segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O HEROÍSMO pelo Papa Pio XII


Quantas vezes ouvistes repetir que "a vida do homem sobre a terra e uma luta"! Se a vida do homem sobre a terra é uma luta, porque o homem é composto de espírito e de corpo, existem dois campos de luta e de combate: um de combate corpóreo sobre o terreno material; outro de combate espiritual no íntimo de seu espírito. Todo combate e todo campo têm seus perigos, as suas disputas, as suas virtudes, os seus heróis e atos heróicos, seus heróicos triunfos e coroas.

As lutas corpóreas são abertas e claras; batalhas, vitórias e coroas ocultas, só de Deus conhecidas e por mais premiadas. A Ele somente são plenamente óbvios os méritos e as disputas que exaltam e elevam sobre os altares os heróis da virtude.

Sobre os campos de batalha, no céu e nos mares, quantos heroísmos resplandecem aquela fortaleza de ânimo que afronta os perigos de morte! Heroísmos manifestos de jovens militares e de intrépidos capitães, de coortes e de legiões, de sacerdotes que no meio do furor das lutas confortam feridos e moribundos, de enfermeiros e de enfermeiras que curam as doenças e as chagas. Pois, se toda guerra, que se alastra entre os povos, faz sofrer e causa horror a todo coração nobre, no qual a caridade de Cristo, que abraça amigos e adversários vive e tudo urge e inflama, não se pode porém negar que tão ferozes e cruéis turbilhões, com as austeras obrigações que impõem aos combatentes e aos não combatentes, suscitem horas e momentos de provas luminosas, nas quais se revelam as grandezas, muitas vezes insuspeitadas e inesperadas, de almas heróicas, sacrificando tudo, até a própria vida, para o cumprimento daqueles deveres, que lhes dita a consciência cristã.

Mas estaria bastante errado quem acreditasse que a grandeza de alma e heroísmos sejam virtudes reservadas, quase como flores extraordinárias, só para os campos cruentos, para os tempos de guerra, de catástrofes, de cruéis perseguições, de bruscas mudanças sociais e políticas. Ao lado destes heroísmos mais visíveis, desta magnanimidade e destes arrojos fúlgidos, surgem e crescem nos recessos dos vales e dos campos, nas estradas e nas sombras das cidades, velados pelo melancólico fluir da vida cotidiana, muitos atos não menos heróicos, brotando secretos competidores dos mais belos fatos propostos à admiração comum.

Não é porventura heróico o homem de negócios, o patrão de uma grande indústria, o qual, vendo-se reduzido aos extremos e quase à ruína, por acontecimentos adversos, imprevistos, enquanto a via fácil de salvação seria para ele recorrer a um dos expedientes que o mundo leviano escusa e absolve, quando leva ao sucesso, mas que a moral cristã não admite, - entra em si mesmo e interrogada a própria consciência, não desobedece à resposta que ela lhe fornece, mas como fiel cristão, rejeita um meio que lese a justiça, e prefere ruína e miséria a uma ofensa de Deus e do próximo?

Não é heróica a jovem pobre, que mal pode dar um pedaço de pão à velha mãe e aos irmãos órfãos com o escasso salário que recebe, mas afasta toda fácil condescendência e guarda energicamente a sua honra e o seu coração, intrépida em rejeitar o favor de um imoral doador de trabalho, desprezando abundantes e mal adquiridos ganhos, que poderiam retirá-la de sua penúria?

Não é heróica a menina, mártir de seu candor, que oferece a Deus, impurpurado pelo próprio sangue, o lírio de sua virginal virtude?

São estes heroísmos de justiça, heroísmo de cristã dignidade feminina, heroísmo digno dos anjos: heroísmos secretos, que sobressaem juntamente com os heroísmos da fé, da confiança em Deus, da paciência, da caridade nos hospitais civis e de guerra, ao longo dos caminhos dos arautos de Cristo nas terras dos infiéis, onde quer que a fortaleza de alma se ajunte ao amor de Deus e do próximo.

Não há de que se surpreender que também na sombra das paredes domésticas se esconda o heroísmo da família, e que a vida dos esposos cristãos tenha, ela também, seus heroísmos escondidos; heroísmos extraordinários em situações duramente trágicas e muitas vezes ignoradas pelo mundo; heroísmos cotidianos na farta sucessão de sacrifícios a cada hora renovada; heroísmos do pai, heroísmos da mãe, heroísmos de ambos juntamente.

(Discurso aos esposos, 13 de agosto, 1941.)

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos.  
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