terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sobre Escandalizar-se

Nota do blogue: Segue a tradução de um belíssimo texto do Padre Frederick William Faber disponibilizada no blogue do meu amigo Felipe Coelho. Discordo da sua posição sedevacantista o que não me impede de publicar textos traduzidos por ele e que se identificam com o meu blogue. Agradeço a tradução que fará muito bem às almas. Deus lhe pague, Felipe, e que Nossa Senhora o proteja juntamente com sua família.

Saudações,
A grande guerra

Sobre Escandalizar-se


Cap. VIII das
Conferências Espirituais
(Londres, 1859)

Padre Frederick William FABER (1814-1863),
do Oratório

Causar escândalo é falta grave, mas receber escândalo é falta mais grave ainda. Implica maior maldade em nós e faz maior dano aos outros.

Nada escandaliza mais rápido do que a rapidez em se escandalizar. Vale a pena considerarmos isso. Pois encontro numerosíssimas pessoas moderadamente boas que pensam que não tem problema escandalizar-se. Consideram isso uma espécie de prova de sua própria bondade e de delicadeza de consciência, quando na realidade é somente prova de sua presunção desordenada ou então de estupidez extrema. É um infortúnio para elas quando é este último o seu caso, pois então ninguém tem culpa além da natureza inculpável. Se, como disseram alguns, o homem estúpido não pode ser Santo, ao menos sua estupidez nunca poderá fazer dele um pecador. Ademais, as pessoas em questão parecem muitas vezes sentir e agir como se a sua profissão de piedade envolvesse alguma espécie de designação oficial para escandalizar-se. É o negócio delas receber escândalo. É seu modo de testemunhar a Deus. Demonstraria culpável inércia na vida espiritual se não se escandalizassem. Pensam que sofrem muitíssimo enquanto estão se escandalizando, ao passo que, na verdade, gostam disso impressionantemente. É uma agitação prazerosa, que diversifica deliciosamente a monotonia da devoção. Elas, na realidade, não caem por causa do pecado de seu próximo, nem o pecado dele por si só as detém no caminho da santidade, nem tampouco amam menos a Deus por causa daquele pecado: todas coisas que deveriam estar implicadas no receber escândalo. Mas elas tropeçam de propósito e cuidam que seja diante de alguma falta de seu próximo, para que possam chamar a atenção para a diferença entre ele e elas próprias.

Há certamente muitas causas legítimas para escandalizar-se, mas nenhuma mais legítima do que a facilidade quase jactanciosa de se escandalizar que caracteriza tantas pessoas supostamente religiosas. O fato é que proporção imensa de nós é fariseu. Para cada homem piedoso que torna a piedade atraente, há nove que a tornam repugnante. Ou, noutras palavras, somente uma em cada dez pessoas reputadas espirituais é realmente espiritual. Aquele que, durante vida longa, mais se escandalizou, fez mais injúria à glória de Deus e foi, ele próprio, pedra de tropeço real e substancial no caminho de muitos. Foi ele fonte inesgotável de odiosa desedificação para os pequenos de Cristo. Se um desses tais ler isto, escandalizar-se-á de mim. Tudo aquilo de que ele não gosta, tudo aquilo que o desvia de sua maneira estreita de ver as coisas, é para ele um escândalo. É o modo farisaico de expressar diferença de opinião.

Os homens gostam maravilhosamente de ser papas, e o mais enfadonho dos homens, se ao menos tiver, como costuma ter, obstinação proporcionada à sua enfadonhice, pode na maioria das vizinhanças esculpir para si um pequeno papado; e se à sua enfadonhice ele conseguir acrescentar pomposidade, poderá reinar gloriosamente, pequeno concílio ecumênico local em sessão intermitente durante todas as quatro estações do ano. Quem tem tempo suficiente, ou ânimo suficiente, ou esperança suficiente, para tentar persuadir a esses homens? Eles não nos são suficientemente interessantes para serem dignos de os persuadirmos. Deixemo-los a sós com a sua glória e a sua felicidade. Tentemos persuadir a nós mesmos. Nós mesmos não nos escandalizamos com demasiada frequência? Examinemos a questão e vejamos.

Agora, eis aqui algo em que muitas vezes meditei. Certamente ninguém é capaz de se lembrar de tudo nas volumosas vidas dos Santos, pois levaria uma vida inteira para lê-las todas. Mas não me lembro de ter lido de nenhum Santo que tenha alguma vez se escandalizado. Se isso é ainda que aproximadamente verdadeiro, a questão está decidida de imediato. Homens inchados, inflados de auto-importância, que veem faltas nos outros com olhos de lince, criticam-nos com hábeis sarcasmos e se deleitam no pedantismo de um estado de espírito judicial, somente de modo humorístico podem aplicar a si mesmos o nome de pequenos de Cristo. Todavia os livros nos contam que há dois tipos de escândalo: o escândalo dos pequenos de Cristo e o escândalo dos fariseus. Segue-se, então, que esses homens devem ser fariseus. Mas eu digo que, se essa observação sobre os Santos for ainda que aproximadamente verdadeira, ela deve frear-nos, e fazer-nos pensar muito, caso sejamos homens sérios, embora não Santos; e o que pertence aos Santos de modo algum se aplica a nós com segurança sob todos os aspectos. Suponhamos que não seja estritamente verdadeira. Suponhamos que seja somente coisa rara para os Santos escandalizar-se. Podemos tirar disso conclusão suficientemente ampla, para nos ser muito prática. Pois podemos inferir que é questão sobre a qual pessoas que almejam ser espirituais não têm como precaver-se o bastante. Toda a vez que nos escandalizamos, corremos grande risco de pecar, e risco múltiplo assim como grande. Corremos o risco de prejudicar a glória de Deus, de desonrar ao nosso Santo Senhor, de dar escândalo substancial a outros, de quebrar nós mesmos o preceito da caridade, de indiscrição altamente culpável e, no mínimo dos mínimos, de entristecer o Espírito Santo em nossas próprias almas. Há aqui o bastante para fazer valer a pena investigar.

Vejamos, primeiro que tudo, a quantidade de maldade que o hábito de se escandalizar implica. Implica orgulho silencioso, que é totalmente inconsciente de quão orgulhoso é. O orgulho é a negação da vida espiritual. Orgulho espiritual significa que não temos vida espiritual, mas, em lugar dela, a posse desse mau espírito. O orgulho já é difícil o bastante de administrar mesmo quando dele estamos cientes, mas um orgulho que não tem consciência de si próprio é coisa muito desesperada. Frequentemente, parece como se a graça só o pudesse atingir através da queda em pecado grave, que despertará sua consciência e, no mesmo instante, transformá-lo-á em vergonha. Ora, o hábito de escandalizar-se indica aquele pior tipo de orgulho, um orgulho que acredita ser a humildade. Qualquer coisa próxima a um hábito de receber escândalo implica também a existência de uma fonte de falta de caridade nas profundezas do nosso íntimo, que a graça e a mortificação interior ainda não alcançaram ou não conseguiram influenciar. Se prestarmos atenção em nós mesmos, descobriremos que, contemporaneamente com o nosso escandalizar-se, houve uma ou outra mágoa em estado de agitação dentro de nós. Quando estamos bem dispostos, não nos escandalizamos. É um ato que não é preponderantemente acompanhado de benevolência. Uma tristeza genuinamente mansa pela pessoa ofensora não é nem o primeiro pensamento nem o pensamento predominante em nossa mente quando nos melindramos. É fruto geralmente de um humor maligno. Às vezes, de fato, brota da morosidade, ocasionada por adotarmos uma gravidade que não fica bem em nós, porque vai contra a simplicidade. Precipitamo-nos em reminiscências e descobrimos que nos entregamos de cabeça à rabugice. Nem, tampouco, pode o ato de escandalizar-se ser muito frequente em nós, sem que implique também um hábito formado de julgar os outros. Numa pessoa realmente humilde ou naturalmente empática, o instinto de julgar os outros é coberto, e como esmagado, por outras e melhores qualidades. Tem de se empenhar e de fazer grande esforço antes de conseguir chegar à superfície e se fazer valer, ao passo que já está na superfície, óbvio, preparado, disponível e predominante no homem que é dado a escandalizar-se. Será com frequência permitido julgar ao nosso próximo? Certamente sabemos que deve ser a coisa mais rara possível. Ora, não temos como nos escandalizar sem primeiro formar um juízo; segundo, formar um juízo desfavorável; terceiro, entretê-lo deliberadamente como motivação propulsora que nos inclina a fazer ou omitir alguma coisa; e quarto, fazer tudo isso predominantemente em temas de piedade, que, em nove entre dez casos, nossa óbvia ignorância subtrai de nossa jurisdição.

Também indica carência generalizada de espírito interior. A graça sobrenatural de um espírito de interioridade, dentre outros de seus efeitos, produz os mesmos resultados do dom natural da profundidade de caráter; e, a este, junta a engenhosa doçura da caridade. Um homem irrefletido ou superficial tem maior probabilidade de se escandalizar do que qualquer outro. Não consegue conceber nada além do que ele vê na superfície. Ele tem apenas pouco auto-conhecimento e dificilmente suspeita da variedade ou complicação de suas próprias motivações. Muito menos, então, tem ele probabilidade de adivinhar com discernimento as causas ocultas, as desculpas ocultas, as tentações ocultas, que podem estar, e frequentemente estão, por trás das ações dos outros. Assim também é, em questões espirituais, com um homem que não tenha espírito de interioridade. Há não somente uma temeridade, mas também uma grosseria e vulgaridade em seus julgamentos dos outros. Algumas vezes ele só enxerga superficialmente. Isso se ele for um homem estúpido. Se for homem sagaz, ele enxerga mais fundo do que a verdade. A vulgaridade dele é do tipo sutil. Ele conecta coisas que não tinham conexão real na conduta do próximo. Sendo ele próprio baixo, suspeita de baixeza nos outros. Se ele visse um Santo, ele o julgaria, ou ambicioso, teimoso, ou hipócrita. Ele enxerga complôs e conspirações até mesmo na mais impulsiva das naturezas. É absolutamente incapaz de julgar do caráter. Consegue apenas projetar suas próprias possibilidades de pecado nos outros e imaginar que o caráter deles seja aquilo que ele sente que, fosse-lhe a graça retirada, seria o seu próprio. Ele julga como julga o homem cuja razão está ligeiramente instável. É astuto em vez de perspicaz. Para homens sagazes a caridade é quase impossível, se não tiverem espírito de interioridade.

Descobriremos também que, quando caímos para o caminho do escandalizar-se, há algo de errado com nossas meditações. Há ocasiões em que nossas meditações são ineficazes. Com alguns homens isso é assim quase durante a vida toda. O fato é que o hábito da meditação, por si mesmo, não basta para tornar-nos interiores. Quando a vida espiritual de um homem reduz-se à prática da meditação cotidiana, vemos que ele logo perde o controle de sua língua, seu humor e suas mágoas. Sua meditação matutina é inadequada para preencher de doçura o seu dia inteiro. É demasiado fraca para deter a presença de Deus na alma até à noite. Como as intenções gerais, tem ela possibilidades teológicas que quase nunca são realidades práticas. É como um arbusto plantado na argila: se não cavamos em volta dele e deixamos entrar o ar e a umidade, ele não crescerá. Seu crescimento é retardado e impedido. É um estado de coisas perigoso quando nossa meditação não passa de uma ilha, num dia, de resto, inundado de mundanidade e conforto. Pois devemos recordar que o conforto é dos piores tipos de mundanidade e encontra asilo facilmente em nossos próprios aposentos, a certa distância do mundo frívolo, barulhento e dissipado. Não estamos longe de algum sério infortúnio quando a mortificação e o exame de consciência desertaram de nossa meditação e deixaram-na à sua própria sorte. O hábito de receber escândalo revela-nos muitas vezes que estamos nesse estado ou tendendo rapidamente a ele.

Também envenena muitas outras coisas boas e profana coisas santas, quase tornando-as positivamente sacrílegas. Infunde algo de chicaneiro em nossa própria oração de intercessão. Transforma nossas leituras espirituais em silenciosa pregação aos outros. Encanta as flechas do pregador para longe de nós e, com habilidade satisfeita, mira-as nos outros que temos perante o olhar de nossa mente. É joguete do que quer que haja de mesquinho e detestável em nossas disposições naturais; e torna a nossa própria espiritualidade a-espiritual, ao torná-la sem caridade. Toda essa maldade complicada, ele implica já existir em nós; e a fomenta e intensifica toda para o futuro, ao mesmo tempo que a implica no presente. É, portanto, patente que nos faria bem escandalizarmo-nos com o nosso escandalizar-se, ao vermos que revelação degradante é ele, para nós, de nossa própria miséria e mesquinhez. Estamos visando a uma vida devota. Mal acabamos de nos livrar dos pântanos do pecado mortal. Conhecemos alguma coisa dos caminhos da graça. Temos o modelo dos Santos. Estamos mais ou menos familiarizados com o ensinamento dos autores espirituais. Não estamos obrigados, seja por causa da nossa ignorância ou por causa da nossa fraqueza, a olhar para a conduta dos outros como regra da nossa. Daí que, em nosso caso, escandalizar-se é nem mais nem menos que julgar, e devemos tratar a tentação a isso como trataríamos qualquer outra tentação contra a caridade; a saber: devemos contê-la, puni-la, detestá-la, tomar resolução contra ela e dela nos acusarmos na confissão. Devemos nos precaver também contra os seus artifícios. Pois ela tem muitas trapaças, e estas são com frequência bem-sucedidas. Mestres, pais e diretores conhecem bem um estratagema dos que estão sob o seu cuidado e controle, e que criticam, ao menos com insinuações, o seu governo ou direção: esse truque consiste em se acusarem a si mesmos de se terem escandalizado com a conduta de seus superiores e diretores. É engenhoso, mas rapidamente se esgota. Os diretores aprendem cedo a sufocar a sua própria curiosidade e não permitir que seus críticos auto-iludidos lhes digam o que os escandalizou, já que não podem nem sequer prestar ouvidos a isso sem comprometer a sua dignidade e abrir mão da sua influência. Numa palavra, descobriremos como conclusão mais segura e verdadeira a tirar, a de que devemos considerar a tentação de escandalizar-se como absolutamente maligna, sem atenuantes, tentação esta a que nenhuma trégua deve ser dada e a cujas eloquentes súplicas por delicadeza de consciência nenhuma audiência deve ser concedida além daquela do desprezo tranquilo.

Agora que consideramos a maldade existente que a prontidão em escandalizar-se implica em nós, podemos considerar o modo como ela nos estorva na conquista da perfeição. Estorva-nos na aquisição do auto-conhecimento. A vigilância sobre nós mesmos não é nada menos que uma verdadeira mortificação. Avidamente agarramos a menor desculpa para direcionar nossa atenção para longe de nós próprios, e a conduta alheia é o objeto mais prontamente disponível ao qual nos voltamos. Ninguém é tão cego para suas próprias faltas como o homem que tem o hábito de detectar as faltas alheias. Isso também nos faz sabotar-nos a nós mesmos. Acabamos interceptando a luz do sol que recairia em nossa própria alma. Um homem que é sujeito a escandalizar-se nunca é homem alegre e jovial. Nunca tem uma luz clara ao seu redor. Ele não é feito para a felicidade, e já houve algum homem melancólico tornado Santo? Um homem abatido é matéria-prima que só pode ser transformada num cristão muito ordinário. Ademais, se tivermos um mínimo de seriedade em nós, o nosso escandalizar-se deve, por fim, tornar-se para nós fonte de escrúpulos. Se não é exatamente a mesma coisa que a chicanice, quem traçará a linha divisória entre os dois? Sabemos muito bem que não é em nossos melhores momentos que nos escandalizamos, e deve ocorrer-nos gradativamente que é, tantas vezes, contemporâneo com um estado espiritual enfermiço, que a coincidência é praticamente impossível de ser acidental. Ao mesmo tempo, o ato é tão intrinsecamente mesquinho em si mesmo, que tende a destruir todos os impulsos generosos em nós mesmos. Ninguém pode ser generoso com Deus que não tenha amor largo e abrangente por seu próximo.

Ademais, destrói nossa influência nos demais. Irritamos quando devíamos animar. Ser suspeito de falta de simpatia é ficar incapacitado como apóstolo. Quem é crítico será necessariamente não persuasivo. Até na literatura, que departamento seu é menos persuasivo, e portanto menos influente, que o da crítica? Os homens entretêm-se com ela, mas não formam os seus juízos com base nela. Há pouca coisa no universo literário mais impressionante do que o peso ínfimo da crítica comparado à sua quantidade e habilidade. Gostamos de encontrar defeitos; nunca, porém, somos atraídos por outros que encontram defeitos. É o último refúgio de nossa boa disposição o gostarmos de ter o monopólio da censura. Além do mais, esse hábito nos enreda numa centena de dificuldades auto-suscitadas acerca da correção fraterna, essa rocha das almas estreitas; pois a presunção de um homem é, em geral, proporcional à estreiteza dele. Os homens despertam às vezes, e descobrem que se puseram quase inconscientemente numa posição falsa. É este um negócio terrível na espiritualidade. É mais difícil de nos endireitarmos, do que recuperar o nosso equilíbrio depois de um pecado. No entanto, a suposta obrigação da correção fraterna está sempre nos seduzindo a posições falsas. Ela também atrai a nossa atenção para longe de Deus, e fixa-os, com um tipo de seriedade doentia, nas pusilanimidades e misérias terrenas. É ruim o bastante desviar os olhos de Deus ao olhar demais para nós mesmos, mas tirar os olhos de Deus para olhar os nossos próximos é mal maior ainda. Transtorna por inteiro o mundo interior do pensamento, do qual o exercício da caridade tanto depende. Impede-nos de alcançar o governo da língua. Impede que tenhamos sucesso em boas obras nas quais a cooperação livre e zelosa com outros é necessária. É o disfarce que a inveja está eternamente a tomar e chamar pelo nome de cautela. No fim, pensamos que todas essas coisas sejam virtudes, quando são, na realidade, vícios da mais desagradável descrição.

Não penso que eu tenha exagerado o mal dessa rapidez em receber escândalo. Confesso que é falta que me vexa mais do que muitas outras, e por muitas razões. Suas vítimas são homens bons, homens muito promissores, e cujas almas foram palco de operações da graça não desconsideráveis. Apodera-se deles, em sua maioria, no exato momento em que dons mais altos parecem estar se abrindo para eles. Sua peculiaridade consiste nisto, que é incompatível com as graças mais altas da vida espiritual, conspurca aquilo que já estava agora quase limpo e torna vulgar aquilo que estava a ponto de consolidar seu título à nobreza. Quando consideramos como são muitos os chamados à perfeição e poucos os perfeitos, não podemos quase dizer que fazemos bem em nos zangar com aquele mal, que tão certeira e eficazmente estraga o trabalho da graça?

Em que consiste a perfeição? Numa caridade infantil, de vistas curtas, caridade que acredita em todas as coisas; numa grande convicção sobrenatural de que todo o mundo é melhor do que nós; em estimar muito reduzida a quantidade de mal no mundo; em olhar demasiado exclusivamente para o que é bom; na engenhosidade de interpretações benévolas; numa desatenção, quase ininteligível, para as faltas dos outros; numa graciosa perversidade de incredulidade sobre escândalos, que por vezes, nos Santos, chega perto de constituir um escândalo por si só. Essa é a perfeição; esse é o temperamento e o gênio dos Santos e dos homens que os imitam. É uma vida de desejo, esquecida das coisas terrenas. É uma fé radiante e enérgica de que a lentidão e frieza do homem não interferirão no sucesso da glória de Deus. Ao mesmo tempo, porém, lutando instintivamente, pela prece e reparação, contra os males nos quais não se permite a si próprio crer conscientemente. Nenhuma sombra de morosidade cai jamais sobre a mente brilhante de um Santo. Não é possível que venha a fazê-lo. Finalmente, a perfeição tem o dom de penetrar no universal Espírito de Deus, adorado de tantos jeitos diferentes, e está contente. Ora, tudo isso não é, simplesmente, o exato oposto do temperamento e do espírito de um homem que está sujeito a escandalizar-se? A diferença é tão manifesta, que é desnecessário comentá-la. Feliz de quem, em seu leito de morte, pode dizer: “Ninguém jamais me escandalizou na minha vida!Ele ou não viu as faltas do próximo ou, quando as viu, a visão delas para alcançá-lo tinha de atravessar tanta luz solar dele próprio, que as faltas alheias não o atingiram tanto como faltas a culpar, mas antes como razões para um mais profundo e terno amor.
(“On Taking Scandal“, cap. VIII das Spiritual Conferences, Londres, 1859, pp. 305-315)

PS.: Grifos e desenhos ilustrativos meus.
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