domingo, 29 de agosto de 2010

RECOLHIMENTO EUCARÍSTICO

RECOLHIMENTO EUCARÍSTICO



Quem fala em recolhimento, para logo se lembra do grande recolhimento, talvez o mais impressionante porque o mais misterioso: o recolhimento de Jesus Cristo, nas espécies sacramentais, recolhimento a que nós chamaremos de recolhimento eucarístico.

Em verdade, Vós és o Deus escondido! Quem poderia imaginar um abaixamento assim?! - "Na cruz - exclama Tomás de Aquino, admirado- se escondia a divindade, mas aqui, na Eucaristia, se esconde também a humanidade".

Este mistério do escondimento completo dá à Igreja um cunho peculiar, único, do qual nem ela, nem seus filhos (quer pertençam ao clero, quer ao laicato) se podem afastar, sob pena de desvirtuarem a sua essência e sua missão.

O mistério da Eucaristia é a vida da Igreja, a sua força, pois é o encontro permanente de Deus com os homens: Emanuel, Deus conosco.

Contemplemo-lO sob Seu tríplice aspecto: sacrifício, comunhão, sacrário. E sob qualquer destas modalidades, em que encontraremos Jesus Cristo, no Seu recolhimento de Amor, havemos de exclamar, elevados: "Na verdade, Vós sois um Deus escondido".

1- No santo Sacrifício

Eis o monumento construído pelo Amor, para perpetuar o Amor entre nós, e no-lo distribuir generosamente. Não se poderia imaginar maior grandeza, envolvida em maior simplicidade. Tomou Jesus Cristo o pão e o vinho, em Sua mãos santíssimas, elevou os olhos aos apóstolos, dizendo:

"Tomai e comei, isto é o meu corpo que será entregue por vós. Tomai e bebei, isto é o meu sangue do novo testamento, que será derramado por muitos, em remissão de seus pecado. Fazei isto, em memória de mim".

Foi, assim, a primeira santa Missa, com o seu ofertório, a sua consagração, e a sua comunhão, tudo dentro da mais severa simplicidade e brevidade. Como se nada fosse um Deus se revestir dos acidentes de pão e de vinho. Ó recolhimento eucarístico!

É verdade que a Igreja, através do séculos, cheia de veneração e de amor, cercou esta simplicidade de cerimônias mais ou menos longas, de cânticos, de orações.

Mas, ainda assim, desde a santa Missa rezada na capela mais humilde do sertão até a santa missa cantada, com todo o esplendor da liturgia, em basílica suntuosa, é sempre a mesma modéstia da oblação, o mesmo silêncio impressionante da transubstanciação, a mesma bondade e singeleza da fração do pão. Mistério da fé!

Se não soassem as campainhas, nem saberiam as assistências numerosas quando se realiza o milagre: quando Jesus Cristo está presente, quando Jesus Cristo se reparte. Mistério estupendo de recolhimento.

E o mais impressionante é saber-se que o mistério se realiza, tanta vez, no meio da maior distração ou indiferença, quem sabe até desprezo ou profanação: ninguém se lembra (e às vezes - ó tristeza! - nem o próprio celebrante) que se renova o sacrifício, vinte vezes secular, de um Deus que Se imola por nosso amor.

Realmente, não podemos conceber luz mais intensa, escondida sob alqueire mais fechado. Em verdade, a santa missa é um prodígio de recolhimento.

Assistamos a uma santa missa rezada, de madrugada, na clausura de algum convento pobre ou na capelinha rústica perdida sobre as montanhas... E reflitamos: é um Deus a vítima... É um Deus a comida... e tudo, assim, silenciosamente, ninguém percebe... pobremente, ninguém repara... Pode-se imaginar recolhimento mais profundo?!

2 - Na santa Comunhão

"Tomai e comei: é o meu corpo. Tomai e bebei, é o meu sangue...".

Com estas palavras, de uma simplicidade desconcertante, Jesus Cristo convida o homem para a mais extraordinária elevação que se possa imaginar. Eu bem compreendo por que os judeus, escandalizados, viraram as costas, perguntando: "Como pode este homem dar sua carne para comer?!... e seu sangue, para beber?!..." Os pobres judeus, amigos da ostentação e das grandes exibições até nas praças públicas, como entenderiam o recolhimento singular das palavras de Jesus, e, mais do que isto, o recolhimento do prometido:

"Eu quero esconder-me em uma migalha de pão, e em uma gota de vinho, para, depois, esconder-me em vossas almas; em tua alma, sim, em tua alma, meu filho".

Já se viu coisa semelhante? É loucura! Se é Deus, que saiba guardar Sua grandeza e dignidade; se é homem, como se atreve a prometer aquilo que só o milagre realiza?!

Entretanto, a Verdade eterna continua:

"Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, fica em mim e eu nele".

Ó mistério insondável. Ó recolhimento incompreensível: Um Deus vivo em uma migalha de pão! Um Deus vivo na pobre alma humana!

Há cibórios de prata, os há de ouro também, cravejados de pedrarias. Mas quão poucas são as almas verdadeiramente preciosas pela sua pureza, pela sua humildade, pela sua caridade e fervor! Quão poucas!

Entretanto, Jesus, conhecendo-as, sabendo a sua fraqueza e mesquinhez e, tanta vez, sua indignidade e hipocrisia, as convida, insistentemente:

"Vinde a mim, vós todos... Tomai e comei, isto é meu corpo..."

E, então, são estas comunhões por rotina, estas comunhões sem preparação, estas comunhões para agradar a alguém, estas comunhões para fazer número; estas comunhões de classe, estas comunhões - ó horror! talvez mais numerosas do que se pensa - comunhões sacrílegas! E, em todas elas, é o mesmo Jesus silenciosos, paciente, sofredor, no recolhimento que Ele inventou para Se unir intimamente às almas. Os santos compreendiam estes aniquilamentos e choravam, como Santa Catarina de Sena, ao presenciarem as comunhões da tibieza e da impiedade.

Não há dúvidas que houve, em todos os tempos, almas que souberam hospedar Jesus. Almas- sacrários, almas que provocaram a confidência consoladora de Nosso Senhor: "As minhas delícias é estar entre os filhos dos homens". Almas que bem poderiam dizer com Santa Madalena de Pazzi: "Depois da santa comunhão, eu não sabia se estava viva ou morta, em meu corpo ou fora dele, sobre a terra ou no céu: nada via, senão Jesus".

E Santo Agostinho, perplexo por tal modo de Se dar, perguntava: "Alimento?! Alimento?!" Ouviu, então, a resposta tranquilizadora: "Não sou Eu que me mudarei em ti, mas tu que te mudarás em mim".

Ó mistério da consdescendência divina! Escolhe a clausura de uma migalha, a clausura de uma gota, para ocultar-Se depois, na clausura da alma humana. Esconde-Se À moda de um (perdoai-me, Senhor) micróbio, que só o microscópio pode enxergar; sim, só através da fé é que se descobre Jesus no Seu recolhimento eucarístico.

E Ele entra no coração humano, numa ânsia de união íntima, perfeita, até com as mais pobres e humildes criaturas. "Ó coisa admirável! - exclamava o Doutor Angélico - comem o Senhor, o pobre, o servo, o humilde".

Ele entra na minha alma. Prostro-me, profundamente, fecho os olhos, e, adorando, penso, penso... Jesus em mim, Ele, o Verbo, por quem foram feitas todas as coisas; o Verbo, que é caminho, verdade e vida, que é luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo, cujo nascimento temporal em Belém divide a história da humanidade; o Verbo, no qual se revêm, beatificamente, os Anjos e os Santos do Céu; Ele está em mim, silenciosamente, humildemente... Momentos antes, poderia tê-lO mastigado impiamente, ou expelido de minha boca... Já se viu recolhimento mais completo?!

E eu, que nada sou, que sou pecador e maldade, como fujo do recolhimento! Como gosto de me derramar, de me exibir, de chamar sobre mim a atenção das criaturas. Como me enfeito com as penas dos outros e quero passar por alguém. Senhor, que vergonha! Perdoai-me!

Jesus em mim! Não sei aonde mais Ele poderá descer e esconder-Se. Não sei que recolhimento mais heróico Ele poderá encontrar?

Ó alma humana! A minha alma! A minha pobre alma! Ó santa comunhão!

3- No sacrário

Mas a alma humana, apesar de sua indignidade, é alguma coisa viva. E há almas menos indignas do recolhimento da santa comunhão, almas que se esforçam, que amam, que correspondem, de algum modo, ao amor de Jesus Cristo.

Há, portanto, outro aspecto do recolhimento eucarístico mais impressionante ainda: é o recolhimento do sacrário.

Oh! meu Senhor, será possível? Não bastavam os outros exemplos? O recolhimento no seio da eternidade, no seio da Virgem, o recolhimento em a morada humilde de Nazaré, o recolhimento no Sacrifício do altar e na alma do comungante?! Quereis mais ainda, meu Senhor? Será possível?

E entra o turista em famosa catedral. O turista?! e quantas vezes o próprio cristão - contempla extasiado as suas arcadas monumentais, examina a ordem de suas colunas, o acabamento e elegância dos capitéis; mede com o olhar seus grandes vitrais, por onde teima em passar o sol, avivando aquelas cores mágicas; contempla os painéis de pintores célebres, as estátuas de pedra, os altares riquíssimos; passa por uma capela envolvida em mística obscuridade, na qual arde uma lâmpada de prata, lâmpada que também passa pelo severo exame histórico-artístico do turista ou do cristão (que às vezes, formam um só); quem sabe se examina ainda, cuidadosamente, a porta do sacrário, talvez de mármore ou de bronze... E o turista sai, sai o cristão, sem terem dado a menor importância ao grande Escondido, ao divino Escondido, em honra do qual ali estão as dimensões, as colunas, as ogivas, as rosáceas, os altares, os painéis, as estátuas, o grande órgão, tudo, tudo...

Ó cegueira e dissipação humana! Ó recolhimento divino! Será possível? Dá-se valor a tudo, tudo se examina e se observa, mas, o verdadeiro "Tudo" fica esquecido no sacrário...

Estava eu, certa vez, em nossa igreja franciscana de São Paulo, quando entrou uma família de judeus, acompanhada por um frade que dava instruções para, eventualmente, receberem o batismo. O frade, com jeito, explicava o sentido e finalidade dos altares, imagens, velas, de tudo. Chegando ao altar mor, parou, olhou para o sacrário, fez uma pausa, durante a qual pais e filhos se aconchegaram mais uns aos outros, cheios de natural curiosidade. Então, o franciscano, olhando para cada um e conservando a mão direita, respeitosamente, a indicar o tabernáculo, diz com tom firme e suave:

"Nós católicos, cremos firmemente que aqui, no sacrário, está, escondido sob as aparências do pão consagrado, Jesus Cristo, Nosso Senhor, vivo, com Seu corpo glorioso, como está no céu".

Que momento! suspendi a respiração. Que pensariam? que diriam eles: O mesmo Jesus que seus antepassados perseguiram, caluniaram, esbofetearam, mataram, sim, Ele mesmo, vivo, ali estava, olhando para eles, esperando sua resposta. Voltar-lhes-iam as costas? Ou diriam com São Pedro: "A quem iremos, Senhor?! Tu tens palavras de vida eterna". Que momento decisivo! o frade fez uma genuflexão profunda, demorada. Fechei os olhos para não ver o resto...

Mas pensei: ó recolhimento, ó clausura humilhante: uma caixa de pedra ou de madeira ou de metal... E dentro dela, Jesus, o céu...

E não é só pela morada em si, que, às vezes, é preciosa. Mas, é pelo isolamento, em que O deixam, tanta vez, clero e fiéis. Quantas vezes, horas e horas, e a lâmpada se apaga: eis o recolhimento impressionante do tabernáculo de Deus.

Há, também, sacrários desalinhados, sujos, maltratados, indecentes, e Nosso Senhor lá está, com o mesmo amor, com o mesmo desejo de Se repartir e de Se dar aos fiéis.

É verdade que, nos últimos anos, se formou uma legião de almas fervorosas que não abandonam o sacrário: são as almas adoradoras. - Almas abençoadas que, de algum modo, correspondem ao amor divino escondido e que monta guarda de honra e de reparação, pelos ingratos, pelos indiferentes, pelos ímpios, por todos os que não adoram a Jesus.

E organizam-se grandes congressos, admiráveis concentrações eucarísticas, que tiram o Senhor do Seu profundo isolamento, levando-O em triunfo pelas ruas e pelas praças. Mas, será mesmo que Jesus é o centro de tudo? Não há perigo que, justamente, Ele, fique o mais esquecido?!

Quão raras são as Terezinhas verdadeiras que, cheias de inocência e de amor, atiram flores a Jesus, ao passar pelas ruas em procissão! Quão raros sãos os campônios do Santo Cura de Ars que ficam, horas inteiras, namorando o sacrário, na convicção profunda de que "Jesus olha para eles, assim como eles olham para Jesus"!

Há, desgraçadamente, também, mãos de Judas, de todos os tempos, mãos sacrílegas, que arrombam o sacrário, donde roubam o Senhor sacramentado, que vão levar - quem o diria? - para suas orgias diabólicas ou para o desprezo do montuoros. Perdoai, Senhor, por piedade! Perdoai tanta maldade!

Pobre sacrário, tão fraco e impotente para guardar e defender Jesus! Mas, foi Ele que assim o quis, Ele, na fortaleza misteriosa de Seu recolhimento.

E fica sempre a verdade, apesar de tudo: Eis o Tabernáculo de Deus, com os homens! O Tabernáculo do recolhimento eucarístico! Oh! nós, que temos fé, não O abandonaremos. Levemos as nossas flores; ascendamos as nossas luzes e, de joelhos, cerquemo-lO com as nossas adorações.

Que este recolhimento de Amor, recolhimento impressionante, cubra e corrija as dissipações e ostentações da nossa pobre vida.

Ecce tabernaculum Dei!

(Recolhimento, por D. Fr. Henrique Golland Trindade O. F. M, bispo de Bonfim)

PS: Grifos meus.
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