é que Vos prende, que Vos ata, que Vos prende, que Vos condena à morte"

"Olhai, cristãos, diz São Boaventura, olhai como aqueles cães raivosos maltratam a Jesus: este O agarra, aquele O empurra, este outro O está atando, em quanto aquele outro O fere e espanca: e Jesus, vede, qual manso cordeiro, não opõe a mínima resistência, deixa-se conduzir ao sacrifício. E vós, discípulos covardes que fazeis? porque não acudis a libertá-lO das mãos dos Seus inimigos? Porque O não acompanhais ao menos para defender a Sua inocência na presença dos juízes? Ao contrário, ao vê-lO preso e atado, os discípulos fogem e O abandonam."

Ó Jesus meu, quem, tomará a Vossa defesa, se os Vossos próprios apóstolos Vos abandonam? E o pior é que esta injúria não terminou com a Vossa Paixão: não; quantas almas há ali que, havendo-se consagrado ao Vosso serviço, e tendo recebido de Vós muitos favores especialíssimos, por um interesse mesquinho, por um vil respeito humano, ou por um deleite imundo e degradante Vos abandonam? Ai de mim! pois também eu tenho sido do número desses ingratos. Perdoai-me, ó meu Jesus; que eu não quero mais apartar-me de Vós: amo-Vos sobre todas as coisas e antes quero perder a vida do que a Vossa graça.

2 - Preso assim Jesus, e levado perante Caifás, Lhe perguntou este pelos seus discípulos e pela sua doutrina. O Salvador respondeu-lhe, - que sempre havia falado em público e nunca a ocultas; que todos os que ali estavam sabiam o que Ele tinha ensinado; a esta resposta, um daqueles ministros atrevidos, tratando-O de insolente e temerário, descarrega-Lhe na face uma tremenda bofetada, dizendo: "Assim respondes ao Pontífice!" Oh! paciência infinita do meu Jesus! Pois que! uma resposta tão ajustada, tão pacífica, mereceria tão grave afronta? e diante de tanta gente? e do mesmo Pontífice, que em vez de repreender aquele ousado, mostrou com o seu silêncio aprovar o desacato?

Em seguida o iníquo Pontífice perguntou a Jesus, se na verdade era Ele o Filho de Deus, e tendo-lhe tornado o Senhor, que sim, Caifás rasga as suas vestes, e declara a Jesus blasfemo; e todos proclamam - "É réu de morte."

Sim, ó meu amado Salvador; réu de morte sois, porque Vos obrigastes a satisfazer por mim, que sou digno da morte eterna: mas, já que pela Vossa morte me alcançastes a vida da graça, justo é que eu me sacrifique por amor de Vós. Eu Vos amo e estimo, Senhor, e não desejo senão amar-Vos: e, se Vós, Rei dos Reis, quisestes ser desprezado até este ponto por meu amor, eu quero pelo Vosso sofrer todos os desprezos e injúrias que me fizerem. Eia, pois, Senhor, pelos merecimentos dos Vossos ultrajes dai-me força e valor para sofrer os meus.

3 - Declarado, assim, Jesus réu de morte pelo conciliábulo dos ministros da sinagoga, pôs-se a turbamulta dos seus satélites a maltratá-lO às bofetadas e pancadas e cuspindo-Lhe no rosto nojentos escarros, e assim, estiveram todo o resto da noite diabolicamente entretidos, vendando-Lhe os olhos, e dizendo-Lhe por escarneo; "Tu que és profeta adivinha quem foi que te bateu?" Considera aqui o silêncio admirável e a paciência heróica deste manso Cordeiro, que, sem se queixar, tudo sofreu por nós, e dize-Lhe:

"Se estes, ó meu amado Jesus, Vos não conhecem, reconheço-Vos eu e Vos confesso por meu Deus e meu Senhor, e declaro que tudo quanto sofreis, sendo inocente, por amor de mim o sofreis: eu Vo-lO agradeço e Vos amo de todo o meu coração."

Ao amanhecer levaram-nO ao pretório de Pilatos, para que em forma judicial O condenasse à morte. Pilatos declarou-O inocente; e não obstante, para comprazer com os judeus, que prosseguiam amotinados, remeteu-O a Herodes. Este que desejava ver algum milagre do Salvador, movido só da curiosidade, foi-Lhe fazendo neste intuito algumas perguntas: Jesus, porém, calava-se e não lhe dava nenhuma resposta, que Lh'a não merecia aquele malvado. Irritado por isso Herodes, fê-lO sofrer muitos desprezos, e, com especialidade, fez que O vestissem de branco, e O fizessem passar por louco.

Ó Eterna Sabedoria! esta injúria Vos faltava! ser tratado como louco!

Oh! meu Deus! Também eu até agora por amor das criaturas Vos hei desprezado: não me castigueis, porém, Senhor, como a Herodes, privando-me da Vossa palavra; pois que se ele não se arrependeu de haver-Vos ofendido, eu me arrependo; se ele Vos não amou, amo-Vos eu sobre todas as coisas. Não me negueis a voz de Vossas inspirações; dizei-me o que quereis, pois tudo quero fazer com a Vossa graça. Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim.

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

PS: Grifos meus.
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