segunda-feira, 9 de agosto de 2010

VI. O ANJO

VI. O ANJO


Ai! Jesus vai apenas entrando nesse mar doloroso da Paixão, e deve haver um como fatal progresso nas Suas humilhações.

Ao Seu inefável desalento teria faltado um sofrimento de escolha e todo íntimo, se Ele não tivesse tido que ir mendigar socorro... e se o não tivesse recebido de fora.

Ele, o Forte, o Grande, o Mestre, vai primeiro procurar um apoio nos Seus Apóstolos, qual um caniço que se quer arrimar a outros!

Naquele horto onde perpassa o vento terrível da Justiça superior, tudo está já deitado em terra... o Mestre... e os discípulos.

O Mestre, que estende a mão para que O levantem, e os discípulos que estão aniquilados, sem vontade, sem pena aparente senão de si próprios! A desgraça torna egoísta.

Ele que lhes repreendia outrora a timidez e o pavor nas ondas agitadas de Tiberíades, vê-se obrigado a vir por Sua vez agachar-se junto deles e dizer-lhes por toda a Sua atitude, por Seu Rosto macilento e por Sua palavra trêmula, esta expressão que faz ruir todo homem aos próprios olhos e aos olhos dos outros: Tenho medo!

Este quadro era terrível para a fé dos Apóstolos, a qual teve de vacilar e quando menos de se lhes entorpecer como as pálpebras e balbuciar como os lábios...

Já é o começo da fuga... do abandono daqueles com quem tínhamos o direito de contar e que nos deixam porque a nossa presença já não os honra e a nossa amizade lhes é perigosa.

Este traço doloroso – como todos os que mais sensíveis Lhe deviam ser – fôra assinalado de antemão pelos Profetas.

“Busquei em torno de mim alguém para me ajudar... e não achei” (Sl 69, 20)

“Estou esquecido como um morto, exceto pelos meus inimigos, que, estes sim, velam e avançam para me prender, enquanto sou para os meus próximos como uma coisa molesta, humilhante... e que se repele” (Sl 31, 12-13). “Pouco falta para que me censurem pela minha fraqueza e pela minha miséria...” (Eclo 13, 25), como se delas fosse Eu o culpado!

Tanto é verdade que aos entes superiores não lhes é lícito tornarem-se homens... sob pena de perderem todo crédito entre os outros homens.

A verdadeira humildade só de Deus é compreendida.

Quando Jesus viu que aquele apoio humano Lhe era recusado, quis então lançar-se desesperadamente para o lado do Céu.

Eis porém já mais de uma hora que Ele bate à porta do Coração de Deus por aquela palavra que conhecera sempre vencedora de todas as resistências: Pai, meu Pai, tudo Vos é possível... Meu Pai... Abba Pater!
Que doce humildade neste termo já tão doce!

E o Pai queda surdo; o Filho continua a tremer, a agonizar.

E depois das lágrimas é o Seu Sangue que corre, e nada vem do alto.
Nós temos horas semelhantes, e foi para as consolar que lhes quis Jesus sentir o peso.

Desde aquela agonia, se a terra nos repele e se Deus parece rejeitar-nos, temos um socorro. Podemos refugiar-nos no sofrimento cruel do abandono do Cristo, e dizer-Lhe com a certeza de encontrar eco:

– Vós pelo menos, Vós podeis, Vós deveis compreender-me.

Non habemos Pontificem qui non possit compati”, “Não temos um Pontífice que não possa compadecer-se...” (Hbr 4, 15).

Indubitavelmente Deus tivera sempre piedade dos homens, como de Sua melhor obra; era uma alta piedade. A partir de Jesus Cristo, porém, foi preciso achar um novo termo para designar a piedade que se abaixa a todas as chagas, porque as experimentou todas: é a compaixão.

E nós temos agora um Deus que... compadece.

Enquanto esse divino Salvador deixa assim penetrar no Coração esse gládio doloroso que Lhe permitirá doravante ser compassivo, o Céu parece entreabrir-se. Um raio de luz resvala na noite e vem incidir naquele Corpo que sofre e naquela Alma que agoniza.

O Pai ouviu.

O Filho ergue a cabeça para ver algo da Face augusta do Pai, aplica o ouvido para Lhe ouvir a palavra consoladora.

Vê só um Anjo.

O Evangelho nada nos conservou a mais. A piedade e a mística têm-se esmerado em pesquisar que Anjo era esse: Miguel ou Gabriel? Era mister nada menos que o mais elevado dos Espíritos Celestes.

Fiquemos na simplicidade do texto:

Apparuit illi Angelus – desceu um Anjo... é o bastante.

Deus não fala – o Pai se cala. O tempo passou em que a Voz dizia do alto, doce como a pomba do batismo, forte como o estrépito do trovão no Tabor e no Templo: Este é o meu Filho dileto, em quem pus todas as minhas complacências.

Neste hora não há mais Filho, não há mais Deus aparentemente... há o Pecador... há o Pecador universal...

“Eu Lhe mando porém o meu Anjo – porque o prometi mesmo ao pecador... mas não Lhe mando senão isto...

Apparuit illi Angelus.

É então um Anjo... um Anjo cujo nome não conhecemos... um desconhecido.
E que faz ele? Uma palavra o revela:

Confortans – fortifica – , vem para levantar, para dar coragem.
E Jesus escuta... baixando a cabeça, de mãos postas... humilhado desse socorro do alto que vem de um ser tão inferior... porém agradecido – pois tinha precisão dele.

Não procuremos penetrar indiscretamente as razões: é de joelhos que cumpre degustar essa humilhação tão consoladora. Basta que saibamos que Ele, Jesus, recebeu conforto do Anjo... e que nós teremos, sem dúvida alguma de O imitar sobre este ponto.

Efetivamente, seja qual for a sua força nativa ou adquirida, vem sempre uma hora, ainda que seja só a última, em que o homem tem necessidade de ser fortalecido.

Ora, bastas vezes Deus permite que o socorro necessário nos venha de um ser desconhecido... e até inferior, a fim de que de um lado sintamos mais a nossa fraqueza, e de outro reconheçamos melhor a fonte de todo benefício, que é Ele só.

Por mais que procuremos conchavar a nossa vida e a nossa morte, haverá sempre lugar para a surpresa vivida por Jesus Cristo.

Como o Salvador agonizante... procuraremos talvez em torno de nós os nossos próximos e os nossos amigos.

A surpresa não lhes terá permitido estarem lá; ou distanciá-los-á o decôro... e então os nossos olhos se fecharão sob semblantes que não terão conhecido.

Como Jesus ainda, procuraremos um arrimo nessa suprema penúria. Só acharemos talvez a mão de um estranho... e o socorro de um sacerdote de ocasião, pedido às pressas; e todavia tínhamos almejado e preparado melhor.

Baixemos a cabeça, juntemos as mãos, aceitemos o anjo consolador qualquer que seja, deixemo-nos fortificar por essa palavra desconhecida: beijemos este traço de semelhança com o nosso divino Mestre, e como Ele reergamo-nos corajosos para irmos aonde Deus quiser.

+ + +

(2ª parte da obra “A subida do Calvário”, do pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.
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